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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 44ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

O homem disse, Está a chover, e depois, Quem é você, Não sou daqui, Anda à procura de comida, Sim, há quatro dias que não comemos, E como sabe que são quatro dias, É um cálculo, Está sozinha, Estou com o meu marido e uns companheiros, Quantos são, Ao todo, sete; Se estão a pensar em ficar conosco, tirem daí o sentido, já somos muitos, Só estamos de passagem, Donde vêm, Estivemos internados desde que a cegueira começou, Ah, sim, a quarentena, não serviu de nada. Porque diz isso, Deixaram-nos sair, Houve um incêndio e nesse momento percebemos que os soldados que nos vigiavam tinham desaparecido, E saíram, Sim, Os vossos soldados devem ter sido dos últimos a cegar, toda a gente está cega, Toda a gente, a cidade toda, o país,

SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras. 1995.

A cena retrata as experiências das personagens em um país atingido por uma epidemia. No diálogo, a violação de determinadas regras de pontuação

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Estilo autoral e função expressiva da pontuação no texto narrativo
  • ⚡ Nível: Médio — exige perceber que um desvio proposital das convenções gramaticais é recurso estético, e não "erro" que atrapalha a leitura.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido produzidos por recursos de pontuação na construção do estilo do autor e da atmosfera do texto literário.
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual é o EFEITO produzido pela quebra das regras convencionais de pontuação nesse diálogo do romance?"
  • Palavras-chave decisivas: violação de regras de pontuação, diálogo, país atingido por uma epidemia
  • Armadilha típica: interpretar a ausência de aspas, travessões e quebras de parágrafo como um "erro" que confunde o leitor ou prejudica a compreensão (é a lógica das alternativas B e D) — quando, na verdade, trata-se de escolha estética deliberada e coerente com o tema.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende que, na literatura, desvios da norma padrão de pontuação podem ser recursos expressivos intencionais, capazes de dialogar com o conteúdo narrado.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estilo autoral (marca de autoria): conjunto de escolhas linguísticas recorrentes na obra de um escritor que a tornam reconhecível e distinta de outras — aqui, a pontuação "fora do padrão" é assinatura estética típica de José Saramago.
  • Função expressiva da pontuação: pontuação não serve apenas à correção normativa; pode ser manipulada para criar ritmo, fluidez, sobreposição de vozes e até desorientação proposital no leitor.
  • Relação forma-conteúdo: em textos literários de qualidade, a forma como o texto é construído (sintaxe, pontuação, disposição gráfica) frequentemente reforça o que está sendo narrado — a estrutura "imita" o sentido.
  • Norma-padrão x uso literário da língua: desviar da norma culta em um texto técnico é falha; na literatura, o desvio consciente é recurso válido e valorizado, avaliado pelo efeito que produz, não pela adequação gramatical isolada.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "O homem disse, Está a chover, e depois, Quem é você, Não sou daqui..." → as falas de personagens diferentes aparecem encadeadas num único bloco, separadas apenas por vírgula e letra maiúscula, sem travessão, sem aspas e sem verbos de elocução regulares ("perguntou", "respondeu") demarcando cada turno de fala. Isso revela ruptura proposital com a pontuação canônica do discurso direto.
  • Evidência 2: "A cena retrata as experiências das personagens em um país atingido por uma epidemia" (cegueira) — os personagens não têm nomes próprios ("o homem", "a mulher"), a ordem social se desfaz (soldados desaparecem, quarentena falha, "toda a gente está cega"). Isso revela que o caos social e sensorial vivido pelas personagens é o tema central do trecho.
  • Síntese: a pontuação "violada" não é falha nem obstáculo à compreensão: ela reproduz, na própria forma do texto, a mesma indistinção, confusão e perda de referências que a epidemia de cegueira impõe aos personagens. Forma e conteúdo caminham juntos — e essa fusão é, ao mesmo tempo, a marca inconfundível do estilo de Saramago.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o recurso estilístico em jogo

O trecho de Ensaio sobre a Cegueira dispensa os sinalizadores tradicionais do discurso direto: não há travessão introduzindo cada fala, não há aspas isolando o que é dito, não há parágrafo novo para cada interlocutor. Apenas a vírgula seguida de letra maiúscula indica que a palavra mudou de dono. Essa é uma escolha sistemática e recorrente em toda a obra de Saramago — não um lapso isolado nesse trecho específico.

