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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 22ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia

O velho da roça perguntou: — Quanto é a batata, moço? — É dez. — Lá embaixo tem de oito, falou querendo mais parecer cidadão. — Por que não comprou lá embaixo, então? O velho acomodou aquilo como pôde na capanga vazia e engoliu em seco, de repente mais fino, mais murcho, a cabeça dele parecendo a cabecinha de um boneco com um chapéu. Deu um passo atrás, ainda olhando pro dono, e saiu como um cachorro. Glória largou suas compras no balcão, enojada de suas batatas, de seu pacote de manteiga, do seu miserável poder de comprar coisas a Cr$ 10,00 o quilo e ser tratada como primeira-ministra pelo boçal avarento.

PRADO, A. Cacos para um vitral. São Paulo: Siciliano, 1991.

Nessa passagem, a situação de tensão entre os personagens revela a

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → interpretação de conto contemporâneo e crítica social
  • ⚡ Nível: Médio — exige ler nas entrelinhas o que a cena cotidiana denuncia sobre a sociedade.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Relação entre linguagem literária e crítica social (identificar a visão de mundo que o texto constrói).
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que a tensão entre o velho da roça e o dono da venda revela sobre a sociedade retratada?"
  • Palavras-chave decisivas: situação de tensão, revela, entre os personagens.
  • Armadilha típica: confundir o sentimento de um personagem isolado (a vergonha do velho, a náusea de Glória) com o que o conjunto da cena denuncia estruturalmente.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o conflito escancara um problema coletivo — o tratamento desigual conforme a classe social do cliente.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Contradição social: oposição concreta entre grupos numa mesma sociedade; aqui, mesma mercadoria e mesmo preço, mas tratamentos radicalmente opostos conforme quem compra.
  • Crítica social na literatura: o texto literário não descreve neutramente — ele expõe e julga uma injustiça por meio de personagens e situações concretas.
  • Foco narrativo e ironia: a narradora adota o olhar indignado de Glória ("boçal avarento", "primeira-ministra") para que o leitor sinta o absurdo da desigualdade.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "— Por que não comprou lá embaixo, então?" → o comerciante humilha o velho pobre por pechinchar centavos, rebaixando-o.
  • Evidência 2: "ser tratada como primeira-ministra pelo boçal avarento" → o mesmo vendedor trata Glória, de aparência mais abastada, com reverência exagerada.
  • Síntese: dois clientes, a mesma venda, tratamentos opostos. A diferença não está na mercadoria, mas na classe social aparente de cada um — é isso que a tensão revela.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar os polos do conflito

De um lado, o "velho da roça", pobre, de "capanga vazia", que ousa comparar preços ("Lá embaixo tem de oito") tentando "mais parecer cidadão". De outro, o dono da venda, que responde com deboço e o expulsa moralmente. O velho sai encolhido, "como um cachorro". A humilhação é de classe: o pobre é punido por querer economizar.

Subpasso 4.2 — Contrastar com o tratamento a Glória

A mesma personagem-vendedor trata Glória "como primeira-ministra". Ela, porém, sente-se enojada justamente por perceber que seu "miserável poder de comprar coisas a Cr$ 10,00 o quilo" lhe garante mesuras que foram negadas ao velho. O contraste é o coração do texto: o valor da pessoa, aos olhos do comerciante, é medido pelo seu poder de compra.

Subpasso 4.3 — Verificação

A cena, portanto, não fala de um capricho individual, mas de uma lógica social: quem tem menos é maltratado; quem aparenta ter mais é bajulado. Isso é, por definição, uma contradição social decorrente de diferenças de classe → aponta diretamente para a alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) contradição social decorrente de diferenças de classe.

✅ Correta: a tensão nasce exatamente do tratamento oposto dado a pobre e a abastada pela mesma compra — desigualdade de classe convertida em humilhação e reverência.

B) dificuldade inerente às condições de vida do trabalhador.

❌ Incorreta: o texto não tematiza as agruras do trabalho ou da sobrevivência do velho; foca no tratamento desigual no ato da compra. A "dificuldade" seria um pano de fundo, não o que a tensão revela.

C) indiferença do idoso em relação ao constrangimento vivido.

❌ Incorreta: o velho não é indiferente — ele "engoliu em seco", ficou "mais murcho" e saiu "como um cachorro". Ele sente e sofre profundamente o constrangimento, o oposto de indiferença.

D) determinação pessoal no enfrentamento de conflitos sociais.

❌ Incorreta: não há enfrentamento nem determinação; o velho recua, dá "um passo atrás" e se retira derrotado. A cena mostra submissão diante da humilhação, não resistência.

E) priorização no atendimento da clientela em razão de seu gênero.

❌ Incorreta: o critério que distingue os clientes é a classe social (poder de compra), não o gênero. Glória é bem tratada por parecer abastada, não por ser mulher.

🏆 Gabarito: A — a mesma mercadoria pelo mesmo preço gera tratamentos opostos conforme a classe do cliente: eis a contradição social decorrente de diferenças de classe.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa A capta o núcleo da cena — a desigualdade de classe transformada em humilhação do pobre e bajulação do abastado.
  • Padrão de cobrança: o ENEM adora cenas cotidianas (uma venda, uma fila, um balcão) que, sob a superfície banal, denunciam desigualdades estruturais brasileiras.
  • Generalização: em questões de crítica social, pergunte-se "o que essa cena diz sobre a sociedade, não sobre o indivíduo?" — a resposta certa quase sempre aponta o problema coletivo.
  • Dica de eliminação rápida: corte C e D de imediato (o velho sofre e recua, não é indiferente nem enfrenta) e E (o critério é bolso, não gênero); resta A contra B, e B erra o foco (condições de vida ≠ tratamento desigual).
  • Conexões: Adélia Prado e o conto contemporâneo; realismo e denúncia social na literatura brasileira; relação entre linguagem e poder.

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