Mapa de questões · 2º dia
Questão 99 — ENEM 2022 PPLCaderno azul · 2º Dia
Escrito em 1897, pelo britânico H. G. Wells (1866- 1946), O homem invisível é um livro que narra a história de um cientista que teria desenvolvido uma forma de tornar todos os tecidos do seu corpo transparentes à luz, ao fazer o índice de refração absoluto do corpo humano corresponder ao do ar. Contudo, Wells não explorou no livro o fato de que esse efeito comprometeria a visão de seu protagonista.
Nesse caso, qual seria a deficiência visual provocada?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Física → Óptica Geométrica (refração da luz e fisiologia da visão)
- ⚡ Nível: Difícil — exige perceber que a retina, ao ficar transparente, também perde a capacidade de absorver luz, e não apenas de focalizá-la.
- 🎯 Tema/Habilidade: Refração da luz e formação de imagens no olho humano — interpretar um fenômeno físico a partir de uma situação hipotética de ficção científica
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Se o índice de refração absoluto do corpo humano se igualasse ao do ar, que problema de visão isso causaria no próprio 'homem invisível'?"
- Palavras-chave decisivas: índice de refração absoluto, corresponder ao do ar, comprometeria a visão
- Armadilha típica: pensar só em "imagem borrada" e marcar miopia ou hipermetropia, como se a ausência de refração fosse apenas um erro de foco, e não a ausência total do processo óptico da visão.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a visão exige refração (formar imagem) e absorção na retina (gerar sinal nervoso) — sem diferença de índice em relação ao ar, nenhuma das duas ocorre.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Refração da luz: mudança de direção do raio ao passar entre meios de índices diferentes (Lei de Snell: n₁senθ₁ = n₂senθ₂). Se n₁ = n₂, o raio segue em linha reta, sem desviar.
- Formação de imagem no olho: córnea, humor aquoso, cristalino e vítreo têm índices maiores que o do ar; é essa diferença que curva os raios e os faz convergir sobre a retina, formando imagem nítida.
- Absorção na retina: a visão só existe porque cones e bastonetes absorvem os fótons recebidos, disparando a fototransdução — conversão de luz em sinal elétrico enviado ao cérebro.
- Transparência = ausência de interação com a luz: um corpo transparente não reflete nem absorve luz de forma perceptível, só a transmite — e esse mecanismo vale para todos os tecidos, inclusive os do olho.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "índice de refração absoluto do corpo humano corresponder ao do ar" → a mudança é total: córnea, humor aquoso, cristalino, vítreo e retina passam todos a se comportar opticamente como o ar.
- Evidência 2: "Wells não explorou [...] que esse efeito comprometeria a visão" → há uma consequência física inevitável, ignorada na ficção, a ser deduzida da óptica real do olho.
- Síntese: se cada parte do olho — inclusive a retina — perde a diferença de índice em relação ao ar, somem juntos dois processos essenciais: a refração que focaliza a luz e a absorção que a capta na retina. Sem os dois, não há formação de imagem nem sinal nervoso.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — O papel da refração na formação da imagem
Normalmente, a luz atravessa meios oculares com índice maior que o do ar (córnea ≈ 1,376; humor aquoso ≈ 1,336; cristalino ≈ 1,406; vítreo ≈ 1,336, contra n ≈ 1,000 do ar). Essas diferenças curvam os raios em cada interface até convergirem sobre a retina. Se n(corpo) = n(ar) em todas as estruturas, não há mais diferença de índice em interface alguma — os raios atravessam o olho em linha reta, sem convergir em ponto algum: não há formação de imagem sobre a retina, nem nítida, nem borrada.
Subpasso 4.2 — O papel da absorção na retina
Este é o ponto mais sutil da questão. Para o corpo inteiro ficar invisível, não basta parar de refratar e refletir a luz: é preciso também parar de absorvê-la, pois um corpo que absorve luz aparece como sombra, mesmo sem refratar. A mesma condição que torna o homem invisível (n = n_ar, sem reflexão nem refração) torna sua retina incapaz de absorver os fótons que a atingem. Sem absorção, cones e bastonetes não capturam energia luminosa para disparar a fototransdução — o sinal elétrico simplesmente não é gerado.
Subpasso 4.3 — Verificação: somando as duas falhas
Sem refração, nenhuma imagem se forma na retina; sem absorção, mesmo que luz alcançasse a retina, ela não seria captada pelos fotorreceptores — apenas a atravessaria, como atravessa o resto do corpo transparente. As duas falhas juntas eliminam por completo a capacidade de ver: não sobra imagem distorcida nem percepção vaga de luz e sombra. O resultado fisicamente coerente é a perda total da visão — cegueira.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Miopia.
❌ Incorreta: pressupõe que a refração ainda ocorre, mas com foco antes da retina (olho longo ou córnea/cristalino muito curvos). Aqui não há refração alguma — logo, não existe ponto focal em lugar nenhum.
B) Cegueira.
✅ Correta: com n(corpo) = n(ar) em todo o olho, não há refração (nenhuma imagem se forma) e, por decorrência da própria transparência, não há absorção de luz pelos fotorreceptores (nenhum sinal nervoso é gerado). A soma dessas duas ausências resulta em perda total da visão.
C) Daltonismo.
❌ Incorreta: decorre de alteração genética nos pigmentos dos cones, responsáveis pela percepção de cores — sem relação com índice de refração. O problema da questão é óptico e estrutural, não bioquímico.
D) Astigmatismo.
❌ Incorreta: resulta de curvatura irregular da córnea, que ainda refrata a luz, só que de forma assimétrica, gerando múltiplos focos. Isso pressupõe refração contínua, o que contraria n(corpo) = n(ar).
E) Hipermetropia.
❌ Incorreta: exige refração normal, com foco formando-se atrás da retina (olho curto ou cristalino com refração insuficiente). Novamente pressupõe refração existente, impossível quando os índices se igualam.
🏆 Gabarito: B — sem diferença de índice de refração entre corpo e ar, o olho perde ao mesmo tempo a capacidade de refratar a luz (formar imagem) e de absorvê-la na retina (gerar sinal nervoso), resultando em cegueira total, não em um simples erro de foco.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a cegueira (B) descreve perda TOTAL de visão; as demais alternativas são defeitos parciais que pressupõem refração — incompatível com n(corpo) = n(ar).
- Padrão de cobrança: o ENEM usa textos de ficção científica ou situações hipotéticas para testar se o estudante entende o porquê físico de fenômenos do cotidiano, não apenas fórmulas decoradas.
- Generalização: em óptica do olho humano, separe o processo em duas etapas — refração (formar imagem) e absorção na retina (detectar luz) — e identifique qual delas foi afetada.
- Dica de eliminação rápida: alternativas que descrevem "onde" o foco se forma pressupõem refração; elimine-as quando o enunciado deixar claro que não existe refração alguma. Sobra a opção mais radical: ausência total de imagem, cegueira.
- Conexões: Lei de Snell e refração da luz; lentes corretivas para miopia e hipermetropia; fisiologia da retina e fototransdução visual.
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