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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 40ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

A lavadeira começou a viver como uma serviçal que impõe respeito e não mais como escrava. Mas essa regalia súbita foi efêmera. Meus irmãos, nos frequentes deslizes que adulteravam este novo relacionamento, geram dardejados pelo olhar severo de Emilie; eles nunca suportaram de bom grado que uma índia passasse a comer na mesa da sala, usando os mesmos talheres e pratos, e comprimindo com os lábios o mesmo cristal dos copos e a mesma porcelana das xícaras de café. Uma espécie de asco e repulsa tingia-lhes o rosto, já não comiam com a mesma saciedade e recusavam-se a elogiar os pastéis de picadinho de carneiro, os folheados de nata e tâmara, e o arroz com amêndoas, dourado, exalando um cheiro de cebola tostada. Aquela mulher, sentada e muda, com o rosto rastreado de rugas, era capaz de tirar o sabor e o odor dos alimentos e de suprimir a voz e o gesto como se o seu silêncio ou a sua presença que era só silêncio impedisse o outro de viver.

HATOUM. M. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

Ao apresentar uma situação de tensão em família, o narrador destila, nesse fragmento, uma percepção das relações humanas e sociais demarcada pelo

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de prosa contemporânea brasileira (Milton Hatoum) e leitura crítica do discurso narrativo
  • ⚡ Nível: Médio — a resposta certa exige distinguir alternativas semanticamente próximas, separando quem exerce o preconceito de quem o sofre
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento da crítica social implícita na voz narrativa (Competência 1 de Linguagens — reconhecer usos da língua e da linguagem literária como instrumentos de representação de relações sociais)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que visão de mundo sobre as relações humanas e sociais o narrador constrói ao descrever essa cena de tensão familiar?"
  • Palavras-chave decisivas: "tensão em família", "percepção das relações humanas e sociais", "demarcada pelo"
  • Armadilha típica: inverter o sujeito do julgamento — atribuir à lavadeira (a vítima do preconceito) sentimentos como ingratidão ou hipocrisia, quando na verdade é ela quem sofre a rejeição dos irmãos.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o texto expõe um preconceito que resiste mesmo depois de mudanças formais na condição da personagem — ou seja, que fatores de classe e raça continuam pesando mais do que a convivência diária.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Narrador crítico e observador: relata a cena com distanciamento, mas deixa transparecer julgamento sobre a atitude dos irmãos por meio de escolhas lexicais como "asco", "repulsa" e "deslizes".
  • Estigma social: marca negativa herdada de uma condição de origem (aqui, a etnia indígena e o antigo status de escrava) que a sociedade recusa apagar, mesmo diante de mudança de papel social.
  • Preconceito velado no gesto, não na fala: os irmãos não verbalizam rejeição — ela aparece no rosto, na recusa de elogiar a comida, no silêncio hostil diante da mulher.
  • Objetos como fronteira simbólica de classe: talheres, pratos, cristal dos copos e porcelana das xícaras funcionam como marcadores de quem "pode" ou "não pode" pertencer àquele espaço.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "A lavadeira começou a viver como uma serviçal que impõe respeito e não mais como escrava" → mostra que a personagem sai de uma condição de escravidão (marca de raça/classe extrema) para outra ainda subalterna, mas nunca de igualdade plena.
  • Evidência 2: "eles nunca suportaram de bom grado que uma índia passasse a comer na mesa da sala, usando os mesmos talheres e pratos" → nomeia explicitamente o marcador étnico ("índia") e o social (dividir os mesmos objetos de uso da família), revelando que o incômodo nasce exatamente da quebra dessa fronteira.
  • Evidência 3: "Uma espécie de asco e repulsa tingia-lhes o rosto" → reação corporal e involuntária de nojo, típica de preconceito arraigado, dirigida à presença da mulher, não a qualquer atitude ou comportamento dela.
  • Síntese: o conflito familiar não nasce de algo que a lavadeira fez, mas de quem ela é (índia, ex-escrava). A intimidade cotidiana — comer à mesma mesa, usar os mesmos utensílios — deveria aproximar, mas os irmãos reagem reafirmando a distância social e racial que insistem em preservar.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Localizar o sujeito e o objeto do preconceito

No fragmento, os irmãos do narrador são o sujeito que julga; a lavadeira índia é o objeto julgado. O gatilho da tensão é bem concreto: ela passou a se sentar à mesa da sala e a usar os mesmos talheres, pratos, copos de cristal e xícaras de porcelana que a família usa. Ou seja, o incômodo nasce do compartilhamento de objetos que simbolizam status social — não de nenhuma falha de conduta da mulher.

