Mapa de questões · 1º dia
Questão 66 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia
Uma conversação de tal natureza transforma o ouvinte; o contato de Sócrates paralisa e embaraça; leva a refletir sobre si mesmo, a imprimir à atenção uma direção incomum: os temperamentais, como Alcibíades, sabem que encontrarão junto dele todo o bem de que são capazes, mas fogem porque receiam essa influência poderosa, que os leva a se censurarem. É sobretudo a esses jovens, muitos quase crianças, que ele tenta imprimir sua orientação.
BRÉHIER, E. História da filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1977.
O texto evidencia características do modo de vida socrático, que se baseava na
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Antiga, Sócrates e o método dialético
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, a partir de uma descrição literária do comportamento socrático, qual conceito filosófico técnico ela ilustra.
- 🎯 Tema/Habilidade: O método socrático de investigação (ironia e maiêutica como dialética) — competência de leitura e articulação de textos filosóficos.
- 🏆 Gabarito: B — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que característica do modo de vida de Sócrates o trecho de Bréhier está descrevendo?"
- Palavras-chave decisivas: conversação que transforma, paralisa e embaraça, leva a refletir sobre si mesmo
- Armadilha típica: confundir a persuasão pela palavra (retórica sofística) com o diálogo investigativo de Sócrates, já que ambos envolvem "conversa" e "influência sobre o outro".
- O que a resposta precisa demonstrar: que o efeito descrito — paralisia, embaraço, autorreflexão forçada — é a marca do método dialético socrático (perguntas que desmontam certezas e conduzem ao autoconhecimento).
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Método socrático (dialética): técnica de investigação filosófica baseada em perguntas e respostas sucessivas, em que Sócrates conduz o interlocutor a examinar suas próprias crenças até encontrar contradições nelas.
- Ironia socrática: a postura de "fingir não saber" ("só sei que nada sei"), usada para provocar o outro a expor e testar aquilo que julga saber com segurança.
- Maiêutica: a "arte de partejar ideias" — Sócrates comparava seu método ao ofício de sua mãe, parteira, pois não "ensinava" verdades prontas, mas ajudava o interlocutor a dar à luz o conhecimento que já trazia em si, através do exame dialógico.
- Retórica sofística (contraponto): técnica de persuasão praticada pelos sofistas, voltada a convencer uma plateia, independentemente da busca por uma verdade objetiva — Sócrates se opunha a esse uso da palavra.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o contato de Sócrates paralisa e embaraça; leva a refletir sobre si mesmo" → descreve exatamente o efeito da ironia socrática dentro do processo dialético: o interlocutor é desestabilizado em suas certezas e obrigado a examinar a própria vida e opiniões.
- Evidência 2: "os temperamentais, como Alcibíades, [...] fogem porque receiam essa influência poderosa, que os leva a se censurarem" → mostra que o incômodo provocado não é retórico (persuasão agradável), mas o resultado do questionamento contínuo que expõe contradições e gera autocrítica — traço central do diálogo dialético socrático.
- Síntese: o texto não descreve alguém que discursa para convencer ou que ensina uma doutrina fechada; descreve um método de conversação (pergunta, resposta, exame) que transforma o interlocutor de dentro para fora. Esse é, por definição, o método dialético.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo da cena narrada
Bréhier descreve o efeito do "contato" com Sócrates: uma "conversação" que "transforma o ouvinte", "paralisa e embaraça" e "leva a refletir sobre si mesmo". Não é um discurso unilateral nem uma exposição de conteúdos — é um processo interativo, de vaivém entre pergunta e resposta, que atua sobre quem participa dele. Esse é o formato do diálogo socrático tal como Platão o retrata: Sócrates pergunta "o que é a coragem?", "o que é a justiça?", e vai desconstruindo as respostas dadas até o interlocutor perceber que não sabia tão bem quanto pensava.
