Mapa de questões · 1º dia
Questão 19 — ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia
Longamente lhe expus a minha fraqueza mental, a impossibilidade de compreender as palavras difíceis, sobretudo na ordem terrível em que se juntavam. Se eu fosse como os outros, bem; mas era bruto em demasia, todos me achavam bruto em demasia.
Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos que liam no céu, percebiam tudo quanto há no céu. […] Ora, se eles enxergavam coisas tão distantes, por que não conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos meus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia reuni-las e formar palavras?
Matutei na lembrança de Emília. Eu, os astrônomos, que doidice! Ler as coisas do céu, quem havia de supor?
E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas já percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam, vagarosamente, me penetravam a inteligência espessa. Vagarosamente.
Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes.
RAMOS, G. Infância. Rio de Janeiro: Record, 2005.
As reflexões do narrador-personagem, no desfecho da narrativa, implicam a compreensão da
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Modernismo brasileiro (2ª fase) e memorialismo de Graciliano Ramos; interpretação do desfecho narrativo
- ⚡ Nível: Médio — exige inferir o sentido simbólico do desfecho, não apenas localizar informação explícita.
- 🎯 Tema/Habilidade: Função da literatura na formação do sujeito + habilidade de reconhecer efeitos de sentido em textos literários.
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que compreensão as reflexões do narrador revelam no fim da narrativa?"
- Palavras-chave decisivas: reflexões do narrador-personagem, desfecho, implicam a compreensão da
- Armadilha típica: confundir os elementos que aparecem dentro do livro (lobos, tempestade, floresta) com experiências reais do menino, ou tomar o contraste com os astrônomos como o tema central.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o ato de ler transforma a maneira como o menino enxerga o mundo e os outros seres humanos.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Memorialismo de Graciliano Ramos: em Infância (1945), o autor reconstrói lembranças da própria formação; a alfabetização e a leitura aparecem como conquistas árduas, marcadas por autoritarismo e por um menino que se julga "bruto".
- Narrador-personagem: quem narra é o próprio menino adulto rememorando; o "eu" que reflete no fim já compreende o que o "eu" da infância apenas viveu.
- Função formadora da literatura: ler não é só decodificar letras — é ganhar acesso a experiências humanas que não se vive diretamente, ampliando a sensibilidade e a visão de mundo (epifania típica do romance/relato de formação).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Reli as folhas já percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam, vagarosamente, me penetravam a inteligência espessa." → a leitura, mesmo lenta e difícil, começa a entrar nele e a modificá-lo por dentro.
- Evidência 2: "Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes." → ele renuncia ao "céu" dos astrônomos e descobre seu próprio poder: a literatura o faz sentir e reconhecer o sofrimento humano.
- Síntese: o contraste astrônomos × menino existe só para preparar a virada final — o menino não lerá as estrelas, mas, ao ler livros, passa a "ler" os seres humanos. É uma nova forma de enxergar o mundo, conquistada pela leitura.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o ponto de partida
No início, o menino se declara incapaz: "fraqueza mental", "bruto em demasia". Emília o encoraja comparando-o aos astrônomos: se eles "liam no céu" coisas distantes, por que ele não leria a página diante dos olhos? A leitura é posta, desde já, como um tipo de decifração do mundo.
Subpasso 4.2 — Identificar a virada (o desfecho)
O menino toma coragem, esconde-se no quintal e relê. O verbo-chave é "penetravam": as personagens "me penetravam a inteligência espessa". A leitura deixa de ser obstáculo e passa a agir sobre ele. No fecho, ele conclui que, embora não vá desvendar "os segredos do céu", será capaz de "sensibilizar-me-ia com histórias tristes" de gente perseguida e abandonada. Ou seja: a literatura abre-lhe acesso à experiência humana e altera sua percepção do mundo.
Subpasso 4.3 — Verificação
A compreensão do desfecho é: o livro transforma o modo como o menino vê e sente o mundo → "mudança de visão de mundo promovida pela literatura". Isso corresponde exatamente à alternativa D. As demais ou tomam elementos secundários (medo, natureza, astros) como centro, ou deslocam o foco para o sistema educacional.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) dificuldade de enfrentar os próprios medos.
❌ Incorreta: o medo/insegurança ("bruto em demasia") é o ponto de partida superado, não o objeto da compreensão final. O desfecho enfatiza a descoberta, não a luta contra o medo.
B) complexidade do processo educacional na infância.
❌ Incorreta: o texto trata da experiência íntima e pessoal da leitura, não do funcionamento ou das dificuldades do sistema/processo de ensino. Generaliza indevidamente uma vivência individual.
C) importância da interação com elementos da natureza.
❌ Incorreta: lobos, floresta e tempestade não são natureza real vivida pelo menino — são conteúdos do livro que ele lê. Confundi-los com natureza concreta é cair na armadilha do Passo 1.
D) mudança de visão de mundo promovida pela literatura.
✅ Correta: o narrador percebe que a leitura o penetra, amplia sua inteligência e o torna capaz de sensibilizar-se com o sofrimento humano — exatamente uma nova visão de mundo aberta pela literatura.
E) necessidade de estudos para a observação dos astros.
❌ Incorreta: o menino explicitamente recusa esse caminho ("não desvendaria os segredos do céu"); os astrônomos funcionam apenas como analogia/estímulo, não como aprendizado buscado.
🏆 Gabarito: D — o desfecho mostra que a literatura transforma a percepção do menino, tornando-o sensível a realidades humanas que ele não viveria diretamente.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só D capta a virada real — o "céu" dos astrônomos é abandonado e substituído pelo poder da leitura de revelar o mundo humano; muda-se a visão de mundo pela literatura.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora textos memorialísticos/relatos de formação em que um objeto cultural (livro, música, filme) provoca uma epifania; a resposta certa costuma nomear esse valor formador.
- Generalização: quando o desfecho descreve um "antes brutal" e um "depois sensível" após contato com arte/leitura, procure a alternativa que fala em transformação, ampliação ou nova percepção.
- Dica de eliminação rápida: corte alternativas que se apeguem a elementos literais do cenário (medo, natureza, astros) — elas costumam ser iscas; prefira a que traduz o sentido global do desfecho.
- Conexões: Graciliano Ramos e o Modernismo de 30; leitura como descoberta; romance/relato de formação (Bildungsroman).
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