Subpasso 4.2 — Isolar os dois eixos do estigma (raça e classe)

O texto cruza duas marcas de exclusão sobre a mesma personagem: (1) etnia — ela é chamada de "índia"; (2) classe/origem social — ela "vivia como escrava" e depois como "serviçal". Repare que o narrador não questiona o comportamento dela em nenhum momento: ela é descrita como "sentada e muda", isto é, passiva diante do julgamento alheio. O peso negativo do trecho recai inteiramente sobre a reação de "asco e repulsa" dos irmãos — típica de preconceito de raça e de classe, e não de uma disputa sobre regras domésticas ou valores morais.

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando com as alternativas, apenas uma nomeia corretamente os dois fatores identificados no texto (raça e classe) como aquilo que se sobrepõe à convivência íntima diária (dividir a mesma mesa, os mesmos talheres). Essa é a leitura que fecha com todas as evidências levantadas nos passos anteriores — sem inverter o sujeito do preconceito nem inventar sentimentos (ingratidão, insubordinação) que o texto não atribui à lavadeira.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) predomínio dos estigmas de classe e de raça sobre a intimidade da convivência.

✅ Correta: é exatamente o que o texto mostra — mesmo com a proximidade diária de dividir mesa, talheres e louças finas, prevalece nos irmãos o estigma de a lavadeira ser índia e ex-escrava. O estigma social vence a intimidade que a convivência deveria produzir.

B) discurso da manutenção de uma ética doméstica contra a subversão dos valores.

❌ Incorreta: essa leitura supõe que o narrador valida a reação dos irmãos como defesa legítima de uma ordem doméstica ameaçada. Mas o texto é crítico a essa reação — descreve-a com termos negativos ("asco", "repulsa") — e não a apresenta como defesa de valores éticos, e sim como preconceito.

C) desejo de superação do passado de escassez em prol do presente de abastança.

❌ Incorreta: o fragmento descreve pratos fartos (pastéis de picadinho, folheados de nata e tâmara, arroz com amêndoas), mas o tema não é escassez versus fartura — é quem tem o direito de participar da mesa. A comida farta é cenário, não o conflito central.

D) sentimento de insubordinação à autoridade representada pela matriarca da família.

❌ Incorreta: Emilie aparece apenas observando os "deslizes" dos irmãos com "olhar severo" — ou seja, ela reprime o comportamento preconceituoso deles, não o contrário. Não há qualquer indício de que os irmãos estejam se rebelando contra a autoridade dela; a tensão central é entre os irmãos e a lavadeira.

E) rancor com a ingratidão e a hipocrisia geradas pela mudanças nas regras da casa.

❌ Incorreta: essa alternativa inverte o sujeito do julgamento moral. Não há no texto nenhuma menção a ingratidão ou hipocrisia por parte da lavadeira — ela é "muda", passiva, vítima do olhar alheio. O rancor descrito é dos irmãos, motivado por preconceito de raça e classe, não por uma suposta falha de caráter dela.

🏆 Gabarito: A — o fragmento denuncia que, mesmo diante de uma convivência doméstica próxima e cotidiana, o estigma racial (ser índia) e social (ter sido escrava) continua determinando quem pertence de fato àquele espaço familiar.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: A alternativa A é a única que nomeia com precisão os dois eixos de exclusão presentes no texto — raça e classe — e os posiciona corretamente como forças que se sobrepõem à intimidade da convivência diária, sem inverter quem julga e quem é julgado.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa fragmentos de romances brasileiros contemporâneos (Hatoum, Rubião, Conceição Evaristo, entre outros) para cobrar a identificação de críticas sociais — racismo, desigualdade, exclusão — construídas de forma indireta pela voz narrativa, e não declaradas abertamente.
  • Generalização: em textos narrativos que retratam personagens marginalizadas socialmente, pergunte sempre "quem julga, o quê e por quê". Normalmente a narrativa denuncia o preconceito de quem julga — ela não o endossa nem culpa quem o sofre.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de imediato qualquer alternativa que atribua defeito moral, ingratidão ou insubordinação à personagem discriminada (aqui, isso descarta E e D em segundos) — questões desse tipo quase nunca colocam a culpa em quem sofre a exclusão.
  • Conexões: compare com outras questões de ENEM sobre literatura de denúncia social envolvendo herança da escravidão, racismo estrutural e desigualdade nas relações domésticas brasileiras.

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