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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 7ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições
defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero […].
Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.

ASSIS, M. A causa secreta, Disponível em: www.dominimopublico.gov.br
Acesso em: 9 out. 2015.

No fragmento, o narrador adota um ponto de vista que acompanha a perspectiva de Fortunato. O que singulariza esse procedimento narrativo é o registro do(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Foco narrativo e caracterização psicológica no conto realista machadiano
  • ⚡ Nível: Médio — a resposta certa contraria a reação "óbvia" que o leitor esperaria de um marido diante de uma suspeita de traição, exigindo atenção fina ao vocabulário do narrador.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Foco narrativo / ponto de vista narrativo — reconhecimento de recursos linguísticos e estruturais que constroem o efeito de sentido sobre uma personagem (Competência de Linguagens ligada à leitura de textos literários)
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Quando o narrador passa a acompanhar a perspectiva de Fortunato, que sentimento específico ele registra nessa personagem diante da cena que observa?"
  • Palavras-chave decisivas: ponto de vista, perspectiva de Fortunato, singulariza
  • Armadilha típica: marcar a alternativa A (indignação pela suspeita de adultério), porque é a reação psicologicamente "esperada" de um marido — o candidato responde ao que imagina que a personagem deveria sentir, e não ao que o texto efetivamente registra.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ancorar a resposta no léxico literal do trecho (verbos e adjetivos atribuídos a Fortunato), e não em suposições sobre a psicologia "normal" de um marido traído.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Foco narrativo (ponto de vista): é o filtro perceptivo através do qual os fatos chegam ao leitor. Mesmo em narração de 3ª pessoa, o narrador pode "emprestar" a consciência de uma personagem específica por alguns instantes, revelando o que ela pensa e sente diante de uma cena.
  • Narrador machadiano: Machado de Assis raramente afirma diretamente o caráter de uma personagem; ele o insinua por meio da escolha vocabular do narrador, exigindo do leitor a decodificação da ironia e da conotação das palavras.
  • Caracterização indireta: a personalidade se revela por ações, reações físicas e, principalmente, pelo sentido conotativo dos termos usados para descrever essas reações — não por um rótulo explícito como "Fortunato era cruel".
  • Contexto de "A Causa Secreta": o conto integra o livro Várias Histórias (1896) e tem como eixo temático o estudo de um tipo psicológico específico: a crueldade/sadismo — o prazer que certas pessoas sentem ao presenciar o sofrimento alheio, disfarçado sob aparência de tranquilidade e civilidade.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral" → o verbo "saborear", normalmente associado a prazer gustativo, aplicado à dor de Garcia, indica deleite — não raiva, ciúme ou indignação.
  • Evidência 2: "que foi longa, muito longa, deliciosamente longa" → a repetição enfática de "longa", coroada pelo advérbio "deliciosamente", reforça a ideia de fruição prolongada diante do sofrimento observado; quanto mais dura a dor de Garcia, maior o gozo de Fortunato.
  • Evidência 3 (contraste temporal): "não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero" → essa hipótese de traição ocorre antes do choro, como pensamento frio e racional, sem nenhum verbo de emoção associado; quando a cena evolui para o choro, o narrador já não fala de suspeita, e sim de sabor e prazer.
  • Síntese: o vocabulário que o narrador escolhe para descrever a reação de Fortunato no clímax da cena não corresponde a ciúme, tristeza ou espanto, mas a satisfação sensorial diante da dor de outra pessoa — é esse prazer que "singulariza" o foco narrativo centrado nessa personagem.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Localizar o ponto de virada do foco narrativo

No início do fragmento, o narrador acompanha as ações de Garcia: ele chega, levanta o lenço, contempla o cadáver, beija-o na testa. A partir de "Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta", o texto desloca o centro de percepção: passamos a acompanhar o que Fortunato vê e sente diante da cena, e não mais apenas o comportamento de Garcia.

Subpasso 4.2 — Analisar o vocabulário atribuído à reação de Fortunato

Há dois momentos distintos de reação em Fortunato. No primeiro, ele elabora uma hipótese racional e fria: "podia ser o epílogo de um livro adúltero" — mera suspeita, sem verbo de emoção. No segundo, quando Garcia rompe em soluços, o narrador não recorre a nenhum vocábulo de raiva, ciúme ou tristeza; em vez disso, escreve que Fortunato "saboreou tranquilo essa explosão de dor moral". "Saborear" é verbo de prazer sensorial; "tranquilo" descarta qualquer agitação típica de indignação ou ciúme; "deliciosamente longa" reforça, com redundância proposital, que o prazer aumentava conforme a dor de Garcia se prolongava.

