Mapa de questões · 1º dia
Questão 90 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

Elaborada em 1969, a releitura contida na Figura 2 revela aspectos de uma trajetória e obra dedicadas à
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Ditadura Militar brasileira e arte/cultura como instrumento de resistência
- ⚡ Nível: Médio — exige cruzar a leitura comparativa de duas imagens com conhecimento sobre a trajetória biográfica da estilista retratada
- 🎯 Tema/Habilidade: Manifestações culturais e artísticas como forma de resistência política; habilidade de relacionar produção cultural a contextos históricos de repressão
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A que se dedicam a trajetória e a obra da estilista, evidenciadas pela releitura de 1969 mostrada na Figura 2?"
- Palavras-chave decisivas: releitura, trajetória e obra, 1969
- Armadilha típica: marcar a alternativa C ("fusão de elementos brasileiros à moda da Europa"), que descreve corretamente um traço estético da peça, mas ignora o que o comando realmente pede — o sentido histórico e político de toda a carreira da artista, não apenas a técnica de costura.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a estudante entende a Figura 2 como resgate consciente de um símbolo popular de rebeldia (o cangaço) e consegue projetar esse gesto sobre o conjunto da obra e da vida da estilista.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Cangaço: movimento de banditismo social que atuou no sertão nordestino nas primeiras décadas do século XX, formado por grupos armados que enfrentavam coronéis, forças policiais e a ordem oligárquica local. Maria Bonita, companheira de Lampião, é um de seus ícones mais reconhecíveis, com indumentária de couro, chapéu de abas largas ornamentado com estrelas e medalhões — um verdadeiro "uniforme" de afirmação e resistência.
- Zuzu Angel: estilista mineira que se tornou referência internacional a partir dos anos 1960 por incorporar à alta-costura elementos da cultura popular brasileira (rendas nordestinas, xadrez caipira, bordados, motivos do cangaço), construindo uma moda com identidade nacional, e não uma simples cópia dos padrões europeus.
- Arte e resistência na ditadura militar (1964-1985): período de censura e repressão política em que diversos artistas — da música (Tropicália, MPB) ao cinema (Cinema Novo) e à moda — usaram sua produção para afirmar identidade cultural e, em muitos casos, denunciar violações do regime. Zuzu Angel radicalizou esse papel depois que seu filho, o estudante Stuart Angel Jones, foi preso, torturado e morto por agentes da ditadura em 1971: a partir daí, ela passou a usar desfiles internacionais (sobretudo em Nova York) como palco explícito de denúncia contra o regime brasileiro.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Elaborada em 1969" → situa a peça no início do período mais duro da ditadura (o AI-5 é de dezembro de 1968), mostrando que o resgate do cangaço já ocorre em um contexto de repressão política crescente.
- Evidência 2: "a releitura contida na Figura 2" → deixa claro que o traje de Zuzu Angel dialoga diretamente com a Figura 1, reproduzindo de forma proposital o chapéu com medalhões, as estampas e as botas do universo cangaceiro.
- Evidência 3 (comparação das imagens): na Figura 1, esses elementos vestem uma cangaceira real, símbolo de enfrentamento à ordem estabelecida no sertão; na Figura 2, os mesmos elementos reaparecem estilizados em uma peça de alta-costura urbana e sofisticada.
- Síntese: a "releitura" não é um mero exercício decorativo de moda regionalista — é a transposição deliberada de um símbolo histórico de contestação popular para dentro da produção artística da estilista, o que antecipa o sentido de resistência que marcará toda a sua trajetória.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Comparar o que a Figura 2 reinterpreta
A Figura 1 mostra Maria Bonita nos anos 1930: vestimenta de couro trabalhado, chapéu de abas largas com estrelas e medalhões metálicos, típico dos cangaceiros — trajes que, além de funcionais para a vida no sertão, funcionavam como marca de identidade de um grupo em conflito armado com o poder estabelecido. A Figura 2 mostra a "releitura" de Zuzu Angel em 1969: o mesmo chapéu ornamentado, estampas elaboradas e botas, agora traduzidos em um macacão de alta-costura contemporâneo. A estilista não apaga os elementos do cangaço; ela os recupera e os recoloca no centro da moda.