Subpasso 4.2 — Relacionar o recurso à situação narrada

O romance narra uma epidemia de "cegueira branca" que dissolve identidades (personagens sem nome), hierarquias (a quarentena militar fracassa) e a própria noção de ordem social. Ao fundir as falas dos personagens num fluxo contínuo e sem marcação clara de quem fala, o texto obriga o leitor a um esforço de "enxergar" quem está falando — um efeito que espelha, na experiência de leitura, a confusão e a indistinção vividas pelos personagens cegos. A pontuação incomum não atrapalha por acaso: ela constrói, formalmente, o mesmo ambiente caótico do enredo.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando essa leitura com as alternativas, apenas a opção C reúne os dois elementos identificados nos Subpassos 4.1 e 4.2: (i) a pontuação é marca de estilo pessoal e reconhecível do autor ("singulariza o estilo") e (ii) essa pontuação contribui para representar, na forma do texto, o ambiente de desordem da epidemia ("auxilia na representação do ambiente caótico"). Nenhuma outra alternativa dá conta simultaneamente da função estilística e da função temática do recurso.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) revela uma incompatibilidade entre o sistema de pontuação convencional e a produção do gênero romance.

❌ Incorreta: generaliza indevidamente para todo o gênero romance. A imensa maioria dos romances usa pontuação convencional sem qualquer problema; o que há aqui não é incompatibilidade do gênero com a norma, mas uma escolha estética pontual e deliberada de um autor específico.

B) provoca uma leitura equivocada das frases interrogativas e prejudica a verossimilhança.

❌ Incorreta: inverte o efeito real do recurso. Longe de prejudicar a verossimilhança, a fusão das falas em fluxo contínuo aproxima o texto da fala espontânea e sobreposta do cotidiano (como em conversas reais, tensas e apressadas), reforçando — e não comprometendo — o efeito de realidade da cena.

C) singulariza o estilo do autor e auxilia na representação do ambiente caótico.

✅ Correta: é exatamente a leitura construída nos Passos 3 e 4 — o recurso é marca de estilo autoral e, ao mesmo tempo, reforça formalmente o caos temático (epidemia, perda de identidade e de ordem social) vivido pelas personagens.

D) representa uma exceção às regras do sistema de pontuação canônica.

❌ Incorreta: é uma afirmação apenas descritiva e incompleta. Constatar que há "exceção à norma" não responde ao que a questão pede (o EFEITO de sentido dessa violação); fica na superfície do fenômeno sem explicar sua função no texto.

E) colabora para a construção da identidade do narrador pouco escolarizado.

❌ Incorreta: o narrador saramaguiano é justamente o oposto de "pouco escolarizado" — sua voz é culta, reflexiva e filosófica, e permanece plenamente domínio da norma culta em outros aspectos da prosa (léxico, sintaxe elaborada). A pontuação incomum não caracteriza um narrador iletrado, mas uma escolha estética consciente de um autor extremamente sofisticado.

🏆 Gabarito: C — a violação das regras de pontuação no diálogo é recurso estilístico deliberado de Saramago que, ao mesmo tempo, reforça formalmente o clima de desordem e confusão da epidemia narrada.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa C explica o "porquê" do recurso (função estilística + função temática), enquanto as demais ou generalizam demais (A), invertem o efeito (B), ficam na descrição rasa (D) ou atribuem uma causa incompatível com o texto (E).
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrente cobra, em textos literários, a análise de recursos linguísticos "fora do padrão" (pontuação, sintaxe, vocabulário) sempre pedindo o EFEITO DE SENTIDO produzido, nunca apenas o reconhecimento do desvio em si.
  • Generalização: sempre que um trecho literário quebrar conscientemente uma convenção da língua, pergunte-se "o que esse desvio comunica sobre o tema ou sobre a voz do autor?" — a resposta certa quase sempre liga forma a conteúdo.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de cara alternativas que tratam o recurso literário como "erro", "prejuízo" ou "incompatibilidade" (aqui, B, A e D caem por esse motivo) — em texto literário canônico, presuma que o desvio é proposital até prova em contrário.
  • Conexões: compare com outras questões sobre função da linguagem literária (fluxo de consciência, discurso indireto livre) e com o estudo de figuras de linguagem que também usam forma para reforçar sentido, como a aliteração e a anáfora.

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