Mapa de questões · 1º dia
Questão 76 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia
Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa da Mina (Nagô de Nação), de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida. Dava-se ao comércio — era quitandeira, muito laboriosa e, mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreição de escravos, que não tiveram efeito.
AZEVEDO, E. “Lá vai verso!”: Luiz Gama e as primeiras trovas burlescas de Getulino. In: CHALHOUB, S.; PEREIRA, L. A. M. A história contada: capítulos de história social da literatura no Brasil.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998 (adaptado).
Nesse trecho de suas memórias, Luiz Gama ressalta a importância dos(as)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Escravidão, cultura afro-brasileira e formas de resistência negra no Brasil do século XIX
- ⚡ Nível: Médio — a resposta certa não está explícita no texto; exige conectar dois dados (recusa ao batismo e envolvimento em insurreição) a um único conceito histórico
- 🎯 Tema/Habilidade: Estratégias de resistência da população negra livre e escravizada; leitura crítica de fonte histórica (memórias)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que Luiz Gama valoriza, em suas memórias, ao descrever a mãe, Luiza Mahin?"
- Palavras-chave decisivas: pagã, recusou o batismo, insurreição de escravos
- Armadilha típica: ler "Nagô de Nação" como sinal de hierarquia entre povos africanos (alternativa C) ou tratar o texto como simples elogio de laços familiares (alternativa A), perdendo de vista que o eixo do trecho é a postura de enfrentamento de Luiza Mahin diante da ordem escravista e cristã.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar que recusar a doutrina do colonizador e participar de planos de insurreição são duas faces do mesmo fenômeno histórico — a resistência cultural e política da população negra.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Resistência cultural: manutenção deliberada de crenças, valores e práticas de origem africana como recusa à assimilação imposta pela sociedade escravista — afirmação de identidade que também é ato político.
- Catequese e batismo como projeto de dominação: a Igreja, associada ao poder colonial/imperial, usava a conversão religiosa para submeter culturalmente africanos; recusar o batismo era recusar esse projeto.
- "Nação" africana (Nagô): termo usado no Brasil escravista para identificar a origem étnico-linguística do africano (aqui, nagôs/iorubás); marca identidade e pertencimento cultural, não hierarquia entre grupos.
- Insurreições na Bahia (início do séc. XIX): revoltas articuladas por africanos livres e escravizados — como a Revolta dos Malês (1835) —, sustentadas por redes de solidariedade cultural.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã" → revela uma postura ativa e consciente de rejeição à religião imposta, e não mera indiferença religiosa.
- Evidência 2: "foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreição de escravos" → revela participação em ação política organizada contra a escravidão, associada à mesma identidade cultural preservada.
- Síntese: as duas evidências, tomadas juntas, mostram que Luiz Gama celebra na mãe exatamente a recusa em se curvar aos códigos culturais e políticos da sociedade escravista — isso é o núcleo do conceito de "estratégias de resistência cultural".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o sujeito e o contexto histórico
Luiza Mahin é apresentada como "negra, africana livre", de "Nação" Nagô, quitandeira na Bahia do início do século XIX. Luiz Gama narra a mãe com evidente orgulho: "muito altiva, geniosa, insofrida". O relato reivindica um legado, não é uma lembrança neutra.
Subpasso 4.2 — Isolar as atitudes de recusa e de ação política
Duas informações organizam o trecho: (1) ela "sempre recusou o batismo e a doutrina cristã" — resistência religiosa/cultural; (2) foi "presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreição de escravos" — resistência política. Ambas nascem da mesma raiz: preservar a identidade africana e rejeitar a submissão exigida pelo sistema escravista.
Subpasso 4.3 — Verificação
Entre as cinco alternativas, só uma reúne, sob um único conceito, a recusa religiosa e o envolvimento em insurreição: "estratégias de resistência cultural" (B). As demais trazem elementos ausentes do texto (alforria, família, hierarquia) ou invertem seu sentido (dominação religiosa apresentada como valor, quando é o que Luiza Mahin combate).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) laços de solidariedade familiar.
❌ Incorreta: o texto é uma lembrança biográfica sobre a mãe, mas não trata de vínculos de solidariedade entre familiares ou membros da comunidade; o foco está nas atitudes individuais de resistência de Luiza Mahin diante da religião e da escravidão, não em relações de afeto ou apoio mútuo entre parentes.
B) estratégias de resistência cultural.
✅ Correta: a recusa ao batismo e à doutrina cristã (preservação da identidade religiosa e étnica nagô) somada ao envolvimento em planos de insurreição evidenciam formas deliberadas de resistir à dominação cultural, religiosa e política imposta pela escravidão — exatamente o que Luiz Gama destaca com orgulho na figura da mãe.
C) mecanismos de hierarquização tribal.
❌ Incorreta: a expressão "Nagô de Nação" identifica a origem étnico-linguística de Luiza Mahin, servindo como marcador de identidade cultural preservada no Brasil — não estabelece nem sugere qualquer hierarquia entre "tribos" ou nações africanas; essa relação não aparece no texto.
D) instrumentos de dominação religiosa.
❌ Incorreta: essa alternativa inverte o sentido do trecho. O batismo e a doutrina cristã são, de fato, instrumentos de dominação usados pela sociedade escravista — mas o texto valoriza justamente a recusa de Luiza Mahin a esses instrumentos, não sua eficácia como mecanismo de controle.
E) limites da concessão de alforria.
❌ Incorreta: o trecho não discute o processo ou as condições da alforria. Luiza Mahin já é apresentada, logo na primeira linha, como "africana livre" — portanto a manumissão não é tema da passagem citada.
🏆 Gabarito: B — a memória de Luiz Gama celebra, na figura da mãe, a recusa deliberada à conversão religiosa imposta e o envolvimento em conspirações contra a escravidão, evidenciando estratégias de resistência cultural à ordem colonial/imperial.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa B articula, num único conceito histórico, a recusa religiosa e a participação política de Luiza Mahin como expressões de resistência.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa trechos de memórias, cartas e depoimentos de personagens negros históricos (como Luiz Gama) para testar a leitura crítica sobre as diferentes formas de resistência da população afrodescendente à escravidão — nem sempre armada, muitas vezes cultural e religiosa.
- Generalização: sempre que o texto mostrar alguém rejeitando imposições culturais/religiosas do dominador e, ao mesmo tempo, participando de ação coletiva contra a ordem vigente, a chave conceitual é "resistência cultural/política" — não "hierarquia" nem "dominação" exercida pelo próprio sujeito.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevem o sistema que o sujeito histórico combate (aqui, "dominação religiosa" e "hierarquização tribal" descrevem estruturas de opressão, não a atitude de resistência de Luiza Mahin) e as que trazem temas ausentes do trecho (alforria, laços familiares).
- Conexões: Revolta dos Malês (1835), abolicionismo de Luiz Gama, sincretismo religioso afro-brasileiro (candomblé), identidades de "nação" no tráfico atlântico.
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