Mapa de questões · 1º dia
Questão 82 — ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia
Sem negar que Deus prevê todos os acontecimentos futuros, entretanto nós queremos livremente aquilo que queremos. Porque, se o objeto da presciência divina é a nossa vontade, é essa mesma vontade assim prevista que se realizará. Haverá, pois, um ato de vontade livre, já que Deus vê esse ato livre com antecedência.
AGOSTINHO. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995 (adaptado).
Refletindo sobre o Deus onisciente e suas criaturas, o autor sustenta a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Patrística / Santo Agostinho (presciência divina e livre-arbítrio)
- ⚡ Nível: Médio — o texto é curto, mas exige distinguir "prever" de "determinar" e decodificar vocabulário filosófico nas alternativas.
- 🎯 Tema/Habilidade: Compatibilidade entre onisciência divina e liberdade humana; competência de compreender e relacionar o pensamento filosófico à experiência humana.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que Agostinho defende sobre a relação entre um Deus que tudo sabe e a vontade livre da criatura?"
- Palavras-chave decisivas: presciência divina, vontade livre, antecedência
- Armadilha típica: achar que, se Deus "já sabe" o que vou fazer, então minha escolha estaria determinada e a liberdade seria uma ilusão — Agostinho refuta exatamente isso.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o conhecimento (cognição) de Deus vem antes do ato humano, mas não o causa nem o anula — precede sem determinar.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Presciência divina: capacidade de Deus de conhecer antecipadamente todos os acontecimentos, inclusive as escolhas futuras das criaturas. É um saber, não uma imposição.
- Livre-arbítrio: poder que a vontade humana tem de escolher por si mesma. Para Agostinho, é justamente essa liberdade que Deus prevê — logo, prevê-la não a destrói.
- Cognição transcendental (nas alternativas): o "conhecer" que pertence ao plano divino/transcendente (que ultrapassa o mundo), em oposição ao agir concreto do ser humano no tempo.
- Precedência (não causalidade): Deus vê o ato "com antecedência"; a precedência é de conhecimento, não de causa. Prever a chuva não faz chover.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Sem negar que Deus prevê todos os acontecimentos futuros... nós queremos livremente aquilo que queremos" → Agostinho afirma as duas coisas ao mesmo tempo: onisciência E liberdade, sem contradição.
- Evidência 2: "se o objeto da presciência divina é a nossa vontade, é essa mesma vontade assim prevista que se realizará" → o que Deus conhece de antemão é uma vontade livre; portanto o que se realiza continua sendo um ato livre.
- Síntese: o conhecimento de Deus antecede o agir humano ("Deus vê esse ato livre com antecedência"), mas o antecede como cognição, não como causa. Há precedência do saber divino sobre a ação da criatura, preservando a liberdade — exatamente o que uma alternativa deve traduzir.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar a tese central
Agostinho não escolhe entre "Deus sabe tudo" e "o homem é livre": ele afirma a coexistência das duas. A onisciência divina inclui, como objeto, a vontade livre humana. Conhecer antecipadamente uma escolha livre não a converte em escolha necessária.
Subpasso 4.2 — Traduzir para o vocabulário das alternativas
"Deus vê o ato livre com antecedência" = um conhecimento (cognição) do plano transcendente (divino) que vem antes (precede) do ato humano no tempo. Isso é, literalmente, a precedência da cognição transcendental sobre o agir humano. O detalhe fino: precedência de conhecimento não é anulação da liberdade — é o que a alternativa correta respeita ao dizer "precedência" (e não "determinação" ou "supressão").
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando contra o texto: o conhecimento divino é anterior ("com antecedência") ✔; incide sobre o agir humano (a vontade que "se realizará") ✔; e não elimina a liberdade ("queremos livremente") ✔. A opção que captura anterioridade do conhecer sobre o agir, sem negar a liberdade, é a letra C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) existência do saber divino em cooperação com o conhecimento humano.
❌ Incorreta: o texto não fala em "cooperação" nem coloca saber divino e conhecimento humano no mesmo nível trabalhando juntos. A relação é de anterioridade (Deus prevê antes), não de parceria cognitiva entre os dois.
B) prevalência da liberdade humana diante da facticidade.
❌ Incorreta: Agostinho não estabelece que a liberdade "prevaleça" sobre nada; ele afirma compatibilidade entre liberdade e presciência. Além disso, "facticidade" (conceito existencialista, do estar-lançado no mundo) é estranho ao problema teológico posto no trecho.
C) precedência da cognição transcendental sobre o agir humano.
✅ Correta: traduz com exatidão "Deus vê esse ato livre com antecedência". A cognição divina (transcendental) precede o agir humano — precede-o conhecendo, sem determiná-lo, o que preserva o livre-arbítrio afirmado no início.
D) conformação da natureza humana perante os acontecimentos no mundo.
❌ Incorreta: "conformação" sugere resignação/adaptação passiva do homem aos fatos. O texto sustenta o oposto — a vontade age livremente; não há conformismo diante dos acontecimentos.
E) autonomia do indivíduo a despeito das necessidades inerentes à condição humana.
❌ Incorreta: exagera a liberdade a ponto de opô-la ("a despeito de") a Deus. Agostinho não defende autonomia contra a presciência divina; ao contrário, mostra que liberdade e conhecimento divino convivem harmonicamente.
🏆 Gabarito: C — o trecho afirma que o conhecimento antecipado de Deus (cognição transcendental) vem antes do ato humano, precedendo-o sem suprimir a liberdade da vontade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só C respeita as duas teses simultâneas do texto — Deus conhece antes (precedência da cognição transcendental) e o homem age livremente (o agir não é anulado). As demais ou inventam "cooperação", ou trocam por conformismo, ou opõem homem e Deus.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora o problema clássico "onisciência × liberdade" e cobra a distinção entre prever (conhecer) e determinar (causar). Prever não obriga.
- Generalização: em questões de filosofia com vocabulário difícil nas alternativas, traduza o termo técnico para o que o texto literalmente diz; "precedência da cognição" = "conhecer antes".
- Dica de eliminação rápida: corte toda alternativa que oponha o homem a Deus (E) ou que sugira passividade/conformismo (D); elimine termos importados de outras correntes que não estão no texto ("facticidade", B).
- Conexões: De libero arbitrio (O livre-arbítrio) de Agostinho; patrística e cristianismo; o problema do mal e da liberdade; debate posterior sobre predestinação.
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