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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 30ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

Contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

LEMINSKI, P. Toda poesia. São Paulo: Cia. das Letras. 2013.

A busca pela identidade constitui uma faceta da tradição literária, redimensionada pelo olhar contemporâneo. No poema, essa nova dimensão revela a

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Poesia contemporânea, intertextualidade com a mitologia clássica
  • ⚡ Nível: Médio — exige perceber a subversão do mito de Narciso e associar o "outro" à ideia de empatia, indo além de uma leitura literal das imagens do poema.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Identidade e alteridade na lírica contemporânea; competência de leitura que relaciona recursos expressivos de um texto literário à tradição que ele reelabora (Matriz ENEM — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias).
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após a resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual a nova forma de buscar a identidade que o poema, ao dialogar com a tradição literária, revela?"
  • Palavras-chave decisivas: identidade, redimensionada, olhar contemporâneo
  • Armadilha típica: associar "busca pela identidade" à ideia romântica de autodescoberta individual — exatamente o oposto do que o título "Contranarciso" propõe.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a identidade, no poema, não nasce do isolamento ou da autocontemplação, mas do reconhecimento do outro dentro de si — ou seja, ela se constrói de forma relacional.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Mito de Narciso: na mitologia grega, o jovem se apaixona pelo próprio reflexo na água e morre contemplando-se; tornou-se símbolo do olhar voltado só para si, do individualismo e da vaidade.
  • Contranarciso (título e intertextualidade): o prefixo "contra-" já anuncia a inversão do mito — em vez de só enxergar a si mesmo, o eu lírico "vê o outro" dentro de si, negando a lógica narcísica.
  • Alteridade: conceito segundo o qual o "eu" só existe plenamente em relação ao "outro"; a identidade não é uma essência fechada, mas algo que se forma no contato com o diferente.
  • Empatia como categoria da lírica contemporânea: capacidade de se reconhecer no outro (e o outro em si); tema recorrente na poesia marginal, que rompe com o culto romântico ao "eu" único e autossuficiente.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "em mim / eu vejo o outro / e outro / e outro" → o olhar para dentro de si não encontra um "eu" isolado, mas uma multiplicação de outros — o oposto do reflexo único de Narciso.
  • Evidência 2: "trens passando / vagões cheios de gente / centenas" → metáfora que compara o interior do eu lírico a uma estação por onde passam multidões, reforçando que a identidade é feita de fragmentos de outras pessoas.
  • Evidência 3: "o outro / que há em mim / é você / você / e você" → o outro deixa de ser abstrato e se torna um interlocutor direto ("você"), estabelecendo um vínculo dialógico e afetivo.
  • Evidência 4: "eu estou em você / eu estou nele / em nós" → a relação é recíproca: o eu não apenas contém o outro, mas também habita o outro — fusão que culmina no "nós".
  • Evidência 5: "e só quando / estamos em nós / estamos em paz / mesmo que estejamos a sós" → a paz não depende da companhia física, mas do reconhecimento interior do outro; a solidão física deixa de ser motivo de angústia porque o "nós" já está internalizado.
  • Síntese: todas as evidências convergem para a mesma ideia: o eu lírico só se conhece e se apazigua ao reconhecer o outro dentro de si — isto é, a empatia (colocar-se no lugar do outro, sentir-se parte dele) é o caminho para o autoconhecimento, não a introspecção solitária.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Entender a função do título

"Contranarciso" funciona como uma chave de leitura: ele avisa o leitor, antes mesmo do primeiro verso, que o poema vai se opor à lógica do mito de Narciso. Enquanto Narciso se fecha em si mesmo e se apaixona pela própria imagem, o eu lírico de Leminski faz o movimento inverso — olha para dentro e encontra multidões de outros. Essa inversão é o ponto de partida para entender que a "nova dimensão" da busca identitária, mencionada no comando, é justamente essa ruptura com o individualismo.

