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Questão 15ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

Sítio Gerimum
Este é o meu lugar […]
Meu Gerimum é com g
Você pode ter estranhado
Gerimum em abundância
Aqui era plantado
E com a letra g
Meu lugar foi registrado.

OLIVEIRA, H. D. Língua Portuguesa. n. 88. fev. 2013 (fragmento)

Nos versos de um menino de 12 anos, o emprego da palavra “Gerimum” grafada com a letra “g” tem por objetivo

Alternativas

Resolução

📋 Ficha da questão

  • Matéria: Português → Variação linguística → identidade e lugar de origem
  • Habilidade: H25 — identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades sociais, regionais e de registro
  • Nível: Fácil — os próprios versos explicam por que o menino escolhe o "g", e a explicação está no fecho do poema
  • Gabarito: revelado no Passo 4

🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando

  • O comando, em uma linha: com que objetivo o menino grafa "Gerimum" com "g".
  • Palavras-chave decisivas: emprego da palavra "Gerimum" grafada com a letra "g", tem por objetivo.
  • A armadilha: tratar o "g" como erro. A grafia dicionarizada da abóbora é "jerimum", com "j", e o candidato treinado a caçar desvio de ortografia conclui que o poema ilustra um erro, uma transformação da língua ou a fala popular em geral. O poema faz outra coisa: ele diz que aquele "g" está registrado, que é o nome do lugar dele.
  • O que a resposta precisa mostrar: que você lê a escolha gráfica como escolha de sentido, e que a justificativa está dentro do texto.

📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo

  • Variação linguística: a língua não é uniforme. Ela varia por região, por grupo social, por situação e por época. Nenhuma dessas variedades é errada; o que existe é adequação maior ou menor a cada contexto.
  • Norma-padrão: o conjunto de regras codificado em gramáticas e dicionários, entre as quais a ortografia oficial. A forma registrada para o fruto é "jerimum", de origem tupi. Escrever com "g" foge do padrão ortográfico.
  • Topônimo: nome próprio de lugar. Diferente do nome comum, o topônimo se fixa pelo registro e pelo uso da comunidade, e não precisa acompanhar a grafia do substantivo que lhe deu origem. É por isso que "Gerimum", nome do sítio, pode legitimamente ter um "g" que "jerimum", nome do fruto, não tem.
  • Função identitária da língua: o modo como alguém escreve e fala marca de onde ele vem e a quem pertence. Uma escolha gráfica pode funcionar como assinatura de pertencimento — que é exatamente o conceito por trás do distrator mais forte, o da diversidade étnica.

🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado

  • Evidência 1: "Este é o meu lugar" → o poema abre afirmando posse e pertencimento. O tema não é a palavra: é o lugar.
  • Evidência 2: "Meu Gerimum é com g / Você pode ter estranhado" → o menino antecipa a reação do leitor. Ele sabe que a grafia usual é outra, e defende a sua. O possessivo "Meu" faz o trabalho todo: não é o jerimum, é o Gerimum dele.
  • Evidência 3: "Gerimum em abundância / Aqui era plantado" → a explicação histórica do nome. O sítio se chama assim porque ali se plantava o fruto em quantidade.
  • Evidência 4: "E com a letra g / Meu lugar foi registrado" → o argumento decisivo. O "g" não é descuido: é a forma oficialmente registrada do topônimo. O menino não está errando a palavra; está honrando o nome do seu lugar.
  • Síntese: os seis versos giram em torno de "meu lugar", e a letra "g" é apresentada como aquilo que o identifica. A grafia é o modo de reafirmar o vínculo.

🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo

4.1 — Separar o fruto do lugar

Dois referentes distintos aparecem no poema com o mesmo nome:

  • "jerimum", o fruto, plantado em abundância no sítio — palavra comum, grafia dicionarizada com "j";
  • "Gerimum", o sítio — nome próprio, registrado com "g", como o próprio texto informa.

