Mapa de questões · 1º dia
Questão 70 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia
Mas era sobretudo a lã que os compradores, vindos da Flandres ou da Itália, procuravam por toda a parte. Para satisfazê-los, as raças foram melhoradas através do aumento progressivo das suas dimensões. Esse crescimento prosseguiu durante todo o século XIII, e as abadias da Ordem de Cister, onde eram utilizados os métodos mais racionais de criação de gado, desempenharam certamente um papel determinante nesse aperfeiçoamento.
DUBY, G. Economia rural e vida no campo no Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1987 (adaptado).
O texto aponta para a relação entre aperfeiçoamento da atividade pastoril e avanço técnico na Europa ocidental feudal, que resultou do(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Idade Média (Renascimento Comercial e Urbano, séculos XI-XIII)
- ⚡ Nível: Médio — o texto traz uma pista econômica pontual (a lã) e exige que o aluno reconheça, por trás dela, o processo histórico maior que a explica
- 🎯 Tema/Habilidade: Renascimento comercial e urbano na Baixa Idade Média; relacionar processos econômicos, sociais e culturais a partir de fontes historiográficas
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual processo histórico está por trás do aperfeiçoamento técnico da criação de ovelhas na Europa feudal ocidental descrito pelo historiador Georges Duby?"
- Palavras-chave decisivas: compradores vindos da Flandres ou da Itália, raças foram melhoradas, métodos mais racionais
- Armadilha típica: confundir "métodos mais racionais de criação" com uma resposta que fale em "uniformização" ou "padronização" de processos, quando na verdade o texto descreve demanda de mercado puxando aperfeiçoamento técnico, não homogeneização de procedimentos em toda a Europa
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar a causa estrutural (o motor econômico) que explica por que a pecuária lanígera foi tecnicamente aperfeiçoada — e não apenas repetir o dado factual (a lã, o gado, os mosteiros)
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Renascimento Comercial e Urbano (séculos XI-XIII): após o ano 1000, a Europa ocidental vive crescimento agrícola, retomada das rotas comerciais e ressurgimento das cidades como polos de artesanato e comércio, revertendo o isolamento do feudalismo mais antigo.
- Flandres, capital têxtil da Europa: região correspondente hoje à Bélgica e ao norte da França; cidades como Bruges, Gante e Ypres eram os maiores centros de produção de panos de lã do continente, atraindo mercadores de toda parte.
- Itália e o comércio de tecidos: cidades como Florença (com sua poderosa corporação de tecelões, a Arte della Lana), Veneza e Gênova combinavam manufatura têxtil sofisticada com intensa atividade mercantil.
- Ordem de Cister: ordem monástica fundada em 1098, conhecida por gestão agrária racional e colonização de terras novas — os mosteiros cistercienses funcionavam quase como empresas rurais organizadas para o mercado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "era sobretudo a lã que os compradores, vindos da Flandres ou da Itália, procuravam por toda a parte" → revela que a demanda pela matéria-prima vinha exatamente das duas regiões mais urbanizadas e comercialmente dinâmicas da Europa medieval, ambas centros de manufatura têxtil.
- Evidência 2: "as raças foram melhoradas através do aumento progressivo das suas dimensões" → mostra uma resposta técnica concreta (seleção e melhoramento do rebanho) a uma pressão de mercado externa ao campo.
- Evidência 3: "abadias da Ordem de Cister... métodos mais racionais de criação de gado... papel determinante nesse aperfeiçoamento" → aponta os mosteiros como agentes que racionalizaram a produção rural justamente para atender a essa demanda crescente.
- Síntese: as três evidências formam uma cadeia causal única: cidades em expansão (Flandres, Itália) precisam de lã para suas manufaturas → essa demanda urbana pressiona o campo → produtores rurais, entre eles os cistercienses, aperfeiçoam tecnicamente a pecuária ovina para atender ao mercado. Ou seja, o avanço técnico no campo é efeito, não causa — e sua causa é o crescimento da vida urbana.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o texto no tempo histórico
Duby descreve o "longo século XIII", auge do Renascimento Comercial e Urbano. Depois de séculos de estagnação após a fragmentação do Império Carolíngio, a Europa ocidental retoma o crescimento demográfico, expande a área cultivada e vê renascer cidades como centros de trocas e produção artesanal, rompendo a lógica autossuficiente do feudalismo clássico.
