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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaDifícil

Questão 82ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia

O instituto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal dos inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração de glória. Merecem, decerto, a nossa estima aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecadores de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nele, o enforcado, o esquartejado, o decapitado, esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.

ASSIS, M. Gazeta de Notícias, n. 114, 24 abr. 1892.

No processo de transição para a República, a narrativa machadiana sobre a Inconfidência Mineira associa

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → construção da memória nacional na Primeira República (com interpretação de fonte literária)
  • ⚡ Nível: Difícil — exige distinguir conceitos historiográficos próximos (redenção cristã x messianismo; cultura cívica x regionalismo) a partir de uma crônica literária densa
  • 🎯 Tema/Habilidade: Fabricação de heróis e mitos fundadores no início da República; competência de leitura de fonte primária como documento histórico
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que dois elementos Machado de Assis combina ao narrar o sacrifício do alferes Tiradentes, no momento em que o Brasil recém-proclamado República buscava seus heróis fundadores?"
  • Palavras-chave decisivas: pecadores de Israel, patriotas, martírio
  • Armadilha típica: confundir a linguagem bíblica genérica (pecado, redenção, sacrifício) com "messianismo" enquanto categoria historiográfica específica de movimentos populares (como Canudos), ou tomar "patriotas" por "regionalismo"
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de reconhecer, no mesmo trecho, dois registros simultâneos — o religioso-bíblico (sacrifício que redime) e o político-nacional (mérito cívico do herói) — sem inventar elementos ausentes do texto

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Primeira República e mitos fundadores: proclamada em 1889, a nova ordem precisava romper com a monarquia e construir heróis nacionais; a Inconfidência Mineira (1789) virou antecedente da causa republicana, e Tiradentes — o único executado — tornou-se seu mártir-símbolo (oficializado como herói nacional em 1890).
  • Redenção cristã: noção bíblica de sacrifício expiatório, em que alguém "carrega os pecados" de outros e sofre em lugar deles para resgatá-los — imagem da Paixão de Cristo e do bode expiatório do Antigo Testamento que carrega os "pecados de Israel".
  • Cultura cívica: valores, símbolos e rituais (patriotismo, virtude, sacrifício pela pátria) que sustentam a identidade política de uma nação; aparece em "patriotas" e na lógica de que o mártir "ganha por todos, porque pagou por todos" — mérito que reverte em benefício da coletividade nacional.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "o que se ofereceu a carregar com os pecadores de Israel" → alusão bíblica direta ao sacrifício expiatório (bode expiatório/Cristo), que transfere para Tiradentes o papel de redentorredenção cristã
  • Evidência 2: "esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos" → a lógica do sacrifício individual se converte em ganho coletivo — o mártir "paga" para que a nação "ganhe", deslocando o sacrifício religioso para o plano político-nacional
  • Evidência 3: "Merecem, decerto, a nossa estima aqueles outros; eram patriotas" → qualificação explicitamente cívico-patriótica dos inconfidentes, reforçando que a hierarquia entre os companheiros e Tiradentes se organiza em torno do valor da pátria
  • Síntese: Machado de Assis funde, no mesmo parágrafo, o vocabulário do sacrifício religioso (pecado, martírio, redenção) com o vocabulário do civismo republicano (patriotas, prêmio, mérito nacional) para justificar por que Tiradentes foi alçado a herói máximo da Inconfidência no momento em que a jovem República buscava seus fundadores.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Contextualizar historicamente o texto

A crônica é de Machado de Assis, publicada na Gazeta de Notícias em 1892, três anos após a Proclamação da República (1889). O novo regime buscava símbolos e heróis que o legitimassem e o distinguissem da monarquia. A Inconfidência Mineira (1789) foi reapropriada como antecedente da causa republicana, e apenas o alferes Joaquim José da Silva Xavier — Tiradentes — foi de fato executado (enforcado, esquartejado), enquanto os demais receberam penas mais brandas. Essa assimetria é o ponto de partida da reflexão machadiana: por que só Tiradentes virou "o" herói, relegando os outros a "meia ração de glória"?

