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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 13ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

O farrista

Quando o almirante Cabral
Pôs as patas no Brasil
O anjo da guarda dos índios
Estava passeando em Paris.
Quando ele voltou de viagem
O holandês já está aqui.
O anjo respira alegre:
“Não faz mal, isto é boa gente,
Vou arejar outra vez.”
O anjo transpôs a barra,
Diz adeus a Pernambuco,
Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim
Mas deu um vento no anjo,
Ele perdeu a memória…
E não voltou nunca mais.

MENDES. M. História do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1992

A obra de Murilo Mendes situa-se na fase inicial do Modernismo, cujas propostas estéticas transparecem, no poema, por um eu lírico que

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Modernismo brasileiro (primeira fase / geração de 1922)
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular periodização literária com a leitura fina do tom irônico do eu lírico.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer, em texto poético, marcas estéticas de um movimento literário (Modernismo, 1ª fase) e relacioná-las à postura crítica do eu lírico diante da história oficial do Brasil.
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual traço estético da primeira fase do Modernismo aparece na forma como o eu lírico trata a colonização do Brasil?"
  • Palavras-chave decisivas: fase inicial do Modernismo, propostas estéticas, eu lírico que
  • Armadilha típica: associar a palavra "anjo" a sincretismo religioso, ou confundir "colonização" com "formação do povo brasileiro" (miscigenação), ignorando que o comando pede a postura estética do eu lírico, não apenas o assunto histórico tratado.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o eu lírico revisita o episódio colonial (chegada de Cabral e dos holandeses) com humor, coloquialidade e deboche, características que desmontam o discurso solene e heroico tradicionalmente associado ao "descobrimento" — ou seja, uma leitura iconoclasta da história.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Primeira fase do Modernismo (1922–1930): rompe com o academicismo parnasiano/simbolista; adota linguagem coloquial, humor e ironia; revisa criticamente a identidade e a história nacionais.
  • Poesia Pau-Brasil (Oswald de Andrade): propõe reler a história do Brasil com distanciamento crítico e tom de crônica bem-humorada, expondo contradições do processo colonizador.
  • Iconoclastia: atitude de questionar, ridicularizar ou "derrubar" símbolos e narrativas consagradas — aqui, o mito do "descobrimento" como feito nobre e ordeiro.
  • Murilo Mendes — "História do Brasil" (1932): coletânea de poemas curtos e satíricos que reconta episódios da história oficial com humor ácido, evidenciando negligências e violências apagadas pelo discurso tradicional.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Quando o almirante Cabral / Pôs as patas no Brasil" → verbo coloquial e depreciativo ("pôs as patas") no lugar de "desembarcou" ou "descobriu", já rebaixando a solenidade do episódio fundador.
  • Evidência 2: "O anjo da guarda dos índios / Estava passeando em Paris" → personificação irônica: o suposto protetor dos indígenas está ausente e alheio, sugerindo negligência disfarçada de ingenuidade festiva.
  • Evidência 3: "Não faz mal, isto é boa gente... / Ele perdeu a memória… / E não voltou nunca mais" → o anjo abandona de vez os índios após avaliar erroneamente os colonizadores como "boa gente", numa chacota amarga sobre o esquecimento histórico dos povos originários.
  • Síntese: o eu lírico narra a colonização com galhofa, coloquialismo e distanciamento crítico, transformando um marco histórico solene em uma farsa — assinatura da revisão irônica (iconoclasta) da história típica da primeira geração modernista.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Situar o autor e o movimento

Murilo Mendes integra a primeira geração do Modernismo brasileiro, ao lado de Oswald de Andrade e Mário de Andrade. O projeto estético desse grupo, nascido na Semana de Arte Moderna de 1922, incluía repensar a identidade nacional rompendo com o discurso grandiloquente e idealizado sobre a formação do Brasil, substituindo-o por um olhar irreverente e crítico.