Subpasso 4.2 — Conectar o efeito descrito ao conceito filosófico
A "paralisia" e o "embaraço" remetem à célebre comparação feita no diálogo Mênon entre Sócrates e o "peixe-torpedo" (arraia elétrica): quem se aproxima dele fica entorpecido, sem saber mais o que responder. Esse entorpecimento é o efeito calculado da ironia socrática dentro da dialética: ao fingir ignorância e insistir em perguntas sucessivas, Sócrates desmonta certezas e obriga o interlocutor a "refletir sobre si mesmo". É o movimento da maiêutica: não impor uma verdade de fora, mas parir, pelo diálogo, uma verdade latente (ou expor que ela não existia como se pensava).
Subpasso 4.3 — Verificação
O caso de Alcibíades reforça a leitura: ele foge do convívio com Sócrates porque teme a "influência poderosa" que o "leva a se censurar". Censurar-se é reconhecer as próprias contradições — efeito típico de quem foi submetido a perguntas e respostas que revelam inconsistências no próprio pensamento. Isso não tem relação com mito, relativismo do saber, retórica persuasiva ou investigação da natureza — mas com o exercício do método dialético. Confirmado: a resposta converge para a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) contemplação da tradição mítica.
❌ Incorreta: a tradição mítica (explicações do mundo por meio de deuses e narrativas fantásticas, como em Hesíodo e Homero) é justamente o que a filosofia nascente, incluindo Sócrates, buscava superar em favor do logos (razão argumentativa). O texto não menciona mitos, mas um método racional de conversação.
B) sustentação do método dialético.
✅ Correta: o trecho descreve com precisão os efeitos do diálogo socrático — paralisar, embaraçar, levar à autorreflexão e à autocensura — que são a assinatura da dialética (ironia + maiêutica) como prática filosófica cotidiana de Sócrates junto aos jovens atenienses.
C) relativização do saber verdadeiro.
❌ Incorreta: relativizar o saber ("cada um tem sua verdade") é postura associada aos sofistas (como Protágoras, para quem "o homem é a medida de todas as coisas"), contra quem Sócrates justamente se posicionava. Sócrates acreditava em verdades a serem buscadas coletivamente pelo diálogo, não em verdades relativas a cada indivíduo.
D) valorização da argumentação retórica.
❌ Incorreta: a retórica sofística visa persuadir e vencer debates, muitas vezes independentemente da verdade. O texto descreve o oposto: um efeito de paralisia e desconforto que provoca autoexame, não convencimento agradável ou vitória discursiva sobre um adversário.
E) investigação dos fundamentos da natureza.
❌ Incorreta: investigar a physis (a natureza, seus elementos e princípios) era o projeto dos filósofos pré-socráticos (Tales, Anaximandro, Heráclito etc.). Sócrates promoveu justamente o chamado "giro antropológico" da filosofia, voltando-a para as questões humanas, éticas e morais — não para os fenômenos naturais.
🏆 Gabarito: B — o texto descreve o efeito transformador, paralisante e autocrítico do diálogo com Sócrates, que é a manifestação direta do seu método dialético (ironia e maiêutica), e não de mito, relativismo, retórica ou investigação da natureza.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia o mecanismo por trás dos efeitos narrados (paralisia, embaraço, autorreflexão, autocensura): o método dialético, feito de perguntas e respostas que desmontam certezas.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer trechos de comentadores (Bréhier, Marcondes, Chauí) ou de diálogos platônicos descrevendo cenas do cotidiano filosófico grego, pedindo que o aluno identifique o conceito técnico por trás da descrição, sem citar o termo diretamente.
- Generalização: sempre que o texto descrever Sócrates provocando dúvida, desconforto ou autoexame por meio de perguntas, associe à ironia e à maiêutica — componentes do método dialético — e não à retórica (que busca convencer) nem ao ensino de conteúdos fixos.
- Dica de eliminação rápida: elimine logo as alternativas ligadas a outras fases da filosofia grega — mito (pré-filosofia) e natureza (pré-socráticos) não combinam com a virada antropológica de Sócrates; relativismo é marca dos sofistas, seus adversários intelectuais.
- Conexões: aprofunde com o intelectualismo moral socrático ("ninguém erra por vontade própria, mas por ignorância") e com o confronto Sócrates x sofistas, temas que costumam aparecer junto ao método dialético no ENEM.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.