Quem lê os dois como a mesma palavra conclui que há erro. Quem os separa vê que não há.

4.2 — Localizar a justificativa dentro do poema

O menino não deixa a escolha sem explicação. Ele prevê o estranhamento ("Você pode ter estranhado") e responde com um fato: "com a letra g / Meu lugar foi registrado". A defesa da grafia é, portanto, a defesa do nome do lugar — e, por extensão, do próprio lugar.

4.3 — Nomear o objetivo

O que o texto faz, do primeiro ao último verso, é afirmar pertencimento. Começa em "Este é o meu lugar" e termina em "Meu lugar foi registrado". A letra "g" é o instrumento dessa afirmação: escolher escrever assim é dizer publicamente de onde se vem.

4.4 — Verificação

O objetivo não pode ser confirmar o padrão, porque a grafia foge dele. Não pode ser mostrar mudança da língua, porque o texto trata de um registro fixo. Não pode ser retratar o país inteiro, porque o poema fala de um sítio. Resta a afirmação do vínculo com a origem. Gabarito: E.

✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas

(A) valorizar usos informais caracterizadores da norma nacional — junta dois conceitos que não se juntam. Não existe uma "norma nacional" feita de usos informais; norma é justamente o conjunto codificado. E o poema não apresenta o "g" como uso informal generalizado: apresenta-o como registro oficial de um topônimo específico.

(B) confirmar o uso da norma-padrão em contexto da linguagem poética — inverte o fato. A forma dicionarizada é "jerimum", com "j"; o texto adota a outra. Se algo o poema faz, é mostrar que existe legitimidade fora da grafia usual do substantivo comum.

(C) enfatizar um processo recorrente na transformação da língua portuguesa — extrapola no tempo. O poema não descreve mudança linguística nem alternância histórica entre "g" e "j": descreve uma grafia fixa, registrada, de um nome de lugar. Um caso singular não é processo recorrente.

(D) registrar a diversidade étnica e linguística presente no território brasileiro — distrator mais forte, e por bom motivo: "jerimum" é palavra de origem tupi, o que puxa o candidato para o tema da herança indígena. Mas a alternativa amplia o alcance do poema para o território inteiro, quando os seis versos falam de um sítio, de um menino e do nome dele. Generalizar o que o texto particulariza é o erro.

(E) reafirmar discursivamente a forte relação do falante com seu lugar de origem — é o percurso do poema inteiro, aberto em "Este é o meu lugar" e fechado em "Meu lugar foi registrado". O possessivo em "Meu Gerimum", a antecipação do estranhamento do leitor e a justificativa pelo registro mostram que a letra "g" foi escolhida para marcar pertencimento. A grafia é o meio; a afirmação da origem é o objetivo.

Gabarito: E — o menino defende o "g" porque é assim que o nome do seu lugar foi registrado, e defender essa grafia é afirmar o vínculo com o lugar.

🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova

  • Por que só E se sustenta: as outras quatro leem a letra "g" como fenômeno da língua — norma, informalidade, mudança histórica, diversidade nacional. O poema a lê como fenômeno de identidade.
  • Como o ENEM cobra isso: questões de variação linguística raramente pedem que se aponte erro. Elas pedem a função da forma escolhida: marcar região, marcar grupo, marcar pertencimento, aproximar-se do interlocutor. Alternativa que classifica o uso como incorreto costuma estar fora.
  • A regra geral: quando o texto explica a própria escolha linguística, essa explicação é o gabarito. Aqui a explicação vem em dois versos: "E com a letra g / Meu lugar foi registrado".
  • Eliminação em 30 segundos: conte quantas vezes o poema diz "meu lugar". Dois entre seis versos. A resposta fala do lugar; qualquer alternativa que fale só da língua está no caminho errado.
  • Temas que costumam vir junto: preconceito linguístico, norma-padrão e norma culta, regionalismos, empréstimos do tupi e literatura de temática regional.

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