Subpasso 4.2 — Analisar a postura do eu lírico

No poema, o eu lírico não narra a chegada de Cabral e dos holandeses como feito épico, mas como episódio cômico e desleixado, usando a figura de um "anjo da guarda" farrista e desatento. Essa personificação satírica desmonta o mito solene do "descobrimento", denunciando pelo riso a negligência e o abandono dos povos indígenas diante da colonização — é exatamente esse gesto de "quebrar o ícone" histórico oficial que caracteriza uma leitura iconoclasta.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando a síntese ("revisão irônica do episódio colonial") com as cinco alternativas, apenas a opção B reúne os dois elementos exigidos pelo comando: o tema (colonialismo) e a estética (viés iconoclasta). As demais tratam de assuntos que o poema não desenvolve centralmente.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) configura um ideal de nacionalidade pela integração regional.

❌ Incorreta: o poema não articula regiões do país em torno de um projeto nacional unificador; ao contrário, ironiza o próprio marco fundador da nação, sem qualquer discussão de integração regional.

B) remonta ao colonialismo assente sob um viés iconoclasta.

✅ Correta: o eu lírico revisita ("remonta") o momento colonial — chegada de Cabral e depois dos holandeses — com tom irônico e coloquial que desmonta a visão solene e heroica associada ao "descobrimento", denunciando pelo humor a negligência com os indígenas. Essa postura de questionar e ridicularizar o mito fundador é o traço iconoclasta típico da primeira fase modernista.

C) repercute as manifestações do sincretismo religioso.

❌ Incorreta: a figura do "anjo" é recurso poético de personificação e ironia, não uma referência ao encontro/fusão entre crenças católicas e indígenas ou afro-brasileiras; não há sincretismo de fato representado no texto.

D) descreve a gênese da formação do povo brasileiro.

❌ Incorreta: o poema não aborda miscigenação nem composição étnico-cultural da população; seu foco é a chegada dos colonizadores europeus, narrada com sátira, sem tratar do processo de formação do povo.

E) promove inovações no repertório linguístico.

❌ Incorreta: embora expressões coloquiais como "pôs as patas" e "vuco-vuco" sejam marcas modernistas de linguagem, o comando pergunta pela proposta estética revelada pela postura do eu lírico diante do tema histórico — o cerne da questão é a reinterpretação crítica da colonização, não a criação de vocabulário novo.

🏆 Gabarito: B — o eu lírico usa humor, coloquialidade e a alegoria do anjo negligente para desmontar o discurso solene sobre a colonização, numa releitura iconoclasta da história oficial, marca essencial da primeira fase do Modernismo.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: somente a alternativa B combina os dois requisitos do comando — o tema (colonialismo) e a estética (iconoclastia/irreverência) —, sendo a única compatível com o projeto da primeira geração modernista.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede o reconhecimento das fases do Modernismo brasileiro (1ª fase: ruptura e crítica nacionalista; 2ª fase: regionalismo/intimismo; 3ª fase: universalismo) a partir de trechos de poemas ou prosa, exigindo que o candidato relacione forma e conteúdo ao contexto histórico do movimento.
  • Generalização: sempre que o enunciado mencionar "Semana de Arte Moderna" ou "fase inicial/primeira fase do Modernismo", procure no texto marcas de humor, coloquialismo e crítica (muitas vezes irônica) aos mitos fundadores e à identidade nacional idealizada.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que remetam a temas de outras fases ou áreas (regionalismo pertence à 2ª fase; sincretismo religioso é tema sociológico/antropológico, não central ao poema; formação do povo é questão de miscigenação, ausente no texto) e fique com a opção que une "revisão histórica" a "irreverência/deboche".
  • Conexões: Manifesto Pau-Brasil e Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade; a própria obra "História do Brasil" (1932), de Murilo Mendes, como exemplo maior dessa reescrita satírica da historiografia nacional.

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