Mapa de questões · 1º dia
Questão 83 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia
No período anterior ao golpe militar de 1964, os documentos episcopais indicavam para os bispos que o desenvolvimento econômico, e claramente o desenvolvimento capitalista, orientando-se no sentido da justa distribuição da riqueza, resolveria o problema da miséria rural e, consequentemente, suprimiria a possibilidade do proselitismo e da expansão comunista entre os camponeses. Foi nesse sentido que o golpe de Estado, de 31 de março de 1964, foi acolhido pela Igreja.
MARTINS, J. S. A política do Brasil: lúmpen e místico. São Paulo: Contexto, 2011 (adaptado).
Em que pesem as divergências no interior do clero após a instalação da ditadura civil-militar, o posicionamento mencionado no texto fundamentou-se no entendimento da hierarquia católica de que o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil República, Ditadura Civil-Militar (1964-1985), relações entre Igreja Católica e Estado
- ⚡ Nível: Médio — exige traduzir a relação de causa e efeito de um texto historiográfico denso para os termos abstratos das alternativas, sem se apoiar em memorização de datas
- 🎯 Tema/Habilidade: A leitura anticomunista da miséria rural pela hierarquia católica e sua adesão ao golpe de 1964; compreensão de processos históricos e das justificativas ideológicas por trás de posicionamentos institucionais
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual raciocínio da hierarquia católica, expresso no texto, explica por que ela viu com bons olhos o golpe de 1964?"
- Palavras-chave decisivas: miséria rural, proselitismo e expansão comunista, desenvolvimento capitalista
- Armadilha típica: trocar a relação de causa e efeito do texto por outra parecida, mas que o texto não afirma — por exemplo, imaginar que a Igreja acusava o livre mercado de gerar conflito de classes, quando na verdade ela via o mercado bem distribuído como a solução para evitar esse conflito.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que, para a hierarquia católica pré-1964, a pobreza do campo era a condição que abria espaço para a doutrinação comunista entre os camponeses — e que combater essa pobreza (via desenvolvimento capitalista distributivo) era, na visão da Igreja, a forma de barrar o comunismo.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Anticomunismo católico na Guerra Fria: parte expressiva da hierarquia católica brasileira, sobretudo os setores mais conservadores, enxergava o comunismo como ameaça simultânea à propriedade privada, à família e à fé cristã, associando seu avanço às condições de miséria do campesinato.
- Desenvolvimentismo como "antídoto social": a ideia de que crescimento econômico capitalista com alguma distribuição de renda eliminaria as bases materiais que tornavam o discurso comunista atraente aos mais pobres — sem precisar de reforma agrária estrutural ou ruptura do sistema.
- Efervescência rural no início dos anos 1960: Ligas Camponesas, sindicalização rural e mobilizações por reforma agrária no governo Jango alimentavam, nos setores conservadores, o temor de uma "cubanização" do campo brasileiro, tornando o tema da miséria rural politicamente explosivo.
- Golpe civil-militar de 1964 e apoio eclesiástico: setores da Igreja (como os organizadores das "Marchas da Família com Deus pela Liberdade") apoiaram a deposição de João Goulart sob a justificativa de conter o "perigo comunista", ainda que, mais tarde, outros setores (ligados à Teologia da Libertação e às Comunidades Eclesiais de Base) passassem a se opor à ditadura.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o desenvolvimento econômico, e claramente o desenvolvimento capitalista, orientando-se no sentido da justa distribuição da riqueza, resolveria o problema da miséria rural" → revela que a Igreja apostava no crescimento capitalista bem distribuído como remédio para a pobreza do campo.
- Evidência 2: "suprimiria a possibilidade do proselitismo e da expansão comunista entre os camponeses" → revela a relação causal central: acabar com a miséria eliminaria o terreno em que o discurso comunista conseguia convencer os camponeses.
- Síntese: o texto não trata a pobreza e o comunismo como fenômenos paralelos, mas como causa e consequência — a miséria (privação material) é apresentada como a condição que torna os camponeses vulneráveis à propaganda e à conversão política comunista (manipulação ideológica). É por temer essa vulnerabilidade que a hierarquia católica recebeu o golpe de 1964 como um mal necessário para restabelecer a ordem e viabilizar o desenvolvimento capitalista distributivo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar a relação de causa e efeito do texto
Releia o trecho separando os dois polos da frase: de um lado está a causa — "miséria rural", isto é, a privação material do camponês; do outro está o efeito que essa causa possibilita — "proselitismo e expansão comunista", isto é, a doutrinação política que convence os camponeses a aderir ao comunismo. O texto afirma, em outras palavras, que "onde há miséria, floresce o comunismo entre os pobres do campo" — e é justamente essa equação que a Igreja queria desarmar com desenvolvimento econômico distributivo.
