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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 12ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

A língua tupi no Brasil

Há 300 anos, morar na vila de São Paulo de Piratininga (peixe seco, em tupi) era quase sinônimo de falar língua de índio. Em cada cinco habitantes da cidade, só dois conheciam o português. Por isso, em 1698, o governador da província, Artur de Sá e Meneses, implorou a Portugal que só mandasse padres que soubessem “a língua geral dos índios”, pois “aquela gente não se explica em outro idioma”.

Derivado do dialeto de São Vicente, o tupi de São Paulo se desenvolveu e se espalhou no século XVII, graças ao isolamento geográfico da cidade e à atividade pouco cristã dos mamelucos paulistas: as bandeiras, expedições ao sertão em busca de escravos índios. Muitos bandeirantes nem sequer falavam o português ou se expressavam mal. Domingos Jorge Velho, o paulista que destruiu o Quilombo dos Palmares em 1694, foi descrito pelo bispo de Pernambuco como “um bárbaro que nem falar sabe”. Em suas andanças, essa gente batizou lugares como Avanhandava (lugar onde o índio corre), Pindamonhangaba (lugar de fazer anzol) e Itu (cachoeira). E acabou inventando uma nova língua.

“Os escravos dos bandeirantes vinham de mais de 100 tribos diferentes”, conta o historiador e antropólogo John Monteiro, da Universidade Estadual de Campinas. “Isso mudou o tupi paulista, que, além da influência do português, ainda recebia palavras de outros idiomas.” O resultado da mistura ficou conhecido como língua geral do sul, uma espécie de tupi facilitado.

ANGELO. C. Disponível em: http://super.abril.com.br. Acesso em: 8 ago. 2012 (adaptado).

O texto trata de aspectos sócio-históricos da formação linguística nacional. Quanto ao papel do tupi na formação do português brasileiro, depreende-se que essa língua indígena

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Variação linguística e formação do léxico do português brasileiro
  • ⚡ Nível: Médio — exige cruzar dados históricos do texto com um julgamento linguístico preciso sobre "léxico" x "gramática", descartando alternativas historicamente plausíveis mas conceitualmente erradas
  • 🎯 Tema/Habilidade: Contato linguístico e formação do português brasileiro (Competência de Área 1 de Linguagens — reconhecer e analisar diferentes manifestações da variação linguística)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo o texto, qual foi exatamente o papel do tupi na formação do português brasileiro?"
  • Palavras-chave decisivas: papel do tupi, formação do português brasileiro, depreende-se
  • Armadilha típica: confundir "influenciar o léxico" (vocabulário, nomes de lugares e coisas) com "originar a gramática" ou "misturar-se" em um novo idioma híbrido — o texto fala em duas línguas distintas (tupi e português) que coexistiram, não em fusão gramatical
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende a diferença entre empréstimo lexical (palavras incorporadas, como topônimos) e formação gramatical de uma língua, usando como prova os próprios exemplos do texto

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Léxico: conjunto de palavras (vocabulário) de uma língua; é a camada mais permeável ao contato entre idiomas — é onde entram empréstimos, estrangeirismos e topônimos com mais facilidade.
  • Gramática/estrutura de uma língua: conjunto de regras de fonologia, morfologia e sintaxe; muito mais estável e resistente à mistura entre línguas diferentes do que o vocabulário.
  • Contato linguístico e substrato: quando duas línguas convivem no mesmo território (como tupi e português na São Paulo colonial), a língua dominante costuma incorporar palavras da língua de contato — sobretudo nomes próprios e topônimos — sem que isso signifique fusão estrutural entre elas.
  • Toponímia: ramo da linguística que estuda a origem e o significado dos nomes de lugares; é um dos registros mais visíveis da influência de uma língua sobre outra.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "essa gente batizou lugares como Avanhandava (lugar onde o índio corre), Pindamonhangaba (lugar de fazer anzol) e Itu (cachoeira)" → são topônimos tupis que descrevem justamente características/traços do lugar nomeado — exatamente o que a alternativa correta menciona.
  • Evidência 2: "o tupi de São Paulo se desenvolveu e se espalhou no século XVII" e "acabou inventando uma nova língua" (a língua geral do sul) → o tupi seguiu como língua própria, falada paralelamente, e não como a base gramatical do português paulista; o "português falado em São Paulo" não é apresentado como originado do tupi.
  • Evidência 3: "O resultado da mistura ficou conhecido como língua geral do sul, uma espécie de tupi facilitado" → a mistura gerou uma nova variedade de tupi (língua geral), não o português brasileiro em si; o texto não afirma que padres catequizaram essa evolução nem que houve mistura com falares africanos.
  • Síntese: o texto mostra o tupi contribuindo pontualmente para o vocabulário — sobretudo por meio de topônimos que descrevem características dos lugares — enquanto permanece como sistema linguístico à parte (a língua geral do sul), sem se fundir gramaticalmente com o português nem com línguas africanas.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o que o texto realmente afirma sobre o tupi

O texto é uma reportagem histórica sobre a língua geral do sul, derivada do tupi, falada na São Paulo colonial. Ele narra: (1) a maioria da população falava tupi, não português; (2) bandeirantes usavam o tupi para nomear lugares; (3) o contato com escravos de mais de 100 tribos e com o português gerou uma "nova língua" — a língua geral do sul, entendida como "tupi facilitado". Em nenhum momento o texto diz que o português brasileiro nasceu gramaticalmente do tupi, nem que tupi e português se fundiram em um único idioma comum aos bandeirantes.

