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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 84ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia

Essa ideia levou-o a estudar os costumes tupinambás... Desde dez dias que se entregara a essa árdua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram à porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio também, e o compadre e a filha, pois eram eles, ficaram estupefatos no limiar da porta.

— Mas que é isso, compadre?

— Que é isso, Policarpo?

— Mas, meu padrinho...

Ele ainda chorou um pouco. Enxugou as lágrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:

— Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das coisas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.

BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Ática, 1998.

O diálogo descrito no texto remete aos costumes do(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Pré-Modernismo brasileiro (Lima Barreto) e crítica ao nacionalismo ufanista
  • ⚡ Nível: Médio — o texto é acessível, mas a palavra "racionalidade" na alternativa correta confunde quem lê no automático.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Interpretação de texto literário + reconhecimento da matriz cultural indígena (tupinambá) como referência de identidade nacional.
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O costume de chorar ao encontrar amigos, adotado por Policarpo, tem origem em quê?"
  • Palavras-chave decisivas: "chorar quando encontramos os amigos", "faziam os tupinambás", "coisas da nossa terra".
  • Armadilha típica: achar que o comando pergunta se o comportamento é "estranho" ou "exagerado" e correr para a alternativa D (vulgar) por causa do choro escandaloso.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o gesto é uma prática deliberadamente reconstruída a partir da cultura indígena, não uma reação emocional espontânea nem religiosa.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Policarpo Quaresma: protagonista de Lima Barreto (1911), nacionalista radical e ingênuo que quer "abrasileirar" tudo — chega a propor o tupi como língua oficial e a resgatar hábitos indígenas como autêntica raiz do Brasil.
  • Tupinambá: povo indígena tupi do litoral; entre eles, o pranto ritual de saudação (chorar ao reencontrar alguém) era registrado por cronistas coloniais como cortesia. Policarpo copia esse costume como "cumprimento nacional".
  • Nacionalismo cultural / indianismo: a ideia de buscar na figura do índio a essência da nação — Policarpo leva ao extremo lógico, com resultados cômicos, essa tradição herdada do Romantismo.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "estudar os costumes tupinambás... desde dez dias que se entregara a essa árdua tarefa" → o choro não é impulso: é fruto de estudo metódico e intencional de uma cultura.
  • Evidência 2: "Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás" → o próprio personagem nomeia a fonte: o costume indígena, tomado como o cumprimento "verdadeiramente brasileiro".
  • Síntese: o gesto é uma escolha racional e programática de reviver uma prática indígena — logo, remete aos costumes/à racionalidade indígena.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a natureza do gesto

O choro de Policarpo parece descontrole ("berrar", "arrancar os cabelos"), mas ele mesmo explica "com a maior naturalidade" que é um cumprimento pensado. Não é emoção: é aplicação de um saber. Isso já elimina qualquer leitura de descontrole vulgar.

Subpasso 4.2 — Rastrear a origem cultural

O texto é explícito: "era assim que faziam os tupinambás". A fonte é a cultura indígena. Policarpo, coerente com seu projeto nacionalista, transforma o pranto ritual tupinambá em norma de convívio, contrapondo-o ao aperto de mão europeu ("Isto não é nosso!").

Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas

Procuramos a opção que ligue o gesto à matriz indígena. Só a letra E menciona o indígena ("racionalidade indígena"). O termo "racionalidade" casa perfeitamente com o Subpasso 4.1: para Policarpo, chorar é a atitude lógica e coerente de quem valoriza o que é da "nossa terra". Confirma-se E.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) proselitismo judaico.

❌ Incorreta: não há qualquer referência a fé judaica ou a tentativa de conversão religiosa; a fonte citada é indígena, não judaica.

B) experiência artística.

❌ Incorreta: o cumprimento é uma prática social/cultural cotidiana, não uma manifestação estética ou obra de arte.

C) religiosidade católica.

❌ Incorreta: o gesto é justamente o oposto da matriz europeia/cristã — Policarpo rejeita o "nosso" costume importado ("Isto não é nosso!") em favor da raiz indígena.

D) comportamento vulgar.

❌ Incorreta: o choro é escandaloso na aparência, mas o texto o apresenta como gesto refletido e explicado com naturalidade; classificá-lo como "vulgar" ignora a intenção nacionalista do personagem.

E) racionalidade indígena.

✅ Correta: o costume é declaradamente tupinambá ("era assim que faziam os tupinambás") e adotado de forma deliberada e coerente por Policarpo — a lógica cultural indígena que ele quer restaurar como identidade nacional.

🏆 Gabarito: E — o choro de saudação vem dos tupinambás e é aplicado por Policarpo como um cumprimento racional e autenticamente "da nossa terra".

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a letra E aponta para o indígena, única origem nomeada no texto ("tupinambás") — e o gesto é apresentado como escolha lógica, não como surto emocional.
  • Padrão de cobrança: o ENEM adora usar Lima Barreto para discutir identidade nacional e a crítica ao nacionalismo ingênuo; costuma pedir que você reconheça a fonte cultural de um hábito descrito.
  • Generalização: quando um texto atribui explicitamente uma prática a um povo ("era assim que faziam os X"), a resposta quase sempre é a alternativa que cita esse povo/cultura — leia a fonte antes de julgar o tom.
  • Dica de eliminação rápida: corte tudo que não dialoga com "tupinambás" — A (judaico), B (arte) e C (católico) somem de imediato; entre D e E, o texto diz que o gesto é explicado "com a maior naturalidade", derrubando "vulgar".
  • Conexões: indianismo romântico (Gonçalves Dias, José de Alencar) e a sátira pré-modernista de Lima Barreto ao ufanismo republicano.

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