Subpasso 4.2 — Traduzir os termos do texto para a linguagem das alternativas
Para encontrar a alternativa correta, é preciso reconhecer sinônimos e paráfrases:
- "miséria rural" / o problema que o desenvolvimento resolveria → privação material;
- "proselitismo e expansão comunista" (convencer, converter, doutrinar camponeses a uma causa política) → manipulação ideológica.
Reescrevendo a lógica do texto nesses termos: a manipulação ideológica (do comunismo sobre os camponeses) é favorecida pela privação material (a miséria rural). Essa é exatamente a estrutura lógica da alternativa E.
Subpasso 4.3 — Verificação
Basta testar a frase-síntese contra cada alternativa: ela precisa (1) mencionar privação/pobreza como fator habilitador e (2) mencionar doutrinação/ideologia como o fenômeno favorecido — sem inverter a ordem de causa e efeito e sem inserir atores que o texto não menciona (Exército, empresariado, livre mercado como estímulo ao conflito). Apenas a alternativa E preenche integralmente esses dois critérios, confirmando-a como resposta.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) luta de classes é estimulada pelo livre mercado.
❌ Incorreta: inverte a lógica do texto. A hierarquia católica não acusava o mercado de gerar conflito de classes — pelo contrário, apostava no desenvolvimento capitalista com "justa distribuição da riqueza" como forma de pacificar o campo e suprimir a mobilização comunista, não de estimulá-la.
B) poder oligárquico é limitado pela ação do Exército.
❌ Incorreta: o texto não trata de disputa entre oligarquias rurais e Forças Armadas. A preocupação central do documento episcopal é a relação entre miséria e comunismo, tema completamente diferente do papel do Exército frente ao poder oligárquico.
C) doutrina cristã é beneficiada pelo atraso do interior.
❌ Incorreta: o texto diz exatamente o oposto — o atraso e a miséria do interior são vistos como um risco (terreno fértil para o comunismo avançar), e não como algo que beneficia a fé cristã. Por isso a Igreja defendia o desenvolvimento, e não a manutenção do atraso.
D) espaço político é dominado pelo interesse empresarial.
❌ Incorreta: não há no texto qualquer menção a controle do espaço político por interesses empresariais. O argumento episcopal gira em torno da relação entre desenvolvimento econômico distributivo e contenção do avanço comunista, sem referência a dominação política de empresários.
E) manipulação ideológica é favorecida pela privação material.
✅ Correta: reproduz com precisão a relação de causa e efeito estabelecida no texto — a miséria rural (privação material) é o fator que, na leitura da hierarquia católica, tornava os camponeses vulneráveis ao "proselitismo e à expansão comunista" (manipulação ideológica). Por isso o episcopado recebeu o golpe de 1964 como uma forma de garantir as condições de ordem e desenvolvimento capaz de eliminar essa vulnerabilidade.
🏆 Gabarito: E — a alternativa E é a única que traduz fielmente a lógica do texto-fonte: a privação material do campesinato é apresentada como a brecha que possibilita a manipulação ideológica comunista, e é para fechar essa brecha que a Igreja apoiou o golpe.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que mantém intacta a relação causal do texto (miséria → vulnerabilidade ideológica), sem inverter os termos nem inserir elementos estranhos ao trecho citado.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora a relação entre Igreja Católica, Guerra Fria e Ditadura Militar, cobrando tanto a fase inicial de apoio conservador ao golpe (anticomunismo, medo da "cubanização" do campo) quanto a virada posterior de setores progressistas — Teologia da Libertação e Comunidades Eclesiais de Base — para a oposição ao regime.
- Generalização: em questões de interpretação de texto histórico, a alternativa correta costuma ser a que "traduz" com fidelidade a relação de causa e efeito do trecho-base usando sinônimos, sem adicionar, remover ou inverter nenhum elemento da lógica original.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa que traga atores ou fatos ausentes do texto-fonte (Exército, empresariado, oligarquias) — se o enunciado não menciona esses elementos, a alternativa está inventando informação, um recurso clássico de distração do ENEM.
- Conexões: Ligas Camponesas e projetos de reforma agrária no governo João Goulart; Teologia da Libertação e Comunidades Eclesiais de Base como reação progressista dentro da própria Igreja à ditadura instaurada em 1964.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.