Mapa de questões · 1º dia
Questão 35 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia
Aí pelas três da tarde
Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como e retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pelo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento.
NASSAR, R. Menina a caminho. São Paulo: Cia. das Letras. 1997.
Em textos de diferentes gêneros, algumas estratégias argumentativas referem-se a recursos linguístico-discursivos mobilizados para envolver o leitor. No texto, caracteriza-se como estratégia de envolvimento a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura e interpretação de texto / Estratégias argumentativas e recursos linguístico-discursivos
- ⚡ Nível: Difícil — o texto de Raduan Nassar tem sintaxe densa e as alternativas são construídas com trechos plausíveis, exigindo distinguir com precisão entre recursos parecidos (prescrição, contraposição, explicitação do interlocutor, descrição, comparação)
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de estratégias argumentativas de envolvimento do leitor em texto literário de gênero híbrido (crônica narrada em 2ª pessoa)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual trecho do texto usa um recurso linguístico-discursivo que aproxima e envolve diretamente o leitor na cena narrada?"
- Palavras-chave decisivas: estratégias argumentativas, envolver o leitor, recursos linguístico-discursivos
- Armadilha típica: escolher o trecho mais expressivo ou mais "bonito" estilisticamente (como a comparação da alternativa E, ou a descrição de ambiente da D) sem checar se ele de fato transforma o leitor em interlocutor presente no texto — nem todo recurso estilístico é estratégia de envolvimento.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar o trecho em que o narrador nomeia e caracteriza diretamente o "você" a quem se dirige, e não apenas um recurso descritivo, comparativo ou de comando isolado.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Estratégias de envolvimento do leitor: recursos que fazem o texto "falar diretamente" com quem lê — uso da 2ª pessoa, vocativos, perguntas retóricas ou referências explícitas ao interlocutor — criando proximidade e cumplicidade entre narrador e leitor.
- Explicitação do interlocutor: quando o autor nomeia, qualifica ou caracteriza diretamente a pessoa a quem se dirige, tornando-a presente no texto como sujeito reconhecível, e não apenas um alvo genérico de instruções.
- Discurso instrucional em 2ª pessoa: Nassar usa verbos no imperativo ("largue", "componha", "suba") dirigidos a um "você" que é, ao mesmo tempo, leitor e protagonista da cena narrada — recurso típico de crônicas de aconselhamento ou "textos-receita".
- Prescrever ≠ explicitar o interlocutor: prescrever é dizer o que fazer (comando de ação, foco no verbo); explicitar o interlocutor é caracterizar quem é esse "você", atribuindo-lhe traços (cansaço, exclusão) — isso aprofunda o envolvimento porque o leitor se reconhece na descrição, e não apenas obedece a uma ordem.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "[…] espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído […]" → o narrador interrompe o fluxo de instruções para abrir um parêntese que qualifica esse "você" com adjetivo ("milenarmente cansado") e um estado emocional hipotético ("talvez se sinta excluído"), individualizando o interlocutor dentro do próprio texto.
- Evidência 2: ao longo de todo o texto, os verbos estão no imperativo dirigido a esse "você" ("largue", "componha", "faça", "dê", "surpreenda", "suba") → isso mostra que o texto inteiro é construído em 2ª pessoa, mas só no trecho apontado pela alternativa C há uma pausa para caracterizar quem é esse interlocutor, não apenas mandá-lo agir.
- Síntese: entre todos os recursos presentes no texto (comando, ressalva, descrição, comparação), o que melhor exemplifica "estratégia de envolvimento" é aquele que nomeia e qualifica diretamente o leitor-interlocutor, fazendo-o sentir-se parte da cena — e isso ocorre exatamente no trecho parentético citado pela alternativa C.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconhecer a estrutura enunciativa do texto
O texto é uma crônica construída inteiramente em 2ª pessoa e no modo imperativo: o narrador dá instruções a um "você" indeterminado, que funciona simultaneamente como leitor e como personagem da cena. Essa escolha discursiva já cria, por si, uma aproximação com quem lê — mas a questão pede o trecho que exemplifica com mais precisão a estratégia de envolvimento, não apenas a estrutura em 2ª pessoa como um todo.
