Mapa de questões · 1º dia
Questão 39 — ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia
TEXTO I
Pensar a Escrevivência como um fenômeno diaspórico e universal primeiramente me incita a voltar a uma imagem que está no núcleo do termo. A imagem fundante do termo é a figura da Mãe Preta, aquela que vivia a sua condição de escravizada dentro da casa-grande. Essa mulher tinha como trabalho escravo a função forçada de cuidar da prole da família colonizadora. Escrevivência, em sua concepção inicial, se realiza como um ato de escrita das mulheres negras, como uma ação que pretende borrar, desfazer uma imagem do passado, em que o corpo-voz de mulheres negras escravizadas tinha sua potência de emissão também sob o controle dos escravocratas, homens, mulheres e até crianças. E, se ontem nem a voz pertencia às mulheres escravizadas, hoje a letra, a escrita nos pertencem também.
EVARISTO, C. A Escrevivência e seus subtextos. In: DUARTE, C. L.; NUNES, I. R. (Org.). Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina, 2020 (adaptado).
TEXTO II
Um corpo no mundo
Atravessei o mar, um sol
Da América do Sul me guia
Trago uma mala de mão
Dentro uma oração, um adeus
Eu sou um corpo, um ser, um corpo só
Tem cor, tem corte
E a história do meu lugar, ô
Eu sou a minha própria embarcação
Sou minha própria sorte
LUEDJI LUNA. Disponível em: https://open.spotify.com. Acesso em: 7 out. 2025 (fragmento).
Os textos I e II apresentam como característica comum a referência a(à)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português/Literatura → interpretação de textos comparados (Conceição Evaristo e Luedji Luna; escrevivência e identidade diaspórica)
- ⚡ Nível: Médio — exige captar o eixo comum entre um texto teórico e uma letra de canção, sem se prender às diferenças de superfície.
- 🎯 Tema/Habilidade: Comparação de textos e reconhecimento de tema comum (H em Linguagens: relacionar textos que dialogam sobre identidade, corpo e memória).
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a característica que os Textos I e II compartilham?"
- Palavras-chave decisivas: característica comum, Textos I e II, referência a
- Armadilha típica: escolher algo que aparece com força em apenas um dos textos (ex.: a figura da mãe no Texto I ou a travessia solitária no Texto II) e tratá-lo como se fosse comum aos dois.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato isolou o núcleo presente simultaneamente nos dois textos, e não um traço isolado de um deles.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Escrevivência (Conceição Evaristo): escrita das mulheres negras a partir de sua experiência histórica; recupera o corpo-voz antes silenciado e o transforma em letra própria — logo, um ato de afirmação de quem se é.
- Identidade diaspórica: pertencimento construído a partir de marcas como corpo, cor, origem, história e memória de travessias (o deslocamento africano/atlântico). São os "elementos identitários": aquilo que define e situa o sujeito no mundo.
- Leitura comparada: buscar o denominador comum significa achar o conceito que ambos afirmam, mesmo que com linguagens diferentes (ensaio x canção).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (Texto I): "hoje a letra, a escrita nos pertencem também" → a escrita é reivindicada como marca de pertencimento e afirmação de identidade coletiva das mulheres negras.
- Evidência 2 (Texto II): "Eu sou um corpo... Tem cor, tem corte / E a história do meu lugar" → o eu lírico se define por corpo, cor e história — exatamente os marcadores identitários.
- Síntese: os dois textos convergem ao definir o sujeito por seu corpo, sua cor, sua história e sua origem. Esse é o eixo comum — os elementos identitários.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Extrair o núcleo do Texto I
Evaristo parte da Mãe Preta e do corpo-voz controlado pelos escravocratas para chegar à escrita como reconquista. O movimento é: de um corpo silenciado a uma letra que "nos pertence". O que está em jogo é quem essas mulheres são e o direito de dizer isso por si mesmas — pertencimento, raça, memória histórica: identidade.
Subpasso 4.2 — Extrair o núcleo do Texto II
Na canção de Luedji Luna, o eu lírico atravessa o mar guiado pelo "sol da América do Sul" e se declara "um corpo" que "tem cor, tem corte" e carrega "a história do meu lugar". Ele é "a minha própria embarcação". Aqui também o sujeito se autodefine por corpo, cor, origem e história — a mesma matéria identitária, agora em chave diaspórica (a travessia).
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando os dois núcleos, o elemento presente nos dois é a construção da identidade a partir de corpo, cor, história e origem. Isso corresponde diretamente a "elementos identitários" (alternativa B). As demais opções descrevem traços que só existem em um dos textos ou não são centrais em nenhum.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) sensação de solidão
❌ Incorreta: a travessia "sozinha" do Texto II poderia sugerir isso, mas o eu lírico afirma força e autonomia ("sou minha própria sorte"), não desamparo; e o Texto I fala em pertencimento coletivo, o oposto de solidão.
B) elementos identitários
✅ Correta: ambos definem o sujeito por corpo, cor, história e origem — o Texto I pela reconquista da voz/escrita das mulheres negras, o Texto II pela autodefinição diaspórica do corpo que atravessa o mar.
C) representação materna
❌ Incorreta: a figura da Mãe Preta é central apenas no Texto I; no Texto II não há representação materna — logo, não é característica comum.
D) experiências individuais
❌ Incorreta: embora ambos partam de um "eu", o sentido dos textos aponta para o coletivo (as mulheres negras, a diáspora). Reduzir a experiências individuais ignora justamente o pertencimento coletivo que estrutura os dois.
E) temática da religiosidade
❌ Incorreta: a "oração" no Texto II é um detalhe da bagagem, não tema; e o Texto I não trata de religiosidade. Não há eixo religioso comum.
🏆 Gabarito: B — os dois textos se encontram na afirmação da identidade construída por corpo, cor, história e origem, ou seja, em elementos identitários.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única opção que descreve algo simultaneamente central no Texto I (escrita como afirmação de quem se é) e no Texto II (corpo com cor, corte e história).
- Padrão de cobrança: o ENEM adora pedir o "tema comum" entre dois textos de gêneros distintos (ensaio + canção); a resposta certa quase nunca é um detalhe vistoso de um só texto.
- Generalização: ao comparar textos, pergunte "o que os DOIS afirmam?" e descarte tudo que aparece em apenas um deles.
- Dica de eliminação rápida: corte C (mãe só no I) e E (religião em nenhum) de imediato; entre A, B e D, note que A e D vão contra o pertencimento coletivo que os dois textos celebram.
- Conexões: escrevivência e literatura afro-brasileira; identidade e diáspora; corpo e memória na música popular brasileira.
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