Subpasso 4.2 — Entender o papel de Flandres e Itália no texto
O texto não cita essas duas regiões por acaso: Flandres era o maior polo de manufatura de panos de lã da Europa, e as cidades italianas combinavam produção têxtil de alta qualidade com redes mercantis ligando o Mediterrâneo ao restante do continente. Ambas dependiam de importar lã porque sua economia já não era rural, e sim urbana e manufatureira — são os "compradores" do texto, cidades que consomem o que o campo produz.
Subpasso 4.3 — Ligar a demanda urbana ao aperfeiçoamento técnico no campo
Quanto mais cresciam essas cidades — em população, oficinas e volume de comércio —, maior a demanda por lã de qualidade. Essa pressão de mercado explica por que "as raças foram melhoradas através do aumento progressivo das suas dimensões" e por que as abadias cistercienses, com sua administração agrária racional, se tornaram protagonistas do aperfeiçoamento: produziam para vender a compradores urbanos, não apenas para o consumo local do mosteiro.
Subpasso 4.4 — Verificação
Testando cada alternativa contra essa cadeia causal (crescimento das cidades → demanda por lã → aperfeiçoamento pastoril), só a opção que nomeia o crescimento urbano como causa estrutural fecha com o texto de Duby: a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) crescimento do trabalho escravo.
❌ Incorreta: o feudalismo ocidental se organizava em torno da servidão camponesa (trabalho compulsório ligado à terra), não da escravidão. O texto não menciona relações de trabalho — fala em mercado, raças de gado e métodos de criação, nada relacionado a regime de mão de obra escrava.
B) desenvolvimento da vida urbana.
✅ Correta: Flandres e as cidades italianas eram os grandes centros urbanos e manufatureiros da época, cuja expansão gerou a demanda crescente por lã descrita no texto. É esse crescimento urbano-comercial que pressiona o campo a se especializar e aperfeiçoar tecnicamente a criação de ovelhas.
C) padronização dos impostos locais.
❌ Incorreta: o texto não trata de tributação. A Europa feudal era marcada pelo oposto de uma padronização fiscal: cada senhorio cobrava suas próprias taxas e pedágios, cenário de fragmentação que só seria revertido com o fortalecimento das monarquias nacionais, processo posterior e não mencionado na fonte.
D) uniformização do processo produtivo.
❌ Incorreta: é a armadilha mais sedutora, pois o texto cita "métodos mais racionais". Mas racionalização não é uniformização: descreve-se um aperfeiçoamento seletivo, liderado pelas abadias cistercienses, não um processo padronizado em toda a Europa ocidental. A causa é a demanda de mercado vinda das cidades, não um método único generalizado.
E) desconcentração da estrutura fundiária.
❌ Incorreta: o período é marcado pelo oposto — concentração e expansão de terras nas mãos de grandes proprietários, incluindo a Igreja e ordens como a de Cister, que promoviam colonização interna para ampliar sua produção. Não há no texto menção a fragmentação ou redistribuição da posse da terra.
🏆 Gabarito: B — o texto de Duby liga explicitamente o aperfeiçoamento da pecuária lanígera à demanda de "compradores vindos da Flandres ou da Itália", regiões-símbolo do crescimento urbano e manufatureiro medieval; logo, a causa histórica é o desenvolvimento da vida urbana.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia a causa estrutural coerente com o texto — cidades em expansão (Flandres e Itália) gerando demanda de mercado que estimula e racionaliza a produção rural.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a trechos de historiadores como Duby, Le Goff e Pirenne para testar o entendimento do Renascimento Comercial e Urbano dos séculos XI-XIII, sempre cobrando a relação entre crescimento das cidades, comércio de longa distância e transformação da economia rural feudal.
- Generalização: sempre que um texto descrever um produto rural sendo demandado por centros urbanos ou comerciais nomeados (feiras, cidades, rotas), a causa histórica pedida quase sempre é o crescimento urbano-comercial, e não regime de trabalho ou estrutura fundiária, a menos que o texto traga evidência explícita nesse sentido.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara A e C — o texto não fala em trabalho escravo nem em impostos. Entre B, D e E, pergunte "o texto aponta uma causa vinda de FORA do campo (cidades) ou de DENTRO do campo (organização da terra/produção)?" — a resposta "de fora" leva direto a B.
- Conexões: o tema dialoga com a Revolução Comercial da Baixa Idade Média, o papel das feiras de Champagne e da Liga Hanseática, e o crescimento das corporações de ofício nas cidades medievais europeias.
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