Subpasso 4.2 — Isolar a função específica de cada trecho citado nas alternativas
Passando rapidamente pelas cinco opções, cada trecho cumpre uma função textual distinta: comando de ação (A), ressalva de moderação (B), caracterização do "você" (C), descrição de ambiente (D) e comparação ilustrativa (E). Só uma dessas funções coincide com o conceito de "estratégia de envolvimento" pedido no comando — a análise detalhada de cada uma está no Passo 5.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando as cinco opções, apenas o trecho de C atende plenamente ao critério pedido: ele nomeia o interlocutor ("você"), qualifica seu estado ("milenarmente cansado") e sugere uma identificação emocional ("talvez se sinta um tanto excluído"), levando o leitor a se reconhecer na cena narrada. É esse mecanismo — e não o comando, a ressalva, a descrição ou a comparação — que mais diretamente cria proximidade e cumplicidade entre texto e leitor. Confirma-se, portanto, a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) prescrição de comportamentos, como em: "[…] largue tudo de repente sob os olhares a sua volta […]".
❌ Incorreta: o trecho é, de fato, uma prescrição — uma ordem no imperativo —, mas prescrever uma ação não equivale a envolver o leitor caracterizando-o; é apenas instrução de conduta, sem qualificar quem é esse "você".
B) apresentação de contraposição, como em: "Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto […]".
❌ Incorreta: o "mas" introduz uma ressalva de moderação dentro da própria sequência de instruções, não uma contraposição de argumentos ou pontos de vista opostos; o trecho continua sendo comando de ação, sem função de aproximação com o leitor.
C) explicitação do interlocutor, como em: "[…] (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído) […]".
✅ Correta: o narrador nomeia e caracteriza diretamente o "você" a quem se dirige, atribuindo-lhe traços (cansaço milenar, sensação de exclusão) que o inserem como sujeito reconhecível do texto — essa individualização do interlocutor é a estratégia clássica de envolvimento do leitor.
D) descrição do espaço, como em: "Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do mundo […]".
❌ Incorreta: é uma descrição de ambiente que contextualiza a cena (função referencial/descritiva), mas não se dirige nem caracteriza o leitor — é estratégia de ambientação, não de envolvimento.
E) construção de comparações, como em: "[…] libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas […]".
❌ Incorreta: trata-se de uma comparação (símile) que ilustra poeticamente a ação de despir-se — recurso estético-descritivo, mas não uma estratégia que insira o leitor como interlocutor caracterizado no texto.
🏆 Gabarito: C — a estratégia de envolvimento do leitor mais evidente no texto é a explicitação do interlocutor, pois o narrador nomeia e qualifica diretamente o "você" a quem se dirige, tornando-o presente e reconhecível na cena narrada.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C mostra o narrador caracterizando explicitamente quem é o "você" do texto — traço central do conceito de "explicitação do interlocutor" e núcleo da estratégia de envolvimento do leitor.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a identificação de recursos linguístico-discursivos (2ª pessoa, vocativo, pergunta retórica, humor, ironia) que aproximam texto e leitor, sobretudo em gêneros híbridos como crônicas, tirinhas, anúncios e textos de aconselhamento.
- Generalização: em questões sobre "estratégias argumentativas de envolvimento", procure sempre o trecho em que o texto se dirige diretamente ao leitor/interlocutor e o caracteriza ou o inclui como sujeito da cena — recursos meramente descritivos, comparativos ou prescritivos, isolados, não bastam para configurar envolvimento.
- Dica de eliminação rápida: para cada trecho citado, pergunte "isso fala SOBRE o leitor ou apenas fala PARA o leitor fazer algo?" — se for só comando (A), ressalva (B), cenário (D) ou figura de linguagem (E), elimine; se caracterizar quem é o "você", é a resposta certa.
- Conexões: compare com questões sobre funções da linguagem (função conativa/apelativa) e sobre discurso de aconselhamento em crônicas e textos de autoajuda, gêneros em que a 2ª pessoa e a caracterização do leitor são recursos recorrentes no ENEM.
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