Subpasso 4.2 — Isolar a evidência lexical concreta

A prova mais objetiva e citável do texto é a lista de topônimos: Avanhandava, Pindamonhangaba e Itu. O texto traduz cada um deles, e todas as traduções descrevem um traço característico do lugar (onde o índio corre; onde se faz anzol; a cachoeira). Isso é uma contribuição lexical clara, documentada e datada — exatamente o tipo de "efeito" que se pode atribuir ao tupi na formação do português brasileiro sem exagerar seu alcance: ele deixou palavras (nomes próprios de lugares) que o português incorporou e mantém até hoje.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando essa síntese com as alternativas, apenas a opção A descreve com precisão esse fenômeno: contribuição efetiva para o léxico, via nomes ligados a traços característicos dos lugares designados. As demais alternativas extrapolam o texto (afirmando origem gramatical, influência da catequese, mistura com o africano ou expansão paralela conjunta), fatos que o texto não sustenta ou até contraria.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) contribuiu efetivamente para o léxico, com nomes relativos aos traços característicos dos lugares designados.

✅ Correta: é exatamente o que o texto comprova com os exemplos Avanhandava ("lugar onde o índio corre"), Pindamonhangaba ("lugar de fazer anzol") e Itu ("cachoeira") — topônimos tupis incorporados ao português que descrevem uma característica do lugar nomeado. É uma contribuição lexical concreta, documentada e limitada ao vocabulário, sem extrapolar para afirmações que o texto não faz.

B) originou o português falado em São Paulo no século XVII, em cuja base gramatical também está a fala de variadas etnias indígenas.

❌ Incorreta: o texto não afirma que o tupi originou o português paulista; pelo contrário, mostra o tupi se desenvolvendo como língua própria e dando origem à língua geral do sul (uma variante do próprio tupi, "tupi facilitado"), não ao português. Confundir "influência lexical" com "origem gramatical" é o erro conceitual central desta alternativa.

C) desenvolveu-se sob influência dos trabalhos de catequese dos padres portugueses vindos de Lisboa.

❌ Incorreta: o texto menciona que o governador pediu a Portugal padres que soubessem tupi porque a população não falava português — ou seja, os padres precisavam se adaptar ao tupi, e não o contrário. Não há qualquer menção a catequese moldando ou desenvolvendo a língua tupi; a causa apontada pelo texto para a expansão do tupi paulista é o isolamento geográfico e a atividade das bandeiras.

D) misturou-se aos falares africanos, em razão das interações entre portugueses e negros nas investidas contra o Quilombo dos Palmares.

❌ Incorreta: o texto cita Domingos Jorge Velho e a destruição do Quilombo dos Palmares apenas como exemplo do perfil rústico dos bandeirantes ("um bárbaro que nem falar sabe"), não como episódio de mistura linguística com falares africanos. A mistura mencionada no texto é entre o tupi, línguas de mais de 100 tribos indígenas escravizadas e o português — os falares africanos não entram nessa equação.

E) expandiu-se paralelamente ao português falado pelo colonizador, e juntos originaram a língua dos bandeirantes paulistas.

❌ Incorreta: o texto não descreve uma expansão conjunta e simétrica das duas línguas que teria gerado uma "língua dos bandeirantes". O que houve foi a predominância do tupi (falado por 4 em cada 5 habitantes) e sua evolução isolada em língua geral do sul, com influência do português e de outros idiomas indígenas — não uma fusão equilibrada e paralela entre tupi e português.

🏆 Gabarito: A — o texto comprova, com exemplos toponímicos concretos e traduzidos, que o tupi deixou uma marca lexical efetiva no português brasileiro, sem sustentar as extrapolações gramaticais, catequéticas ou de mistura com o africano presentes nas demais alternativas.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a única leitura sustentada por evidências textuais explícitas é a de contribuição lexical via topônimos — as demais alternativas pedem inferências que o texto não autoriza ou contradiz diretamente.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa textos sobre formação histórica do português brasileiro (influências indígena, africana, europeia) para testar se o aluno distingue "influência pontual no vocabulário" de "mudança estrutural na língua" — é um clássico de Linguagens no Dia 1.
  • Generalização: em questões sobre contato entre línguas, desconfie de alternativas que afirmam "originou", "fundiu-se" ou "tornou-se a base gramatical de" — esses verbos exigem prova estrutural forte; prefira alternativas que falam em "contribuiu com palavras/nomes", pois o léxico é sempre o primeiro (e mais fácil de comprovar) ponto de contato entre idiomas.
  • Dica de eliminação rápida: primeiro descarte as alternativas que citam agentes ou processos não mencionados no texto (padres catequizando em C, mistura com africanos em D) — são invenções fora do recorte da reportagem; depois compare B e E, que erram ao afirmar fusão/origem gramatical, contra A, que se limita ao léxico com prova textual direta.
  • Conexões: este tema dialoga com "variação linguística e preconceito linguístico" e com "formação histórica do português brasileiro" (influências tupi, africana e das línguas de imigração), frequentes em questões de Linguagens que usam textos jornalísticos ou científicos como suporte.

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