Mapa de questões · 1º dia
Questão 36 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

A obra de Rubem Valentim apresenta emblema que, baseando-se em signos de religiões afro-brasileiras, se transformam em produção artística. A obra Emblema 78 relaciona-se com o Modernismo em virtude da
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → História da Arte Brasileira (Modernismo e vanguardas construtivas)
- ⚡ Nível: Difícil — exige reconhecer um artista pouco explorado no ensino médio (Rubem Valentim) e relacionar sua produção a um conceito amplo (Modernismo) que vai além da Semana de 22.
- 🎯 Tema/Habilidade: Diálogo entre arte popular/religiosa afro-brasileira e vanguardas europeias — competência de leitura de linguagens visuais e reconhecimento de bens culturais (H2/H8 da matriz de Linguagens).
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Por que a obra Emblema 78, de Rubem Valentim, pode ser associada ao Modernismo brasileiro?"
- Palavras-chave decisivas: signos de religiões afro-brasileiras, produção artística, Modernismo
- Armadilha típica: confundir "Modernismo" com o Modernismo apenas no sentido de 1922 (Semana de Arte Moderna, pintura figurativa de Tarsila/Portinari) e buscar alternativas que falem de paisagem, bandeira ou miscigenação de forma literal — ignorando que o núcleo do Modernismo brasileiro é o projeto de síntese entre repertório nacional/popular e linguagem formal importada da vanguarda europeia.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a alternativa correta explica a obra pelo mesmo mecanismo que define o projeto modernista brasileiro desde 1922 — a fusão entre elementos de raiz brasileira e procedimentos formais de origem europeia.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Rubem Valentim (1922–1991): artista baiano que construiu, a partir dos anos 1950-60, uma série de "Emblemas" — composições geométricas, planas e de cores vivas (vermelho, amarelo, preto, branco) inspiradas em objetos e signos rituais do Candomblé e da Umbanda, como o oxê (machado duplo de Xangô), a espada de Ogum, estrelas, discos solares e pontos de riscado.
- Abstração geométrica/construtivismo: corrente de vanguarda de origem europeia (Bauhaus, Suprematismo, De Stijl, e sua releitura brasileira no Concretismo/Neoconcretismo) baseada em formas geométricas puras, planas, sem referência figurativa direta — é o "vocabulário formal" que Valentim importa para organizar seus signos afro-religiosos.
- Projeto modernista brasileiro: desde a Semana de Arte Moderna de 1922, o Modernismo no Brasil não é só um estilo, mas um programa de tradução — tomar procedimentos e linguagens de vanguarda vindos da Europa e aplicá-los sobre temas, símbolos e matrizes culturais brasileiras (indígena, popular, afro-brasileira), na linha da "Antropofagia" de Oswald de Andrade: devorar a referência estrangeira e recriá-la com conteúdo nacional.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "baseando-se em signos de religiões afro-brasileiras" → mostra que a matéria-prima simbólica da obra é a cultura popular e religiosa brasileira, não um repertório europeu.
- Evidência 2: "se transformam em produção artística" → indica um processo de tradução/transformação: um signo sagrado, de uso ritual, é reelaborado dentro de uma linguagem artística formal — geométrica, plana, sintética.
- Síntese: a questão descreve exatamente o mecanismo de síntese cultural típico do Modernismo brasileiro: matéria brasileira (o sagrado afro-religioso) processada por uma gramática visual de vanguarda (a abstração geométrica de matriz europeia). A alternativa correta precisa nomear essa dupla operação — brasileiro + europeu, fundidos.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que a obra realmente representa
Emblema 78 não é uma paisagem, não traz bandeira nacional, não é uma cena de multidão urbana. É uma composição abstrata e geométrica: formas planas, recortadas, em cores fortes, organizadas de modo simétrico ou modular, que reproduzem — estilizados — objetos-símbolo de cultos afro-brasileiros (como o machado duplo de Xangô ou pontos rituais). Esse é o dado visual central que qualquer leitura da obra precisa reconhecer antes de ligar a peça ao Modernismo.
