Mapa de questões · 1º dia
Questão 63 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia
E venham, então, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Vamos! Ateiem fogo às estantes das bibliotecas! Desviem o curso dos canais, para inundar os museus! Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e deitem abaixo sem piedade as cidades veneradas!
MARINETTI, F. T. Manifesto futurista. Disponível em: www.sibila.com.br. Acesso em: 2 ago. 2012 (adaptado).
Que princípio marcante do Futurismo e comum a várias correntes artísticas e culturais das primeiras três décadas do século XX está destacado no texto?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Vanguardas artísticas europeias do início do século XX (Futurismo)
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar as imagens de um manifesto literário e associá-las a um conceito histórico abstrato de ruptura com o passado.
- 🎯 Tema/Habilidade: O Futurismo e a ideia de modernidade como ruptura radical com a tradição; habilidade de relacionar informações de um texto literário-programático ao seu contexto histórico-cultural.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual princípio do Futurismo — também presente em outras vanguardas do início do século XX — o texto de Marinetti expressa?"
- Palavras-chave decisivas: incendiários, bibliotecas/museus, cidades veneradas
- Armadilha típica: confundir a negação da tradição e da memória (o que o texto realmente defende) com a afirmação delas — três alternativas (A, B e E) reaproveitam os mesmos termos do texto (tradição, memória, cultura) mas invertem o sentido da mensagem.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entendeu que o texto propõe a destruição física dos símbolos do passado (livros, obras de arte, cidades históricas) como condição para o advento do "novo", ou seja, que a modernidade é pensada como ruptura decisiva com a história.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Futurismo: vanguarda artística lançada por Filippo Tommaso Marinetti em 1909, que exaltava a velocidade, a máquina, a energia industrial e a guerra ("única higiene do mundo", em suas palavras), pregando o rompimento total com o patrimônio artístico e cultural do passado.
- Manifesto: gênero textual programático e panfletário, escrito em tom exaltado e imperativo, que declara publicamente os princípios estéticos e ideológicos de um movimento.
- Vanguardas europeias do início do século XX: Futurismo, Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo e, depois, Surrealismo — movimentos distintos entre si, mas que compartilhavam o impulso de romper com as convenções acadêmicas e com a reverência ao passado herdada do século XIX.
- Modernidade como ruptura histórica: noção de que a nova era industrial e urbana exige o abandono ativo — e não a conservação — das referências culturais herdadas, entendidas como peso a ser superado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Ateiem fogo às estantes das bibliotecas!" → ataque direto aos repositórios do saber acumulado e da memória escrita da humanidade.
- Evidência 2: "Desviem o curso dos canais, para inundar os museus!" → destruição simbólica dos espaços que preservam e "veneram" a produção artística do passado.
- Evidência 3: "deitem abaixo sem piedade as cidades veneradas" → rejeição explícita do patrimônio urbano e histórico, justamente aquilo que a tradição trata com respeito ("veneração").
- Síntese: as três imagens convergem para um único programa retórico: destruir, física e simbolicamente, os símbolos que preservam o passado cultural, para abrir espaço à era moderna — da técnica, da velocidade, da máquina. O texto não discute economia nem celebra a memória; ele proclama que só há futuro possível na superação decisiva da história.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e o tom do texto
O trecho é um manifesto futurista, marcado pelo tom convocatório e por verbos no imperativo — "venham", "ateiem", "desviem", "empunhem", "deitem abaixo". Esse registro não é descritivo nem analítico: é uma chamada à ação revolucionária contra tudo o que representa o "velho" mundo cultural.
Subpasso 4.2 — Relacionar cada imagem à tese central
Bibliotecas, museus e cidades históricas são, cada um à sua maneira, instituições ou espaços de preservação do passado cultural. Ao propor incendiá-los, inundá-los e derrubá-los, Marinetti não está defendendo tradição, memória ou determinismo econômico — está afirmando que o ingresso na modernidade exige romper de forma definitiva com o peso da história, encarada como obstáculo ao novo.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando essa leitura com as cinco alternativas, apenas uma expressa a ideia de ruptura/superação da história em nome do moderno: a alternativa C ("A modernidade é a superação decisiva da história"). As demais ou invertem o sentido do texto (tratando tradição e memória como valores a preservar) ou introduzem um elemento ausente dele (determinismo econômico da cultura).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) A tradição é uma força incontornável.
❌ Incorreta: o texto defende exatamente o oposto — que a tradição deve ser destruída e superada, e não que seja uma força inescapável à qual seria preciso se submeter.
B) A arte é expressão da memória coletiva.
❌ Incorreta: o Futurismo rejeita a memória coletiva, simbolizada pelos museus e bibliotecas que o texto manda incendiar e inundar; não há, no trecho, qualquer valorização da arte como preservação de memória.
C) A modernidade é a superação decisiva da história.
✅ Correta: o convite para incendiar bibliotecas, inundar museus e derrubar cidades veneradas simboliza a ruptura radical com o passado histórico-cultural em nome do novo tempo industrial e técnico — núcleo do ideário futurista e traço comum a diversas vanguardas do início do século XX.
D) A realidade cultural é determinada economicamente.
❌ Incorreta: essa é uma tese de matriz marxista (materialismo histórico), estranha ao texto, que trata de estética e ruptura cultural, sem qualquer menção a estrutura ou determinação econômica.
E) A memória é um elemento crucial da identidade cultural.
❌ Incorreta: contraria diretamente o texto, que propõe apagar e destruir os marcos da memória cultural — bibliotecas, museus e cidades históricas — em vez de valorizá-los como crucial à identidade.
🏆 Gabarito: C — o manifesto de Marinetti convoca a destruição dos símbolos do passado como condição para a chegada da modernidade, expressando a tese de que ser moderno é romper de forma decisiva com a história.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C capta o sentido de ruptura radical com o passado presente nas três imagens de destruição do texto (bibliotecas, museus, cidades); nenhuma outra alternativa é compatível com o conteúdo literal do manifesto.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência trechos de manifestos e textos de vanguarda (Futurismo, Modernismo brasileiro de 1922, Semana de Arte Moderna) pedindo que o candidato identifique o princípio de ruptura com a tradição e o academicismo que os caracteriza.
- Generalização: sempre que um texto de vanguarda europeia ou modernista brasileira atacar museus, escolas acadêmicas, o passado ou a tradição, associe-o à ideia de ruptura/superação da história em nome do novo — esse é o fio condutor das vanguardas do início do século XX.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato as alternativas que "elogiam" tradição ou memória (A e E) e a que cita economia sem qualquer base no texto (D); entre B e C, note que B fala em "expressão" (conservação artística de algo já existente), enquanto C fala em "superação" — verbo que traduz exatamente o gesto de destruição descrito no manifesto.
- Conexões: compare com a Semana de Arte Moderna de 1922 no Brasil, que também pregava ruptura estética com o passado colonial/acadêmico; contraste com o Romantismo, movimento que, ao contrário, valoriza a tradição, o passado histórico e a memória nacional.
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