Mapa de questões · 1º dia
Questão 48 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia
A moralidade, Bentham exortava, não é uma questão de agradar a Deus, muito menos de fidelidade a regras abstratas. A moralidade é a tentativa de criar a maior quantidade de felicidade possível neste mundo. Ao decidir o que fazer, deveríamos, portanto, perguntar qual curso de conduta promoveria a maior quantidade de felicidade para todos aqueles que serão afetados.
RACHELS, J. Os elementos da filosofia moral. Barueri-SP: Manole, 2006.
Os parâmetros da ação indicados no texto estão em conformidade com uma
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Ética e correntes de fundamentação moral (utilitarismo)
- ⚡ Nível: Médio — exige distinguir com precisão conceitos filosóficos próximos (religião, convenção social, positivismo, paixão e razão prática), e não apenas identificar o autor citado
- 🎯 Tema/Habilidade: Utilitarismo de Jeremy Bentham e o princípio da maior felicidade — competência de reconhecer processos de pensamento filosófico e correntes éticas normativas (H8/H9, área de Ciências Humanas)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A que tipo de fundamentação moral pertence o critério proposto por Bentham para decidir o que fazer?"
- Palavras-chave decisivas: maior quantidade de felicidade, não é questão de agradar a Deus, nem de fidelidade a regras abstratas
- Armadilha típica: confundir o cálculo utilitarista com "ciência" no sentido positivista, ou supor que, por negar Deus, a proposta seja uma transgressão religiosa — quando na verdade ela é indiferente à religião, não hostil a ela
- O que a resposta precisa demonstrar: compreender que Bentham propõe um critério prático de decisão baseado em consequências (felicidade gerada), e não em fé, tradição, costume ou emoção
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Utilitarismo: corrente ética consequencialista, fundada por Jeremy Bentham (e desenvolvida por John Stuart Mill), segundo a qual uma ação é moralmente correta na medida em que maximiza a felicidade (prazer) e minimiza o sofrimento para o maior número de pessoas afetadas — o chamado "princípio da maior felicidade" (greatest happiness principle).
- Ética deontológica (regras abstratas): corrente que avalia a moralidade de uma ação por sua conformidade a deveres e regras universais, independentemente das consequências (ex.: o imperativo categórico kantiano) — é exatamente o que o texto rejeita ao dizer "muito menos de fidelidade a regras abstratas".
- Fundamentação religiosa da moral: corrente que vincula o certo e o errado à vontade divina ou a mandamentos sagrados — também explicitamente descartada pelo texto ("não é uma questão de agradar a Deus").
- Razão prática/pragmática: modo de raciocínio voltado para a ação e para a avaliação de meios e consequências em vista de um fim (aqui, a felicidade), em contraste com a razão especulativa (busca da verdade teórica) e com impulsos emocionais não calculados.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "não é uma questão de agradar a Deus" → afasta explicitamente qualquer fundamentação teológica ou religiosa da moral (elimina alternativa C).
- Evidência 2: "muito menos de fidelidade a regras abstratas" → rejeita normas fixas e universais desconectadas de resultados concretos — o que distancia a proposta tanto de convenções sociais normativas quanto de éticas deontológicas (elimina alternativa B).
- Evidência 3: "deveríamos [...] perguntar qual curso de conduta promoveria a maior quantidade de felicidade para todos aqueles que serão afetados" → estabelece um critério de decisão orientado a consequências práticas mensuráveis, isto é, um cálculo racional aplicado à ação — a marca de uma racionalidade prática e pragmática.
- Síntese: o texto descreve o método utilitarista de Bentham: decidir agir com base no resultado (felicidade) que a ação produz no mundo real, e não com base em mandamentos divinos, costumes sociais ou impulsos. Esse é o retrato de uma razão aplicada à prática — pragmática por definição.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a corrente filosófica do texto
O trecho de Rachels resume o núcleo do utilitarismo clássico de Jeremy Bentham. A frase-chave é: a moralidade "é a tentativa de criar a maior quantidade de felicidade possível neste mundo". Isso caracteriza uma ética consequencialista, ou seja, o valor moral de uma ação depende do resultado que ela produz (felicidade x sofrimento), e não de sua origem (mandamento divino) ou de sua forma (regra abstrata).
