Mapa de questões · 1º dia
Questão 25 — ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia
A roda dos não ausentes
O nada e o não,
ausência alguma,
borda em mim o empecilho.
Há tempos treino
o equilíbrio sobre
esse alquebrado corpo,
e, se inteira fui,
cada pedaço que guardo de mim
tem na memória o anelar
de outros pedaços.
E da história que me resta
estilhaçados sons esculpem
partes de uma música inteira.
Traço então a nossa roda gira-gira
em que os de ontem, os de hoje,
e os de amanhã se reconhecem
nos pedaços uns dos outros.
Inteiros.
EVARISTO, C. Poemas de recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2017.
Nesse poema, a expressividade construída pelo eu lírico remete ao(à)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → poesia contemporânea afro-brasileira (Conceição Evaristo e a "escrevivência")
- ⚡ Nível: Médio — exige perceber que o "eu" do poema se dilata em um "nós", ou seja, que a experiência individual vira coletiva.
- 🎯 Tema/Habilidade: Análise do efeito de sentido de recursos expressivos (imagens, léxico, sintaxe) na construção do tema — competência de leitura literária.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A forma como o eu lírico se expressa aponta para qual ideia central?"
- Palavras-chave decisivas: expressividade, eu lírico, remete ao(à)
- Armadilha típica: ficar preso à imagem dos "pedaços" e da "fragmentação" e concluir que o poema fala de perda, resignação ou dor individual — quando o movimento do texto é justamente reunir os pedaços num todo compartilhado.
- O que a resposta precisa demonstrar: que os fragmentos de memória do "eu" se articulam com os dos outros (ontem, hoje, amanhã), formando uma memória partilhada.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Escrevivência (Conceição Evaristo): conceito-assinatura da autora — a escrita que parte da vivência pessoal (sobretudo da mulher negra) mas se projeta como voz de um coletivo, dando corpo a experiências que a história oficial silenciou.
- Eu lírico coletivo: quando o "eu" do poema não fala apenas de si, mas assume a voz de um grupo; aqui, o singular ("cada pedaço que guardo de mim") desliza para o plural ("os pedaços uns dos outros").
- Memória coletiva: lembrança que não pertence a um indivíduo isolado, mas é construída e partilhada por uma comunidade ao longo das gerações — exatamente a "roda" que o poema desenha.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "cada pedaço que guardo de mim / tem na memória o anelar / de outros pedaços" → o eu lírico reconhece que sua própria memória só se completa em relação à dos outros; o individual já nasce ligado ao coletivo.
- Evidência 2: "a nossa roda gira-gira / em que os de ontem, os de hoje, / e os de amanhã se reconhecem / nos pedaços uns dos outros. / Inteiros." → a imagem da roda une três gerações numa lembrança comum; os fragmentos, somados, tornam-se "Inteiros".
- Síntese: o poema parte da fragmentação ("estilhaçados sons", "pedaços") não para lamentá-la, mas para mostrar que a reunião dessas partes, entre gerações, produz um todo — uma memória compartilhada. O caminho aponta para a evocação de uma memória coletiva.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o movimento do "eu" para o "nós"
O poema abre no registro individual: "borda em mim o empecilho", "esse alquebrado corpo", "se inteira fui". Mas repare na virada: o verbo passa a "Traço então a nossa roda". O possessivo "nossa" e o plural "os de ontem, os de hoje, e os de amanhã" transformam a experiência íntima em experiência partilhada. A expressividade, portanto, está a serviço de dilatar o singular em coletivo.
Subpasso 4.2 — Ler a imagem central: a "roda gira-gira"
A roda é uma figura circular e cíclica: nela não há começo nem fim isolados, e todos os participantes se veem uns nos outros. Ao colocar passado, presente e futuro girando na mesma roda, Evaristo constrói a ideia de continuidade da lembrança entre gerações. Os "pedaços" (memórias fragmentadas) só ficam "Inteiros" quando se reconhecem nos pedaços dos demais — isto é, a memória se completa no compartilhamento.
Subpasso 4.3 — Verificação
A palavra final do poema, isolada em um verso — "Inteiros." — confirma o sentido: a fragmentação é superada pela união coletiva. Cruzando com as alternativas, a única que capta esse gesto de reunir memórias entre gerações é a que fala em memória coletiva. Fecha com o gabarito C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) resignação ante uma realidade fragmentada.
❌ Incorreta: resignação seria aceitação passiva. O eu lírico é ativo — "Há tempos treino o equilíbrio", "Traço então a nossa roda". Ele age sobre os fragmentos para reuni-los, não se conforma com a fragmentação.
B) esquecimento de dores passadas.
❌ Incorreta: é o oposto do texto. O poema afirma a lembrança ("tem na memória", "da história que me resta") — guarda e reelabora o passado em vez de apagá-lo.
C) evocação de uma memória coletiva.
✅ Correta: a "roda gira-gira" reúne os de ontem, hoje e amanhã, que "se reconhecem nos pedaços uns dos outros"; os fragmentos individuais compõem uma lembrança partilhada entre gerações — exatamente uma memória coletiva.
D) ressignificação de um projeto político.
❌ Incorreta: não há no poema qualquer programa, projeto ou pauta política explícita a ser reinterpretada. O foco é memória e pertencimento, não ação político-partidária ou institucional.
E) fortalecimento de sentimentos particulares.
❌ Incorreta: a trajetória do poema vai justamente do particular ("de mim") ao coletivo ("nossa roda", "uns dos outros"). A ênfase recai sobre o partilhado, não sobre o reforço do sentimento individual.
🏆 Gabarito: C — a expressividade do poema converte os pedaços de memória do eu lírico em uma lembrança partilhada entre gerações, ou seja, evoca uma memória coletiva.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa C explica por que os "pedaços" se tornam "Inteiros" — porque se reconhecem uns nos outros, numa roda que atravessa ontem, hoje e amanhã.
- Padrão de cobrança: Conceição Evaristo aparece com frequência no ENEM associada à escrevivência, à memória e à coletividade afro-brasileira; o texto quase sempre parte do "eu" para chegar ao "nós".
- Generalização: em poesia, quando o texto migra do singular para o plural (possessivos e pronomes como "nossa", "uns dos outros") e usa imagens de círculo/geração, a chave costuma ser pertencimento e memória compartilhada.
- Dica de eliminação rápida: corte tudo o que for individualista (E) ou de apagamento (B); depois descarte a leitura passiva (A) diante dos verbos de ação; sem projeto político no texto, cai D — sobra C.
- Conexões: literatura afro-brasileira; conceito de escrevivência; memória e identidade coletiva.
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