Mapa de questões · 1º dia
Questão 24 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia
E aqui, antes de continuar este espetáculo, é necessário que façamos uma advertência a todos e a cada um. Neste momento, achamos fundamental que cada um tome uma posição definida. Sem que cada um tome uma posição definida, não é possível continuarmos. É fundamental que cada um tome uma posição, seja para a esquerda, seja para a direita. Admitimos mesmo que alguns tomem uma posição neutra, fiquem de braços cruzados. Mas é preciso que cada um, uma vez tomada sua posição, fique nela! Porque senão, companheiros, as cadeiras do teatro rangem muito e ninguém ouve nada.
FERNANDES, M.; RANGEL, F. Liberdade, liberdade. Porto Alegre: L&PM, 2009.
A peça Liberdade, liberdade, encenada em 1964, apresenta o impasse vivido pela sociedade brasileira em face do regime vigente. Esse impasse é representado no fragmento pelo(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Teatro brasileiro engajado e contexto histórico de 1964
- ⚡ Nível: Médio — exige decodificar uma metáfora sutil (posição política = posição corporal) e articulá-la ao contexto do golpe militar
- 🎯 Tema/Habilidade: Linguagem dramática, metateatro e representação literária de um momento histórico (Competência de Linguagens: reconhecer recursos expressivos da linguagem literária relacionando texto e contexto de produção)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual elemento do fragmento representa o impasse político vivido pela sociedade brasileira em 1964?"
- Palavras-chave decisivas: impasse, posição definida, esquerda/direita
- Armadilha típica: confundir o efeito colateral do texto (o barulho das cadeiras, a suposta interrupção) com o mecanismo que constrói o impasse, que é a fusão proposital entre linguagem política e linguagem corporal/espacial
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar que o autor usa um jogo de palavras — "tomar posição" — para equiparar a escolha ideológica (esquerda/direita política) à simples posição física do espectador na cadeira do teatro (esquerda/direita do assento)
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Metateatro: recurso em que a peça rompe a ilusão cênica e se dirige diretamente ao público — no trecho, o narrador interrompe a "ação" para fazer uma "advertência a todos e a cada um".
- Teatro-colagem (Liberdade, Liberdade): escrita por Millôr Fernandes e Flávio Rangel e encenada em 1964, a peça reúne textos de diferentes autores sobre o tema da liberdade, respondendo indiretamente ao golpe militar sem discurso panfletário aberto.
- Contexto de 1964: o país vivia a polarização entre apoiadores do novo regime (direita) e opositores (esquerda); tomar posição pública era arriscado, e muitos preferiam a omissão.
- Ambiguidade como estratégia: ao falar de "esquerda", "direita" e "posição" usando o vocabulário do próprio teatro (lugar do espectador na plateia), o texto comenta a política sem se expor abertamente — o duplo sentido é o cerne do impasse retratado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "é fundamental que cada um tome uma posição, seja para a esquerda, seja para a direita" → "esquerda" e "direita" soam como orientação ideológica, mas também podem ser lidas literalmente como os lados físicos do teatro onde a pessoa está sentada.
- Evidência 2: "as cadeiras do teatro rangem muito e ninguém ouve nada" → o barulho é causado pelo movimento físico das pessoas na plateia — a consequência de "não tomar posição" é justamente corporal, reforçando que a metáfora política está ancorada no espaço concreto do teatro.
- Síntese: o fragmento constrói o impasse não por denúncia explícita, mas por uma sobreposição irônica entre o vocabulário da escolha ideológica e o da postura física do espectador — a convocação a "se posicionar" é, ao mesmo tempo, política e corporal.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o efeito de sentido central do trecho
O narrador da peça se dirige à plateia em tom de "advertência", pedindo que cada espectador "tome uma posição definida". Isso já é estranho: por que um espetáculo teatral exigiria que o público tomasse posição política antes de "continuar"? A resposta está no jogo de linguagem: o verbo "tomar posição" tem, ao mesmo tempo, sentido figurado (assumir um lado ideológico) e sentido literal (ocupar um lugar físico — a cadeira à esquerda ou à direita do teatro).
Subpasso 4.2 — Conectar a metáfora ao contexto histórico
Encenada em 1964, logo após o golpe militar, a peça "Liberdade, Liberdade" não podia (nem pretendia) fazer um discurso panfletário direto sob risco de censura. Por isso, o texto usa a experiência concreta do espectador — sentado, imóvel, numa cadeira à esquerda ou à direita da plateia — como espelho da experiência abstrata do cidadão brasileiro, pressionado a escolher um lado no tabuleiro político do país. A "posição" pedida é dupla: corporal (sentar e ficar quieto) e política (alinhar-se à esquerda ou à direita).
