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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 38ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

Naquela manhã de céu limpo e ar leve, devido à chuva torrencial da noite anterior, sai a caminhar com o sol ainda escondido para tomar tenência dos primeiros movimentos da vida na roça. Num demorou nem um tiquinho e o cheiro intenso do café passado por Dona Linda me invadiu as narinas e fez a fome se acordar daquela rema letárgica derivada da longa noite de sono. Levei as mãos até a água que corria pela bica feita de bambu e o contato gelado foi de arrepiar. Mas fui em frente e levei as mãos em concha até o rosto. Com o impacto, recuei e me faltou o fôlego por alguns instantes, mas o despertar foi imediato. Já aceso, entrei na cozinha na buscação de derrubar a fome e me acercar do aconchego do calor do fogão à lenha. Foi quando dei reparo da figura esguia e discreta de uma senhora acompanhada de um garoto aparentando uns cinco anos de idade já aboletada na ponta da mesa em proseio íntimo com a dona da casa. Depois de um vigoroso “Bom dia!”, de um vaporoso aperto de mãos nas apresentações de praxe, fiquei sabendo que Dona Flor de Maio levava o filho Adão para tratamento das feridas que pipocavam por seu corpo, provocando pequenas pústulas de bordas avermelhadas.

GUIÃO, M. Disponível em: www.revistaecologico.com.br. Acesso em: 10 mar. 2014 (adaptado).

A variedade linguística da narrativa é adequada à descrição dos fatos. Por isso, a escolha de determinadas palavras e expressões usadas no texto está a serviço da

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Variação Linguística (registro regional/coloquial) e Interpretação de Texto
  • ⚡ Nível: Médio — exige perceber a função da variedade linguística no texto, não apenas reconhecê-la, e as alternativas erradas usam vocabulário técnico-literário sedutor.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Função da variação linguística regional na construção do efeito de realidade (verossimilhança) do ambiente narrado.
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "A que serve, no texto, o uso de palavras e expressões da variedade linguística regional/rural?"
  • Palavras-chave decisivas: variedade linguística, adequada à descrição dos fatos, está a serviço de
  • Armadilha típica: trocar a função textual do regionalismo por características formais isoladas (marcação de tempo, tipo de narrador, traço de um único personagem) que não explicam o efeito constante do texto.
  • O que a resposta precisa demonstrar: para que serve, no texto como um todo, o vocabulário regional/rústico — não um detalhe pontual da narrativa.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Variação linguística: a língua se realiza de formas diferentes conforme fatores geográficos, sociais e situacionais. Aqui, é uma variedade regional/rural, marcada por vocabulário típico do interior.
  • Verossimilhança: efeito de "parecer verdadeiro" dentro da ficção; é a coerência interna que faz o leitor aceitar como plausível o universo narrado.
  • Adequação linguística: a escolha de registro deve se ajustar ao contexto comunicativo — retratar a vida na roça pede léxico compatível com esse universo, não a norma-padrão urbana.
  • Narrador-personagem: o texto é narrado em 1ª pessoa por quem vive os fatos ("sai a caminhar", "levei as mãos"), o que já descarta leituras que o reduzem a mero observador externo.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "sai a caminhar... para tomar tenência dos primeiros movimentos da vida na roça" → expressão regional ambientada explicitamente na roça, já na primeira linha.
  • Evidência 2: "Num demorou nem um tiquinho", "buscação de derrubar a fome", "dei reparo da figura esguia", "já aboletada na ponta da mesa", "proseio íntimo" → sequência de expressões coloquiais/regionais (fora da norma-padrão), sempre no mesmo tom rústico, substituindo formas convencionais como "não demorou muito", "procurando", "percebi", "sentada", "conversa".
  • Síntese: o texto inteiro é tecido com esse léxico regional, do início ao fim — não é recurso isolado num único ponto. Isso descarta explicações "pontuais" e aponta para um traço geral, responsável por criar a atmosfera fiel ao ambiente rural retratado.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno linguístico em jogo

O texto narra, em 1ª pessoa, uma manhã na roça, recheado de expressões que fogem da norma-padrão: "tomar tenência", "tiquinho", "rema letárgica", "buscação", "dei reparo", "aboletada", "proseio íntimo", "vaporoso aperto de mãos", "pipocavam". Todas pertencem ao mesmo registro: a variedade regional/rural, ligada à oralidade do interior do Brasil.