Subpasso 4.2 — Ligar o procedimento da obra ao projeto modernista
O Modernismo brasileiro, ampliado para além de 1922, é marcado por artistas que tomam linguagens de vanguarda desenvolvidas na Europa (Cubismo, Futurismo, Construtivismo, Concretismo) e as aplicam sobre conteúdos brasileiros — populares, indígenas, afro-brasileiros — produzindo uma arte que não é cópia da Europa nem folclore isolado, mas síntese original. Valentim faz exatamente isso: usa a depuração geométrica e a economia de forma (heranças do construtivismo/concretismo, de raiz europeia) para dar corpo plástico a signos sagrados afro-brasileiros. É esse cruzamento — cultura brasileira de matriz afro + arte europeia de vanguarda — que autoriza classificar sua obra dentro do projeto modernista.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando contra as alternativas: nenhuma menciona paisagem simplificada de fato representada na obra (A), nenhuma trata de símbolos de urbanização (B), não há bandeira nacional em jogo (D), e a "miscigenação racial" como tema representado (E) não corresponde ao conteúdo simbólico-religioso da peça. Só a alternativa que fala em "fusão de elementos da cultura brasileira com a arte europeia" descreve com precisão o duplo movimento identificado nos Subpassos 4.1 e 4.2.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) simplificação de formas da paisagem brasileira.
❌ Incorreta: associa a obra a uma tradição diferente do Modernismo (a estilização de paisagens e cenários rurais, como em parte da produção de Portinari ou Di Cavalcanti). Emblema 78 não representa paisagem alguma — é uma composição abstrata construída a partir de signos religiosos, não de elementos naturais ou geográficos.
B) valorização de símbolos do processo de urbanização.
❌ Incorreta: não há, na obra ou na proposta de Valentim, qualquer referência a fábricas, cidades, progresso urbano ou industrialização. Os símbolos usados são de origem ritual/religiosa (Candomblé/Umbanda), completamente distintos do imaginário da urbanização.
C) fusão de elementos da cultura brasileira com a arte europeia.
✅ Correta: é exatamente essa a operação central da obra — signos sagrados afro-brasileiros (cultura brasileira) organizados pela gramática da abstração geométrica/construtivista (arte europeia), reproduzindo o gesto fundador do Modernismo de traduzir vanguarda estrangeira em conteúdo nacional.
D) alusão aos símbolos cívicos presentes na bandeira nacional.
❌ Incorreta: os "emblemas" de Valentim remetem a objetos e insígnias de cultos afro-brasileiros, não a símbolos cívicos oficiais como a bandeira, o brasão ou cores institucionais do Estado brasileiro.
E) composição simétrica de elementos relativos à miscigenação racial.
❌ Incorreta: embora a obra possa apresentar organização simétrica em termos formais, seu conteúdo simbólico não trata do tema da miscigenação racial — trata da tradução plástica de símbolos religiosos afro-brasileiros, o que é conceitualmente distinto de representar "miscigenação".
🏆 Gabarito: C — a obra só se conecta ao Modernismo porque funde matéria simbólica brasileira (religiosidade afro-brasileira) com uma linguagem formal de vanguarda de origem europeia (abstração geométrica/construtivismo), reencenando o programa modernista de síntese entre nacional e internacional.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C nomeia o mecanismo real da obra — a fusão entre repertório cultural brasileiro e procedimento artístico europeu — que é o traço definidor do Modernismo, e não a mera presença de paisagem, símbolo cívico ou tema de miscigenação.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra questões de Artes em que uma imagem de obra brasileira precisa ser associada a um movimento ou conceito histórico-cultural, testando se o candidato entende o porquê estético/histórico, e não apenas identifica elementos visuais soltos.
- Generalização: sempre que a questão pedir a relação de uma obra brasileira com o "Modernismo", desconfie de alternativas literais (paisagem, bandeira, cena urbana) e procure a alternativa que descreve uma síntese — nacional/popular + vanguarda estrangeira — pois esse é o núcleo conceitual do movimento desde 1922.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que descreva um elemento figurativo concreto (paisagem, bandeira) quando a obra é abstrata/geométrica; e desconfie de alternativas que introduzem um tema (miscigenação, urbanização) não mencionado no enunciado nem sustentado pela descrição da obra.
- Conexões: compare com a Semana de Arte Moderna de 1922 (Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e a Antropofagia) e com o Concretismo/Neoconcretismo brasileiro (Hélio Oiticica, Lygia Clark), duas outras frentes em que arte brasileira dialoga com vanguardas europeias sem deixar de afirmar identidade nacional.
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