Subpasso 4.2 — Analisar o duplo registro do vocabulário

O texto explica essa hierarquização por meio de dois vocabulários combinados. Primeiro, o religioso: "carregar com os pecadores de Israel" remete à imagem bíblica do sacrifício expiatório — alguém que assume a culpa e a pena de todos, como Cristo ou o bode expiatório do Antigo Testamento; "chorou de alegria" ao saber que só ele seria executado reforça esse sofrimento voluntário e redentor. Segundo, o cívico-político: os companheiros "eram patriotas" e Tiradentes "ganha por todos, visto que pagou por todos" — o sacrifício deixa de ser apenas espiritual e vira capital simbólico nacional, prêmio de herói fundador da República.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando essa dupla chave — sacrifício que redime (redenção cristã) associado à consagração do herói da pátria (cultura cívica) — com as cinco alternativas, apenas uma reproduz a combinação sem acrescentar elementos sem base no texto (protestantismo, igreja, regionalismo, radicalismo militar, messianismo enquanto movimento social). Confirma-se a alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) redenção cristã e cultura cívica.

✅ Correta: o texto usa vocabulário bíblico de sacrifício expiatório ("pecadores de Israel", "martírio") — redenção cristã — associado à consagração de Tiradentes como herói nacional que "ganha por todos" — cultura cívica. É a fusão religioso-política que sustenta o mito fundador da Primeira República.

B) veneração aos santos e radicalismo militar.

❌ Incorreta: não há culto a um santo específico (canonização, hagiografia), apenas alusão bíblica genérica ao sacrifício; tampouco há "radicalismo militar" — a Inconfidência é tratada como movimento político-civil, não insurreição armada.

C) apologia aos protestantes e culto ufanista.

❌ Incorreta: "pecadores de Israel" é referência bíblica genérica, compatível com o catolicismo predominante no Brasil, sem marca de protestantismo; "culto ufanista" (exaltação vazia da pátria) também não capta a reflexão crítica de Machado, que é ponderada, não meramente laudatória.

D) tradição messiânica e tendência regionalista.

❌ Incorreta: "messianismo" como categoria historiográfica remete a movimentos populares milenaristas liderados por figuras carismáticas (Canudos, Contestado), o que não corresponde ao caso individual de Tiradentes; além disso, o texto projeta um herói de alcance nacional, sem qualquer "tendência regionalista" restrita a Minas Gerais.

E) representação eclesiástica e dogmatismo ideológico.

❌ Incorreta: não há instituição eclesiástica (igreja, clero) representada — a linguagem bíblica é metafórica; tampouco há "dogmatismo ideológico", pois o texto é uma reflexão ponderada de Machado sobre os critérios que elevaram Tiradentes acima dos demais inconfidentes.

🏆 Gabarito: A — a crônica machadiana combina explicitamente a imagética do sacrifício redentor cristão com a lógica da consagração cívico-patriótica do herói nacional, movimento típico da fabricação de mitos fundadores na Primeira República.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que reproduz os dois registros do texto — sacrifício bíblico redentor e consagração cívico-nacional — sem introduzir elementos sem base textual, como protestantismo, igreja ou regionalismo.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora como a Primeira República construiu heróis e símbolos (Tiradentes, bandeirantes, hinos, estátuas) para legitimar o novo regime, usando fontes literárias e jornalísticas da época como documento histórico.
  • Generalização: em questões que pedem "a que a narrativa associa", identifique os registros de linguagem efetivamente presentes no trecho (aqui, religioso + político) em vez de inferir categorias mais específicas e não sustentadas pelo texto.
  • Dica de eliminação rápida: elimine B, C e E de imediato, pois trazem termos sem apoio textual (santos, protestantismo, igreja, dogmatismo); entre A e D, "regionalista" não tem respaldo, já que o texto nacionaliza — não regionaliza — Tiradentes, restando A.
  • Conexões: relacione com o conceito de "invenção das tradições" (Hobsbawm) aplicado ao Brasil republicano e com a construção do panteão cívico da República (feriados, estátuas, símbolos nacionais).

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