Subpasso 4.2 — Relacionar a variedade linguística ao efeito de sentido

O próprio enunciado entrega a chave: "a variedade linguística da narrativa é adequada à descrição dos fatos". A escolha lexical não é gratuita — ela torna críveis (verossímeis) o cenário, os costumes e as personagens da roça. Um narrador que descrevesse a vida no campo com vocabulário urbano e formal soaria artificial; ao usar o falar típico daquele ambiente, o autor faz o leitor "acreditar" que está diante de um relato autêntico daquele universo rural — água na bica de bambu, fogão a lenha, cheiro de café, feridas provocadas pela lida na roça.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando com as alternativas, a única que descreve o efeito de "tornar plausível/crível o cenário retratado" é a que fala em "composição da verossimilhança do ambiente retratado" — exatamente o mecanismo descrito acima. As demais prendem a função da linguagem a aspectos isolados (tempo, narrador-observador, misticismo feminino, gosto linguístico de um único personagem) que não correspondem ao efeito global e constante do texto.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) localização dos eventos de fala no tempo ficcional.

❌ Incorreta: o vocabulário regional não marca tempo — não são advérbios temporais nem marcadores cronológicos. Expressões como "tomar tenência" ou "dei reparo" indicam modo de agir e de falar, não situam a cena no eixo "quando" da história.

B) composição da verossimilhança do ambiente retratado.

✅ Correta: o léxico regional (rural, coloquial, típico do interior) é usado de forma consistente do início ao fim para tornar o cenário da roça — e os costumes, hábitos e falas de seus moradores — crível e autêntico aos olhos do leitor. É esse o papel central da variação linguística no texto.

C) restrição do papel do narrador à observação das cenas relatadas.

❌ Incorreta: o narrador não é mero observador — é protagonista da cena, participando ativamente dos fatos ("sai a caminhar", "levei as mãos até a água", "recuei e me faltou o fôlego"). A variedade linguística reforça sua vivência direta do ambiente, não a restrição à observação.

D) construção mística das personagens femininas pelo autor do texto.

❌ Incorreta: não há traço de misticismo, magia ou sobrenatural em Dona Linda ou Dona Flor de Maio — são personagens comuns do cotidiano rural (uma prepara café, outra leva o filho para tratar feridas). "Construção mística" é leitura sem respaldo no texto.

E) caracterização das preferências linguísticas da personagem masculina.

❌ Incorreta: as expressões regionais não são "preferências" de fala de um personagem específico em diálogo — permeiam toda a narração, descrevendo ambiente, personagens e ações, e não apenas a fala de um indivíduo isolado.

🏆 Gabarito: B — a variedade linguística regional usada ao longo de todo o texto compõe a verossimilhança do ambiente rural retratado, tornando crível o universo da roça descrito pelo narrador.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia corretamente a função textual do regionalismo: gerar efeito de realidade (verossimilhança) compatível com o ambiente narrado, confirmado por praticamente cada expressão do texto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos com marcas de variação linguística (regional, coloquial, de gíria, de registro técnico) e pede que o candidato reconheça a adequação dessas marcas ao contexto comunicativo, sem julgá-las "erradas" frente à norma-padrão.
  • Generalização: ao ver uma variedade linguística marcada num texto, pergunte "que efeito de sentido essa escolha produz no contexto retratado?" — a resposta certa costuma ligar a linguagem ao ambiente/situação comunicativa, não a aspectos estruturais isolados (tempo verbal, tipo de narrador).
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que citam elementos ausentes no texto (misticismo, foco em um único personagem) e as que descrevem categorias narrativas técnicas sem relação com a escolha vocabular; sobra quase sempre a opção sobre "efeito de realidade"/"verossimilhança" do ambiente.
  • Conexões: tema que dialoga com "Variação Linguística e Preconceito Linguístico" (Marcos Bagno) e com a literatura regionalista (ex.: Guimarães Rosa), em que o léxico do interior caracteriza o espaço narrado.

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