Subpasso 4.3 — Verificação
A alternativa correta precisa nomear a fusão entre o campo político (alinhamento ideológico) e o campo físico (posição corporal na plateia), sem reduzir o trecho a um efeito colateral (o barulho) ou a uma leitura equivocada (censura, neutralidade elogiada, interrupção real). Apenas a letra D descreve essa correlação dupla — "correlação entre o alinhamento político e a posição corporal dos espectadores" —, formulação mais precisa do mecanismo usado para representar o impasse de 1964.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) barulho excessivo produzido pelo ranger das cadeiras do teatro.
❌ Incorreta: o ranger das cadeiras é apenas a consequência física de as pessoas não se decidirem e ficarem se mexendo — é um detalhe de humor e ambientação, não o elemento que representa o impasse ideológico da sociedade brasileira. Tomar esse detalhe como resposta é confundir efeito colateral com mecanismo de sentido.
B) indicação da neutralidade como a melhor opção ideológica naquele momento.
❌ Incorreta: o texto até admite que "alguns tomem uma posição neutra", mas em nenhum momento a apresenta como a melhor opção — pelo contrário, o tom de "advertência" e a insistência em que "é fundamental que cada um tome uma posição definida" sugerem que a neutralidade é tolerada, não recomendada ou valorizada.
C) constatação da censura em função do engajamento social do texto dramático.
❌ Incorreta: o fragmento não trata do processo de censura da peça (ainda que a obra, historicamente, tenha dialogado com um contexto de repressão); o excerto em si é uma fala do narrador à plateia sobre a necessidade de posicionamento, sem qualquer menção a órgãos censores, cortes de texto ou perseguição à obra.
D) correlação entre o alinhamento político e a posição corporal dos espectadores.
✅ Correta: é exatamente essa a estratégia do texto — usar "esquerda" e "direita" simultaneamente como categorias políticas e como posições físicas na plateia, fazendo da experiência corporal do espectador (sentar-se, permanecer imóvel) uma metáfora do dilema político vivido pelo país em 1964, obrigado a "escolher um lado" sob o novo regime.
E) interrupção do espetáculo em virtude do comportamento inadequado do público.
❌ Incorreta: o texto apresenta uma advertência hipotética — "não é possível continuarmos" se cada um não tomar posição — mas não narra uma interrupção efetiva do espetáculo por mau comportamento do público; trata-se de uma ameaça retórica usada para reforçar a urgência do posicionamento, não de um fato consumado dentro da cena.
🏆 Gabarito: D — o fragmento representa o impasse da sociedade brasileira de 1964 por meio de um jogo de linguagem que faz coincidir o vocabulário da escolha ideológica ("esquerda", "direita", "posição") com o vocabulário da disposição física dos espectadores na plateia do teatro, revelando como o dilema político do país se projeta até no espaço concreto da experiência cênica.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa D nomeia com precisão o duplo sentido que estrutura o trecho — a sobreposição entre alinhamento ideológico e posição corporal — sem reduzir o impasse a um detalhe cênico (A), a uma leitura invertida do texto (B), a um tema ausente no fragmento (C) ou a um evento que não chegou a ocorrer (E).
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz textos de teatro brasileiro engajado (décadas de 1960-1980) pedindo que o candidato relacione recursos de linguagem — metateatro, ironia, duplo sentido, alegoria — ao contexto histórico-social de produção da obra, sem exigir conhecimento prévio do enredo completo.
- Generalização: em questões de teatro ou textos alegóricos ligados a momentos de censura/repressão, desconfie de alternativas que tomam a linguagem figurada ao pé da letra (como a A e a E) — o examinador costuma testar exatamente se o candidato percebe o recurso de duplo sentido por trás da fala aparentemente literal.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro alternativas que descrevem um fato concreto e isolado do trecho (barulho, interrupção) — elas raramente captam o efeito de sentido mais amplo pedido pelo comando; em seguida, elimine as que contradizem o tom do texto (a "neutralidade" não é elogiada, e sim apenas tolerada).
- Conexões: compare com outras questões sobre teatro de resistência (Nelson Rodrigues, Augusto Boal, teatro do oprimido) e com textos que discutem a relação entre literatura, censura e ditadura militar no Brasil — um eixo temático recorrente nas provas de Linguagens do ENEM.
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