Mapa de questões · 1º dia
Questão 18 — ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia
O cara que corta cabelo, inclusive, pode nos jogar os búzios, caso desejemos; pode, também, colocar a cerâmica da nossa casa, caso precisemos; e pode, ainda, pegar um cavaquinho e um microfone para nos mostrar o samba de verdade, caso o desconheçamos. É que ele sabe fazer várias coisas da vida, e está sempre a aprender coisas novas, não por boniteza, mas por precisão, como diria Guimarães Rosa. Ele está em construção, assim como eu, que tento concluir o ensino médio aos trinta e dois anos, também estou em construção. Na verdade, todos por aqui estão em construção. Não só todos, como tudo. Por todo lado o que vemos, o que mais se vê são casas de alvenaria erguidas até a metade. Mesmo paredes completas esperam reboco. Mesmo paredes rebocadas esperam pintura. Nada nunca está pronto. Ninguém nunca está pronto.
FALERO, J. Mas em que mundo tu vive?: crônicas. São Paulo: Todavia, 2021.
A estratégia utilizada pelo autor para desenvolver a temática desse texto é a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → interpretação de texto e estratégias de construção do sentido na crônica contemporânea
- ⚡ Nível: Médio — o texto é acessível, mas a resposta exige identificar a operação retórica que estrutura toda a crônica, não apenas o tema.
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer recursos expressivos e a organização argumentativa de um texto (competência de leitura e análise de gêneros da esfera literária/jornalística).
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é o recurso que o autor usa para desenvolver (estruturar) o assunto do texto?"
- Palavras-chave decisivas: estratégia, desenvolver, temática.
- Armadilha típica: confundir o tema (pessoas e lugares inacabados) com a estratégia (o modo de organizar o texto). A questão pergunta pelo "como", não pelo "o quê".
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato percebeu a relação de espelhamento entre dois domínios — as pessoas e o espaço físico da periferia.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Paralelismo (analogia estrutural): recurso em que dois domínios distintos são aproximados e apresentados sob a mesma lógica, de modo que um ilumine o outro. Aqui, "gente" e "casa" recebem exatamente o mesmo predicado: estar inacabado.
- Estratégia x tema: o tema é o conteúdo tratado; a estratégia é o procedimento de escrita que o desenvolve (comparar, exaltar, denunciar, exemplificar, construir paralelo etc.).
- Crônica contemporânea de periferia: gênero que parte do cotidiano concreto (o barbeiro, as obras) para chegar a uma reflexão existencial mais ampla.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Ele está em construção, assim como eu... também estou em construção. Na verdade, todos por aqui estão em construção." → domínio humano: as pessoas são apresentadas como projetos inacabados, sempre aprendendo.
- Evidência 2: "casas de alvenaria erguidas até a metade. Mesmo paredes completas esperam reboco. Mesmo paredes rebocadas esperam pintura." → domínio espacial: o próprio bairro é feito de construções não concluídas.
- Síntese: as duas últimas frases, "Nada nunca está pronto. Ninguém nunca está pronto.", colam explicitamente os dois campos: o "nada" (espaço/coisas) e o "ninguém" (sujeitos) partilham a mesma condição. Isso é um paralelo, não uma simples comparação isolada.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar os dois domínios em jogo
O texto trabalha em dois planos simultâneos. De um lado, os sujeitos: o barbeiro multifuncional (que joga búzios, assenta cerâmica, toca cavaquinho) e o próprio narrador (que tenta concluir o ensino médio aos trinta e dois anos). De outro, o espaço: as casas de alvenaria pela metade, as paredes sem reboco, sem pintura.
Subpasso 4.2 — Perceber que os dois domínios recebem o mesmo predicado
O verbo-chave que une tudo é "estar em construção". Ele é dito das pessoas ("todos por aqui estão em construção") e é a exata imagem do bairro (construções inacabadas). O autor não descreve pessoas e lugares separadamente: ele os faz refletir um no outro. Esse espelhamento entre dois campos distintos é justamente a definição de paralelo.
Subpasso 4.3 — Verificação
O fecho "Nada nunca está pronto. Ninguém nunca está pronto." é a prova definitiva: duas frases gêmeas na estrutura ("Nunca... pronto"), uma para as coisas (o espaço), outra para as pessoas (os sujeitos). A estratégia estruturante é, portanto, a construção de um paralelo entre os sujeitos e o espaço periférico urbano — o que corresponde exatamente à alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) comparação das interações sociais com o cotidiano das pessoas.
❌ Incorreta: o paralelo não se dá entre "interações sociais" e "cotidiano" (dois recortes do mesmo mundo humano). Ele ocorre entre o humano e o físico/espacial. A alternativa desloca os dois polos da comparação.
B) exaltação da habilidade de adaptação do trabalhador da periferia.
❌ Incorreta: o barbeiro versátil aparece como exemplo que abre o texto, mas o tom não é de "exaltação" (elogio enfático), e sim de constatação; além disso, o foco se amplia para "todos" e para o próprio espaço, não fica no trabalhador.
C) construção de um paralelo entre os sujeitos e o espaço periférico urbano.
✅ Correta: é exatamente o procedimento do texto — "Ninguém nunca está pronto" (sujeitos) espelhado em "Nada nunca está pronto" (espaço em obras). Pessoas inacabadas e casas inacabadas são postas lado a lado sob a mesma ideia.
D) valorização do pensamento de um famoso escritor da literatura brasileira.
❌ Incorreta: Guimarães Rosa é citado en passant, apenas para reforçar a ideia de aprender "por precisão"; ele não é o objeto do texto nem sua estratégia estruturante.
E) apresentação de problemas de urbanização em grandes cidades brasileiras.
❌ Incorreta: as obras inacabadas não funcionam como denúncia urbanística; são imagem, metáfora do humano. O texto não discute infraestrutura ou políticas urbanas.
🏆 Gabarito: C — o autor desenvolve o tema erguendo um paralelo em que sujeitos e espaço periférico compartilham a mesma condição de estarem "em construção".
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só C nomeia corretamente os dois polos do espelhamento (sujeitos ↔ espaço) e o recurso (paralelo), sustentados pela dupla frase final.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora pedir a estratégia/recurso em vez do tema; a resposta certa costuma descrever o "como" da construção textual.
- Generalização: quando um texto atribui o mesmo predicado a domínios diferentes (aqui, "estar em construção" para gente e para casas), a estratégia é analogia/paralelo.
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas que citam só um lado (o trabalhador, o escritor) ou que trocam a natureza dos polos (interações x cotidiano) — o paralelo real é humano x espaço.
- Conexões: crônica contemporânea; linguagem figurada e metáfora; representação da periferia na literatura brasileira.
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