Subpasso 4.2 — Acompanhar o movimento do poema

Na primeira estrofe, o "outro" se multiplica progressivamente: de "um outro" para "dezenas" e "centenas", numa imagem de estação de trem lotada — o eu lírico se compara a um lugar de passagem, povoado por presenças alheias. Na segunda estrofe, esse outro coletivo e abstrato ganha rosto: torna-se "você", repetido três vezes, num movimento de aproximação e endereçamento direto. Na terceira estrofe, a relação se torna recíproca e coletiva ("eu estou em você / eu estou nele / em nós"), até desembocar no verso final: a paz só existe "quando estamos em nós", mesmo estando fisicamente sós. O poema constrói, assim, uma trajetória que vai do reconhecimento do outro à fusão identitária com ele — e é dessa fusão que nasce o autoconhecimento e o sossego do eu lírico.

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando esse percurso com as alternativas, a única que descreve com precisão esse mecanismo é a que fala em "percepção da empatia como fator de autoconhecimento": o eu lírico se conhece ("em mim eu vejo") justamente ao se colocar no lugar do outro e reconhecê-lo como parte de si ("o outro que há em mim é você"). A paz final ("estamos em paz / mesmo que estejamos a sós") confirma que esse processo é interno e emocional — empático —, não uma busca solitária por uma essência autêntica.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) ausência de traços identitários.

❌ Incorreta: o poema não nega a identidade — ao contrário, ele a multiplica e a redefine como plural e relacional. Confundir "identidade feita de muitos outros" com "ausência de identidade" é um erro de leitura que ignora que o eu lírico afirma, o tempo todo, "em mim" e "em nós".

B) angústia com a solidão em público.

❌ Incorreta: inverte o sentido do poema. Os versos finais afirmam explicitamente que há paz mesmo estando só ("mesmo que estejamos a sós") — não há qualquer menção a angústia, e a imagem da estação cheia de gente ilustra multiplicidade interior, não um mal-estar diante de multidões.

C) valorização da descoberta do "eu" autêntico.

❌ Incorreta: esta é exatamente a lógica narcísica que o título do poema nega. Buscar um "eu" puro, autêntico e isolado do outro é a tradição que "Contranarciso" subverte; o poema mostra o oposto — um eu que só se completa através do outro.

D) percepção da empatia como fator de autoconhecimento.

✅ Correta: o eu lírico se descobre justamente ao reconhecer o outro dentro de si ("o outro que há em mim é você") e ao viver essa fusão recíproca ("eu estou em você... em nós"). A paz final decorre desse movimento empático, não de uma introspecção solitária — é essa a "nova dimensão" contemporânea da busca identitária mencionada no comando.

E) impossibilidade de vivenciar experiências de pertencimento.

❌ Incorreta: o poema afirma justamente o contrário — a possibilidade (e a realização) do pertencimento coletivo, expressa em "estamos em nós" e na paz alcançada por meio dessa união com o outro.

🏆 Gabarito: D — o poema mostra que o autoconhecimento do eu lírico se dá pelo reconhecimento do outro em si mesmo, ou seja, pela empatia, e não pela busca solitária de uma essência individual.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que traduz com fidelidade o movimento do poema — do "eu" que se multiplica em "outros" até a paz encontrada "em nós" — como um processo de autoconhecimento mediado pela empatia.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra poemas que dialogam (por confirmação ou subversão) com mitos, cânones ou tradições literárias, exigindo que o candidato perceba como o texto contemporâneo reelabora essas referências.
  • Generalização: quando o título de um poema nega ou contradiz explicitamente uma referência clássica (como o prefixo "contra-"), é sinal de que todo o texto deve ser lido como uma antítese dessa referência — confirme essa hipótese buscando evidências ao longo dos versos.
  • Dica de eliminação rápida: elimine alternativas com palavras absolutas e negativas ("ausência", "impossibilidade", "angústia") sempre que o tom geral do texto for afirmativo e positivo (como "paz", "nós", "você"); esse contraste de tom costuma denunciar a armadilha.
  • Conexões: vale revisar também "eu lírico e alteridade na poesia marginal" (geração de Leminski, Paulo Leminski e a poesia concreta/pós-concretista) e "subjetividade fragmentada na literatura contemporânea", temas que dialogam diretamente com esta questão.

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