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando essas evidências com as cinco alternativas, apenas a que menciona "prazer... em relação ao sofrimento alheio" reproduz com fidelidade o campo semântico de "saborear" e "deliciosamente". As demais alternativas (indignação, tristeza compartilhada, espanto, superação do ciúme) descrevem sentimentos plausíveis para um leitor comum, mas nenhum deles encontra respaldo lexical no trecho que constitui o clímax da focalização em Fortunato — confirmando que a resposta correta é a que descreve prazer diante da dor alheia.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) indignação face à suspeita do adultério da esposa.

❌ Incorreta: a suspeita de adultério é mencionada ("epílogo de um livro adúltero"), mas surge num momento anterior ao choro e não vem acompanhada de nenhum verbo ou adjetivo de indignação ou fúria. Quando o clímax emocional chega, o texto abandona a ideia de traição e passa a registrar prazer ("saboreou tranquilo") — o oposto do estado de agitação que a indignação suporia.

B) tristeza compartilhada pela perda da mulher amada.

❌ Incorreta: quem chora e demonstra sofrimento é Garcia, não Fortunato. O narrador não atribui a Fortunato nenhum verbo de luto ou pesar; ele permanece "à porta", na posição de espectador, e sua reação registrada é de fruição diante da cena, não de dor compartilhada com Garcia.

C) espanto diante da demonstração de afeto de Garcia.

❌ Incorreta: o espanto de fato aparece no texto ("Estacou assombrado"), mas apenas no instante inicial em que Fortunato avista o beijo — uma reação passageira. Esse espanto é substituído pelo sabor da dor alheia quando a cena evolui para o choro; logo, o espanto não é o traço que "singulariza" o foco narrativo no clímax da passagem.

D) prazer da personagem em relação ao sofrimento alheio.

✅ Correta: é exatamente o que o léxico "saboreou tranquilo... deliciosamente longa" comunica. O narrador, ao focalizar Fortunato, revela que ele extrai satisfação sensorial da dor moral de Garcia — traço que caracteriza, de forma indireta, a natureza sádica dessa personagem.

E) superação do ciúme pela comoção decorrente da morte.

❌ Incorreta: não há no texto nenhum indício de comoção (emoção compartilhada de luto) em Fortunato, nem de que ele estivesse superando um sentimento anterior de ciúme. Ao contrário, ele permanece "tranquilo", friamente satisfeito com o espetáculo da dor alheia — o oposto de estar comovido.

🏆 Gabarito: D — o narrador, ao adotar a perspectiva de Fortunato, emprega verbos e adjetivos de prazer sensorial ("saboreou", "deliciosamente") para descrever sua reação ao sofrimento de Garcia, revelando não indignação, tristeza ou espanto, mas o gozo diante da dor alheia — traço que define psicologicamente essa personagem.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: Somente a letra D é sustentada pelo vocabulário literal do trecho; "saborear" e "deliciosamente longa" são marcas linguísticas inequívocas de prazer, incompatíveis com indignação, tristeza, espanto ou comoção.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora textos literários canônicos (Machado de Assis é autor frequente na prova de Linguagens) pedindo o reconhecimento do foco narrativo e do efeito de sentido produzido pela escolha lexical do narrador sobre determinada personagem.
  • Generalização: em questões sobre foco narrativo e caracterização de personagem, a alternativa correta é sempre aquela ancorada no vocabulário literal do trecho — nunca a que parece "psicologicamente mais óbvia" ou mais previsível para o senso comum do leitor.
  • Dica de eliminação rápida: grife os verbos e adjetivos ligados diretamente à personagem focalizada; se uma alternativa nomeia um sentimento (indignação, tristeza, espanto, comoção) sem correspondente verbal ou adjetivo no trecho-chave, ela pode ser eliminada em segundos.
  • Conexões: essa habilidade dialoga com "ironia machadiana" e "caracterização indireta de personagem", temas recorrentes também em textos de Lima Barreto e de outros autores realistas/naturalistas cobrados no ENEM.

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