Mapa de questões · 1º dia
Questão 9 — ENEM 2017Caderno azul · 1º Dia
TEXTO I
Terezinha de Jesus
De uma queda foi ao chão
Acudiu três cavalheiros
Todos os três de chapéu na mão
O primeiro foi seu pai
O segundo, seu irmão
O terceiro foi aquele
A quem Tereza deu a mão
ATISTA, M. F. B. M.; SANTOS, I. M. F. (Org.). Cancioneiro da Paraíba. João Pessoa: Grafset, 1993 (adaptado).
TEXTO II
Outra interpretação é feita a partir das condições sociais daquele tempo. Para a ama e para a criança para quem cantava a cantiga, a música falava do casamento como um destino natural na vida da mulher, na sociedade brasileira do século XIX, marcada pelo patriarcalismo. A música prepara a moça para o seu destino não apenas inexorável, mas desejável: o casamento, estabelecendo uma hierarquia de obediência (pai, irmão mais velho, marido), de acordo com a época e circunstâncias de sua vida.
Disponível em: http://provsjose.blogspot.com.br. Acesso em: 5 dez. 2012.
O comentário do texto II sobre o texto I evoca a mobilização da língua oral que, em determinados contextos,
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto e funções sociais da língua oral (sociolinguística)
- ⚡ Nível: Médio — a resposta não está pronta em nenhum dos dois textos isoladamente; exige cruzar a estrutura da cantiga (Texto I) com a leitura crítica proposta pelo comentário (Texto II) para inferir a função social da oralidade.
- 🎯 Tema/Habilidade: A língua oral como veículo de transmissão e legitimação de valores culturais — leitura crítica de gêneros orais populares (cantiga de roda/ninar) associada a seu papel na socialização de comportamentos.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo o comentário do Texto II, que efeito a cantiga popular (transmitida pela língua oral) produz sobre quem a ouve e a repete?"
- Palavras-chave decisivas: mobilização da língua oral, destino natural... desejável, hierarquia de obediência
- Armadilha típica: interpretar a cantiga como um gesto de resistência ou de crítica à sociedade patriarcal, quando na verdade o Texto II mostra o oposto — ela naturaliza e ensina esse mesmo padrão social às crianças que a ouvem cantada por suas amas.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que gêneros orais tradicionais (cantigas, parlendas, canções de ninar) funcionam como instrumento de socialização, reproduzindo e legitimando papéis e valores já estabelecidos — e não os contestando, nem os diversificando.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Cantiga de roda/ninar como gênero oral popular: texto cantado, transmitido de geração em geração (aqui, de ama para criança), sem depender da escrita para circular; usa rima, repetição e estrutura cumulativa ("o primeiro... o segundo... o terceiro") para ser facilmente memorizado.
- Função social da linguagem: além de comunicar um enredo, a língua — falada ou cantada — pode operar ideologicamente, fixando expectativas de comportamento em quem a repete desde a infância.
- Patriarcalismo do século XIX: sistema social em que a autoridade masculina organiza a vida da mulher em etapas sucessivas (pai → irmão mais velho → marido); a cantiga reproduz exatamente essa cadeia na imagem dos "três cavalheiros" que acodem Tereza.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "a música falava do casamento como um destino natural na vida da mulher... a música prepara a moça para o seu destino não apenas inexorável, mas desejável" → revela que o conteúdo da cantiga não é neutro: ele fixa, desde cedo, uma expectativa social como algo bom e inevitável.
- Evidência 2: "estabelecendo uma hierarquia de obediência (pai, irmão mais velho, marido)" → mostra que a própria estrutura poética do Texto I (pai, depois irmão, depois "aquele a quem Tereza deu a mão") corresponde ponto a ponto a essa hierarquia social, provando que a forma da cantiga reforça o conteúdo ideológico.
- Síntese: por ser cantada de mãe/ama para criança, repetida e memorizada na infância, a cantiga não é apenas entretenimento — ela ensina, pela repetição oral, o padrão de comportamento esperado da mulher na sociedade patriarcal. A língua oral, nesse contexto, funciona como mecanismo de reforço cultural.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e sua função pedagógica
"Terezinha de Jesus" é uma cantiga de roda/ninar de tradição oral, transmitida por amas e mães às crianças. Esse tipo de texto se conserva justamente porque é cantado repetidamente: a rima ("chão"/"mão") e a estrutura em gradação (primeiro cavalheiro, segundo, terceiro) tornam o conteúdo fácil de memorizar e de reproduzir — características típicas dos gêneros orais populares, que dependem da repetição para sobreviver no tempo.
