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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 46ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

No império africano do Mali, no século XIV, Tombuctu foi centro de um comércio internacional onde tudo era negociado — sal, escravos, marfim etc. Havia também um grande comércio de livros de história, medicina, astronomia e matemática, além de grande concentração de estudantes. A importância cultural de Tombuctu pode ser percebida por meio de um velho provérbio: “O sal vem do norte, o ouro vem do sul, mas as palavras de Deus e os tesouros da sabedoria vêm de Tombuctu”.

ASSUMPÇÃO, J. E. África: uma história a ser reescrita. In: MACEDO, J. R. (Org.).
Desvendando a história da África. Porto Alegre: UFRGS, 2008 (adaptado).

Uma explicação para o dinamismo dessa cidade e sua importância histórica no período mencionado era o(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → História da África pré-colonial, redes de comércio transaariano
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um provérbio como fonte histórica e articulá-lo a um conceito de geografia econômica
  • 🎯 Tema/Habilidade: O comércio transaariano e o papel geoestratégico de Tombuctu no Império do Mali; competência de interpretar processos e dinâmicas históricas a partir de fontes textuais
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual fator explica o dinamismo comercial e cultural de Tombuctu no século XIV?"
  • Palavras-chave decisivas: comércio internacional, tudo era negociado, concentração de estudantes
  • Armadilha típica: confundir a presença de ouro, sal e marfim no texto com a ideia de que Tombuctu produzia esses recursos — quando, na verdade, ela apenas os fazia circular.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o dinamismo da cidade vem de sua localização estratégica dentro de uma rede de rotas comerciais, e não da posse ou exploração de recursos naturais próprios.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Comércio transaariano: rede de trocas que atravessava o deserto do Saara em caravanas de camelos, ligando o norte da África e o Mediterrâneo (sal, tecidos, produtos manufaturados, livros do mundo islâmico) à África subsaariana (ouro, marfim, pessoas escravizadas).
  • Império do Mali: um dos grandes impérios da África Ocidental (séculos XIII–XVI), que controlava as principais rotas de ouro e sal da região e teve em Mansa Musa um de seus governantes mais célebres.
  • Cidade-entreposto: núcleo urbano cujo dinamismo não deriva da produção local de riqueza, mas de sua posição no cruzamento de rotas de circulação — função equivalente à de portos e cidades-cruzamento em outras redes comerciais da história.
  • Circulação de saberes: consequência direta do fluxo comercial — junto com mercadorias, circulam livros, estudiosos e religiões; por isso Tombuctu abrigava a mesquita-universidade de Sankoré e intenso comércio de manuscritos.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Tombuctu foi centro de um comércio internacional onde tudo era negociado — sal, escravos, marfim etc." → revela que a cidade funcionava como ponto de convergência de mercadorias de origens muito diferentes, e não como produtora de um único recurso.
  • Evidência 2: "O sal vem do norte, o ouro vem do sul, mas as palavras de Deus e os tesouros da sabedoria vêm de Tombuctu" → o provérbio localiza explicitamente sal e ouro em pontos geográficos opostos (Saara, ao norte; savana/floresta, ao sul), enquanto o saber "vem" de Tombuctu justamente por ser ali que essas rotas se encontram e geram trocas culturais.
  • Síntese: a riqueza e a fama intelectual de Tombuctu não nascem de recursos que ela mesma possui, mas do fato de estar posicionada exatamente no ponto de encontro entre as rotas do Saara e as rotas do Níger/savana — um nó obrigatório de circulação de bens, pessoas e ideias.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Localizando Tombuctu no mapa mental do comércio transaariano

Tombuctu situa-se às margens do rio Níger, exatamente na fronteira entre o deserto do Saara e a savana do Sahel. Essa posição a transformou em porto fluvial natural: caravanas vindas do norte — carregando sal extraído de minas como Taghaza, tecidos e livros do mundo islâmico — encontravam-se ali com comerciantes vindos do sul, que traziam ouro dos garimpos de Bambuk e Bure, marfim e pessoas escravizadas. Nenhum desses bens era produzido em Tombuctu; todos apenas passavam, eram trocados e redistribuídos ali.

