Mapa de questões · 1º dia
Questão 46 — ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia
TEXTO I
Ave Maria das quebradeiras
Ave Maria palmeira que sofre desgraça
Malditos derruba, queima, devasta
Bendito é teu fruto que serve de alimento
E no leito da terra ainda dá o sustento
Santa mãe brasileira, mãe de leite verdadeiro
Em sua hora derradeira, rogai por todas nós quebradeiras.
LIMA, M. S. apud GIRALDIN, O. O universo cultural do babaçu no Bico do Papagaio. In: SANTOS, A. M.; MUNIZ, C. P. L. Babaçu: universo cultural da palmeira. Palmas: Iphan, 2016 (adaptado).
TEXTO II
A líder do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu, Maria do Socorro Lima, compôs a Ave Maria das quebradeiras com base em um episódio que ela vivenciou: certa feita, estava em sua casa quando um vaqueiro chegou em uma moto e lhe pediu que o acompanhasse, pois queria lhe mostrar uma coisa que ele havia encontrado. Após percorrer uma grande distância, parou no meio do babaçual, onde mostrou a ela uma palmeira que havia sido derrubada com uma motosserra. A palmeira estava totalmente seccionada e estendida no solo, mas ainda nessa posição ela conservou energia e teria levantado a "cabeça", permitindo que o cacho desabrochasse.
SANTOS, A. M.; MUNIZ, C. P. L. Babaçu: universo cultural da palmeira. Palmas: Iphan, 2016 (adaptado).
A cosmovisão ecológica presente nos textos simboliza a preocupação pela
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia/Geografia → Populações tradicionais, cosmovisão e conflitos territoriais no extrativismo
- ⚡ Nível: Médio — a resposta exige ler além do literal e captar o vínculo entre natureza sagrada e identidade coletiva.
- 🎯 Tema/Habilidade: Cosmovisão ecológica de comunidades tradicionais (quebradeiras de coco babaçu) e a defesa de seu modo de vida; competência de interpretar produções culturais como expressão de grupos sociais.
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A visão de mundo ecológica dos dois textos revela preocupação com o quê?"
- Palavras-chave decisivas: cosmovisão ecológica, simboliza, preocupação
- Armadilha típica: confundir a ameaça retratada (a motosserra, a devastação, a pecuária/agropecuária que avança) com o objeto que se quer proteger. A questão pergunta o que se deseja PRESERVAR, não o que ameaça.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o babaçu, para as quebradeiras, é ao mesmo tempo sustento material e símbolo sagrado de identidade — logo, defendê-lo é defender sua cultura.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Quebradeiras de coco babaçu: comunidade tradicional das matas de transição entre Amazônia e Cerrado (região do Bico do Papagaio — MA, TO, PA), que vive da coleta e quebra do coco babaçu, atividade extrativista de base familiar e coletiva.
- Cosmovisão ecológica tradicional: modo de enxergar o mundo em que natureza, território, trabalho, religiosidade e identidade formam um só tecido — a palmeira não é apenas recurso, é "mãe" que dá alimento e sustento.
- Cultura nativa (tradicional): conjunto de saberes, práticas, oralidade, religiosidade e relação com o território que define um povo. Órgãos como o Iphan reconhecem o "universo cultural do babaçu" como patrimônio.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Santa mãe brasileira, mãe de leite verdadeiro / [...] rogai por todas nós quebradeiras" → a palmeira é sacralizada como mãe protetora; a identidade do grupo ("nós quebradeiras") está fundida à sobrevivência da planta.
- Evidência 2: "uma palmeira que havia sido derrubada com uma motosserra [...] ainda [...] conservou energia e teria levantado a 'cabeça', permitindo que o cacho desabrochasse" → mesmo violada pela devastação, a palmeira resiste e frutifica — metáfora da resistência do próprio povo e de sua cultura frente à destruição.
- Síntese: o texto transforma um episódio de devastação ambiental em oração e símbolo. Proteger o babaçu, aqui, é indissociável de proteger o modo de vida, a fé e a identidade das quebradeiras — ou seja, a cultura nativa.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a "cosmovisão ecológica"
A oração (paródia da Ave-Maria) trata a palmeira como ser sagrado e materno. Isso mostra que, para o grupo, a relação com a natureza não é utilitária, mas espiritual e identitária. A ecologia dessas comunidades é inseparável de sua cultura.
Subpasso 4.2 — Ligar natureza ameaçada à identidade do grupo
A motosserra que derruba o babaçual não destrói só uma planta: ataca a base econômica (sustento), religiosa (a "mãe") e simbólica de um povo inteiro. Por isso a composição é um lamento e um pedido de proteção — a defesa da palmeira é a defesa de quem se reconhece nela.
Subpasso 4.3 — Verificação
O que os textos pedem preservar? Não uma indústria, nem um rio, nem a agricultura mecanizada, nem a pecuária. Pedem preservar o vínculo sagrado do povo com o babaçu — isto é, sua cultura nativa. Confronto direto com as alternativas confirma que só D expressa o objeto da preocupação.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) proteção das indústrias locais.
❌ Incorreta: o babaçu aqui é economia extrativista, tradicional e comunitária, não produção industrial. A cosmovisão é o oposto da lógica industrial que, via mecanização, ameaça a palmeira.
B) contaminação das vias fluviais.
❌ Incorreta: nenhum texto menciona rios ou poluição hídrica. A ameaça descrita é o desmatamento por motosserra, não a contaminação de águas.
C) extinção da agricultura familiar.
❌ Incorreta: as quebradeiras praticam extrativismo (coleta do fruto), não cultivo agrícola. Embora seja de base familiar, o cerne da preocupação é a relação cultural-simbólica com a palmeira, não o desaparecimento da lavoura familiar.
D) preservação da cultura nativa.
✅ Correta: o babaçu é sacralizado como "mãe" e sustento; sua defesa expressa a proteção da identidade, da fé e do modo de vida tradicional das quebradeiras — exatamente a cultura nativa ligada à palmeira.
E) manutenção da pecuária extensiva.
❌ Incorreta: a pecuária/agropecuária que avança sobre os babaçuais é justamente a força que derruba as palmeiras. É ameaça a ser combatida, jamais objeto de preservação.
🏆 Gabarito: D — a cosmovisão ecológica dos textos funde natureza e identidade: preservar o babaçu é preservar a cultura nativa das quebradeiras de coco.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só D nomeia o que os textos querem proteger — a cultura tradicional simbolizada na palmeira sagrada; as demais ou são ameaças ou temas ausentes.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora textos de comunidades tradicionais (quebradeiras, ribeirinhos, quilombolas, indígenas) para cobrar a ideia de que território + natureza + cultura são inseparáveis.
- Generalização: quando um povo tradicional sacraliza um elemento natural, defender esse elemento é defender a própria identidade cultural do grupo.
- Dica de eliminação rápida: corte tudo que for a ameaça (motosserra, pecuária, indústria mecanizada) e tudo que o texto não cita (rios/contaminação). Sobra a defesa da cultura.
- Conexões: patrimônio imaterial e Iphan; conflitos socioambientais e fronteira agrícola na Amazônia; extrativismo sustentável.
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