Subpasso 4.2 — Relacionar a estrutura da cantiga com o comentário do Texto II
O Texto II não descreve a cantiga como neutra: afirma que ela "prepara a moça para o seu destino... o casamento", instaurando uma "hierarquia de obediência". Ou seja, o comentário interpreta a mobilização da língua oral (a cantiga sendo cantada geração após geração) como um instrumento que ensina e naturaliza um comportamento social específico — o de que a mulher deve seguir, em sequência, a autoridade do pai, depois do irmão, depois do marido. Não há, no comentário, qualquer indício de contestação, de pluralidade de modelos familiares ou de conteúdo religioso: o foco é exclusivamente a reprodução de um padrão comportamental já vigente.
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
Aplicando essa síntese a cada alternativa: uma opção que fale em "resistência" ou "pensamento contrário" não se sustenta, pois a cantiga faz o oposto — reforça a ordem vigente. Opções que mencionem "heterogeneidade" ou "diversidade" também não se sustentam, pois o comentário mostra justamente a fixação de um único destino esperado (não vários). Uma opção sobre religião não encontra respaldo no texto, que trata de casamento e hierarquia familiar, não de fé. Resta, portanto, a alternativa que descreve a oralidade como mecanismo de manutenção e repetição de comportamentos e padrões culturais — exatamente o que o Texto II descreve.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) assegura a existência de pensamentos contrários à ordem vigente.
❌ Incorreta: a cantiga faz o movimento inverso — ela reproduz e legitima a ordem vigente (o patriarcalismo), preparando a moça para aceitar seu "destino desejável". Não há, em nenhum trecho do Texto II, qualquer menção a contestação ou resistência à estrutura social descrita.
B) mantém a heterogeneidade das formas de relações sociais.
❌ Incorreta: o comentário mostra o oposto de heterogeneidade — a cantiga fixa um único modelo de relação social esperado (a hierarquia de obediência pai → irmão → marido), homogeneizando a expectativa de destino da mulher, não diversificando-a.
C) conserva a influência religiosa sobre certas culturas.
❌ Incorreta: nem o Texto I nem o comentário do Texto II tratam de religião, culto ou crença. O tema central é o casamento como destino social e a hierarquia familiar de autoridade masculina — uma questão de organização social, não religiosa.
D) preserva a diversidade cultural e comportamental.
❌ Incorreta: ocorre exatamente o contrário do que a alternativa afirma. A cantiga reduz e padroniza o comportamento esperado da mulher (casar-se, obedecer à sequência de autoridades masculinas), sem abrir espaço para trajetórias de vida diversas.
E) reforça comportamentos e padrões culturais.
✅ Correta: é precisamente o que o Texto II descreve — a cantiga "prepara a moça para o seu destino... desejável: o casamento", reproduzindo, pela repetição oral geração após geração, a hierarquia de obediência típica do patriarcalismo do século XIX. A língua oral, nesse contexto, funciona como mecanismo de ensino informal que reforça comportamentos e padrões culturais já estabelecidos na sociedade.
🏆 Gabarito: E — o comentário do Texto II evidencia que a cantiga, por meio da mobilização da língua oral (cantada e repetida de geração em geração), transmite e naturaliza um padrão cultural específico: o destino matrimonial da mulher sob hierarquia de autoridade masculina. Isso é reforçar, não contestar nem diversificar, comportamentos e padrões culturais.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que capta com precisão a função descrita no Texto II: a oralidade da cantiga popular funciona como reprodução e legitimação (reforço) de um padrão cultural vigente — o casamento como destino natural e desejável da mulher, dentro de uma hierarquia de obediência.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente associa um texto popular (cantiga, cordel, provérbio, ditado) a um texto de apoio crítico ou sociológico, pedindo que o candidato identifique a função social que a linguagem exerce naquele contexto histórico e cultural.
- Generalização: quando um texto de apoio explica "como" um texto literário ou popular atua socialmente, a alternativa correta costuma apontar para a função de reprodução, manutenção ou legitimação do status quo — a menos que o próprio texto de apoio indique explicitamente uma ruptura ou crítica a essa ordem.
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas com palavras como "diversidade", "heterogeneidade" ou "pensamentos contrários" quando o texto de apoio descreve algo apresentado como "natural" ou "desejável" — esse vocabulário quase sempre indica naturalização (reforço), não pluralidade ou contestação.
- Conexões: temas irmãos que aparecem com frequência no ENEM incluem variação linguística e norma culta versus popular, literatura de cordel e sua função social, e a relação entre oralidade, memória cultural e identidade de grupos (sociolinguística).
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