Subpasso 4.2 — Traduzir "consequencialismo" para os termos da alternativa correta
Avaliar ações por seus efeitos práticos sobre a felicidade de todos os afetados é, por definição, um exercício de razão prática: pergunta-se "o que fazer para obter o melhor resultado possível?" — não "o que a tradição, a lei divina ou o costume mandam?". Esse tipo de raciocínio, voltado a calcular meios eficazes para um fim desejado (a felicidade), é chamado de racionalidade pragmática: pragmática porque mede o valor da ação por sua utilidade e seus efeitos concretos no mundo, e não por princípios abstratos ou fontes de autoridade externas.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando a síntese com as cinco alternativas, apenas a opção que fala em "racionalidade de caráter pragmático" (D) capta simultaneamente os dois movimentos do texto: (1) a negação de fundamentos religiosos e normativos-abstratos e (2) a afirmação de um cálculo prático orientado a consequências (felicidade). As demais alternativas nomeiam categorias que o texto explicitamente descarta ou que não correspondem ao raciocínio calculista descrito.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) fundamentação científica de viés positivista.
❌ Incorreta: o positivismo (Auguste Comte) é uma doutrina epistemológica sobre estágios do conhecimento humano, que privilegia o método científico-experimental como única fonte legítima de saber. O texto não fala em método científico, observação empírica ou leis naturais — fala em avaliar ações por seus efeitos sobre a felicidade. É um erro comum confundir o "cálculo" utilitarista com "cientificismo", mas são categorias filosóficas distintas.
B) convenção social de orientação normativa.
❌ Incorreta: convenção social normativa é justamente um tipo de "regra abstrata" — um costume ou norma coletiva que se segue por tradição ou consenso social, independentemente de seus efeitos práticos. O texto rejeita expressamente esse tipo de fidelidade a regras, propondo em seu lugar um cálculo caso a caso das consequências.
C) transgressão comportamental religiosa.
❌ Incorreta: o texto não propõe transgredir ou violar preceitos religiosos por rebeldia; ele propõe um fundamento moral alternativo e independente da religião. Negar que a moral dependa de agradar a Deus não é "transgressão religiosa", mas secularização do critério moral — a moral passa a ser justificada pela razão prática, não pela fé.
D) racionalidade de caráter pragmático.
✅ Correta: o critério bentâmico — escolher o curso de ação que produz a maior felicidade para o maior número de afetados — é um raciocínio prático, calculista e orientado a resultados concretos no mundo, isto é, uma racionalidade pragmática. É a única alternativa compatível com a rejeição simultânea da religião e das regras abstratas presente no texto.
E) inclinação de natureza passional.
❌ Incorreta: o utilitarismo de Bentham não se baseia em sentimentos, impulsos ou paixões espontâneas — ao contrário, propõe um cálculo racional e sistemático (o chamado "cálculo hedonista") para comparar quantidades de prazer e dor. Confia-se na razão que pondera consequências, não em inclinações emocionais não refletidas.
🏆 Gabarito: D — o texto descreve o utilitarismo de Bentham como um critério moral baseado no cálculo racional das consequências (maximizar felicidade), o que configura precisamente uma racionalidade de caráter pragmático, distinta de religião, convenção, ciência positivista ou paixão.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra D é a única alternativa que traduz corretamente um pensamento orientado por resultados práticos (felicidade) e não por autoridade religiosa, costume social, método científico ou emoção — exatamente o que o trecho de Rachels descreve sobre Bentham.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a identificação de correntes éticas (utilitarismo, deontologia kantiana, ética das virtudes, contratualismo) a partir de trechos de textos-base, exigindo que o estudante reconheça o critério de julgamento moral descrito, e não apenas o nome do filósofo.
- Generalização: sempre que um texto filosófico avaliar ações por suas consequências práticas (utilidade, felicidade, bem-estar) em vez de por regras fixas, mandamentos religiosos ou tradições, a resposta caminha para termos como "pragmático", "consequencialista" ou "utilitário".
- Dica de eliminação rápida: leia o texto em busca do que ele nega explicitamente — aqui, "agradar a Deus" elimina religião e "regras abstratas" elimina convenção/normas fixas; sobra apenas a alternativa que descreve cálculo de consequências, quase sempre a opção "pragmática" ou "consequencialista".
- Conexões: compare com o imperativo categórico de Kant (ética deontológica, baseada em dever e regras universais, o oposto do utilitarismo) e com a ética das virtudes de Aristóteles (foco no caráter, não nas consequências) — temas frequentemente contrapostos ao utilitarismo em questões de Filosofia do ENEM.
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