Subpasso 4.2 — Conectar a peça à trajetória completa da estilista
O comando pede o que "a trajetória e a obra" revelam — não apenas o vestido isolado. Zuzu Angel ficou conhecida por "abrasileirar" a moda ao incorporar cultura popular às suas coleções, mas o traço que definiu sua carreira de forma mais marcante veio depois: a partir de 1971, com o assassinato de seu filho pela repressão militar, ela transformou seus desfiles internacionais em atos de denúncia explícita contra a ditadura, usando símbolos, cores e narrativas de protesto até sua própria morte, em 1976. Assim, o resgate do cangaço em 1969 — símbolo histórico de rebeldia popular contra a opressão — e o ativismo político posterior formam um mesmo fio condutor: usar a moda como linguagem de resistência.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando essa leitura contra as cinco alternativas, apenas uma expressão sintetiza tanto o gesto pontual da Figura 2 quanto o conjunto da trajetória e obra da estilista: a criação de uma estética de resistência. As demais descrevem ou o oposto do que a imagem mostra, ou apenas um detalhe técnico insuficiente para responder ao comando.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) valorização de uma representação tradicional da mulher.
❌ Incorreta: Maria Bonita não representa um papel feminino tradicional (doméstico, submisso); ela era guerreira e liderança ao lado de Lampião, uma ruptura com o padrão esperado para mulheres da época. A releitura de Zuzu Angel reforça justamente essa imagem transgressora, e não uma feminilidade convencional.
B) descaracterização de referências do folclore nordestino.
❌ Incorreta: ocorre exatamente o contrário do que a alternativa afirma — a estilista preserva e valoriza (não apaga nem descaracteriza) os elementos do cangaço e do folclore nordestino, elevando-os à condição de alta-costura como afirmação de identidade nacional.
C) fusão de elementos brasileiros à moda da Europa.
❌ Incorreta: é a alternativa mais tentadora, pois descreve com precisão um traço estético real do trabalho de Zuzu Angel (silhuetas e técnicas de alta-costura de inspiração europeia aplicadas a motivos brasileiros). No entanto, ela reduz a resposta a uma combinação estética neutra e não dá conta do que o comando pede — o sentido da "trajetória e obra" completas, marcadas pelo engajamento político, e não apenas por uma fusão de estilos.
D) massificação do consumo de uma arte local.
❌ Incorreta: Zuzu Angel produzia alta-costura, peças exclusivas e autorais, destinadas a um público restrito e a desfiles internacionais — o oposto de "massificação" de consumo, que remeteria a produção em escala e popularização ampla, o que não é o caso.
E) criação de uma estética de resistência.
✅ Correta: a releitura de 1969 recupera o cangaço — símbolo histórico de resistência popular contra a opressão no sertão — e antecipa o que se tornaria a marca definitiva da carreira de Zuzu Angel: transformar a moda em instrumento de afirmação identitária e, depois, de denúncia política explícita contra a ditadura militar, após o assassinato de seu filho pelo regime. É essa continuidade entre símbolo popular de rebeldia e ativismo político que define uma "estética de resistência".
🏆 Gabarito: E — a trajetória e a obra de Zuzu Angel, expressas na releitura do traje de Maria Bonita, revelam a construção de uma linguagem estética que une identidade cultural brasileira e resistência política, sobretudo diante da repressão da ditadura militar.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa E articula, ao mesmo tempo, o gesto pontual da Figura 2 (resgate do cangaço, símbolo de rebeldia popular) e o conjunto da trajetória da estilista (o ativismo contra a ditadura após 1971) sob um único princípio — a resistência.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a relação entre produção artística/cultural e contextos de repressão política, especialmente sobre a ditadura militar brasileira (Tropicália, Cinema Novo, MPB engajada, artes visuais e moda), exigindo que o candidato vá além da descrição da imagem e alcance seu significado histórico.
- Generalização: quando a questão associa uma imagem (obra específica) a um comando sobre "trajetória" ou "obra" de um(a) artista, busque o princípio que une o exemplo pontual ao conjunto da carreira e ao contexto histórico — nunca responda apenas com base no que está literalmente desenhado ou fotografado.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que contradizem frontalmente a comparação das imagens (aqui, B e D vão contra o que se vê); depois, entre as restantes, prefira a que expressa um princípio histórico geral (resistência) e não apenas um detalhe técnico e isolado (fusão estética).
- Conexões: Tropicália e censura musical na ditadura militar; Cinema Novo e engajamento político; movimentos de arte latino-americana que usaram elementos populares como afirmação de identidade e resistência.
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