Subpasso 4.2 — Interpretando o provérbio como evidência histórica

O provérbio citado no enunciado condensa exatamente essa lógica: cada elemento — sal, ouro e até "as palavras de Deus e os tesouros da sabedoria" — "vem" de um lugar geograficamente distinto, mas todos convergem para Tombuctu. Essa é a definição clássica de um entreposto comercial dentro de uma rede de circulação: a cidade não é a origem dos produtos, é o ponto de passagem, encontro e troca obrigatório entre regiões complementares.

Subpasso 4.3 — Verificação

Testando essa leitura contra o restante do texto: ela explica por que havia "grande comércio de livros de história, medicina, astronomia e matemática" e "grande concentração de estudantes" — pois o fluxo de pessoas e ideias acompanha naturalmente o fluxo de mercadorias em um entreposto comercial internacional. Essa é exatamente a lógica descrita pela alternativa que trata da posição da cidade dentro das redes de circulação, confirmando o raciocínio.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) isolamento geográfico do Saara ocidental.

❌ Incorreta: o texto descreve o oposto de isolamento — Tombuctu está conectada intensamente a múltiplas regiões (norte e sul), recebendo mercadorias, estudiosos e livros de fora. Isolamento geográfico impediria, e não explicaria, a existência de um "comércio internacional" tão movimentado.

B) exploração intensiva de recursos naturais.

❌ Incorreta: Tombuctu não era região produtora de ouro, sal ou marfim — essas riquezas vinham de outros territórios (minas saarianas ao norte, garimpos ao sul). A prosperidade da cidade vinha da intermediação e redistribuição comercial, não da extração local de recursos.

C) posição relativa nas redes de circulação.

✅ Correta: Tombuctu prosperou por ocupar o ponto de cruzamento entre as rotas transaarianas (eixo norte-sul) e a via fluvial do rio Níger, funcionando como entreposto de mercadorias, pessoas e saberes. É a localização estratégica dentro da rede de trocas — e não a posse de recursos — que explica seu dinamismo econômico e cultural, exatamente como sintetiza o provérbio citado.

D) tráfico transatlântico de mão de obra servil.

❌ Incorreta: há erro de escala geográfica e cronológica. O tráfico transatlântico ligava a costa africana às Américas através do Oceano Atlântico, sistema que se intensifica sobretudo a partir do século XVI. Tombuctu, no interior continental do século XIV, participava do comércio transaariano — terrestre, através do deserto —, não do tráfico atlântico.

E) competição econômica dos reinos da região.

❌ Incorreta: o enunciado não descreve rivalidade ou disputa entre reinos vizinhos; ele descreve convergência de mercadorias vindas de direções diferentes para um mesmo ponto, característica típica de cooperação comercial em rede, e não de competição entre potências regionais.

🏆 Gabarito: C — Tombuctu deve seu dinamismo histórico à posição estratégica que ocupava nas rotas de comércio transaariano, tornando-se entreposto obrigatório de mercadorias, pessoas e conhecimento entre o norte e o sul da África Ocidental.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C articula todas as evidências do texto — a diversidade de mercadorias comercializadas, a concentração de livros e estudantes, e o próprio provérbio — em um único conceito histórico coerente: a geografia da circulação.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente a história da África a partir de fontes primárias ou adaptadas (provérbios, relatos de viajantes como Ibn Battuta, mapas de rotas comerciais), exigindo que o estudante desconstrua o estereótipo de uma África "isolada" ou "sem história" e reconheça sua inserção em redes comerciais complexas e antigas.
  • Generalização: sempre que uma questão descrever uma cidade ou região que "concentra" a troca de produtos vindos de origens geográficas distintas, a resposta correta tende a apontar para a posição estratégica dessa localidade em uma rede de circulação — e não para a produção ou posse local dos bens.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de imediato qualquer alternativa que fale em "isolamento" quando o texto descreve intenso comércio internacional (alternativa A); elimine também anacronismos geográficos, como associar tráfico atlântico a uma cidade do interior africano no século XIV (alternativa D).
  • Conexões: aprofunde estudando o Império de Gana e o Império Songai (sucessores/antecessores do Mali na mesma rota comercial) e a peregrinação de Mansa Musa a Meca em 1324, episódio que evidencia a riqueza e a inserção internacional do Mali na mesma época retratada na questão.

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