Mapa de questões · 1º dia
Questão 63 — ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia
Violência contra a mulher
Crime que se confunde com paixão
Chamar de "passional" a violência física contra as mulheres impetrada por homens com os quais elas se relacionavam, por exemplo, já ajudou a aceitar agressões por décadas. Segundo o documento Panorama da Violência contra as Mulheres no Brasil, publicado em 2018 pelo Senado Federal, até a década de 1970, esse tipo de ofensiva era considerado aceitável pela população, na medida em que fazia parte apenas da esfera privada. É a expressão do dito popular que reitera que "em briga de marido e mulher, não se mete a colher". "Ah, mas se mete sim" — começaram a dizer os movimentos feministas que ganharam força naquele período. Essas vozes foram ainda por muito tempo ignoradas pelo Estado, que, assim, permitiu a vitimização de muitas mulheres.
Disponível em: www.almg.gov.br. Acesso em: 2 out. 2019 (adaptado).
De acordo com o texto, qual posicionamento foi contestado pelos movimentos sociais mencionados?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → violência de gênero, patriarcado e a fronteira público/privado
- ⚡ Nível: Médio — exige traduzir um ditado popular em um conceito sociológico e identificar exatamente o alvo da crítica feminista.
- 🎯 Tema/Habilidade: Movimentos sociais e desnaturalização da violência de gênero (compreender a produção histórica das desigualdades e a atuação dos movimentos sociais).
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual ideia/posicionamento os movimentos feministas passaram a contestar, segundo o texto?"
- Palavras-chave decisivas: contestado, movimentos sociais (feministas), esfera privada
- Armadilha típica: confundir o que os movimentos defendiam (tirar a violência do privado) com o que eles criticavam (a ideia de que a violência era um assunto privado, intocável). A pergunta quer o alvo da crítica, não a bandeira.
- O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que a crítica recai sobre a naturalização da violência doméstica como algo interno, íntimo e legítimo da família patriarcal.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Patriarcado: sistema social que organiza a família e a sociedade em torno da autoridade masculina, legitimando o controle do homem sobre a mulher — inclusive por meio da violência.
- Esfera privada × esfera pública: o privado é o âmbito doméstico/familiar, historicamente visto como "intocável" pelo Estado; o público é o âmbito coletivo, político e regulável. Colocar a violência como "privada" a blinda da intervenção estatal.
- Naturalização: processo pelo qual algo socialmente construído (a violência do marido) passa a ser visto como "normal", "natural" ou "aceitável" — exatamente o que o ditado da colher expressa.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "fazia parte apenas da esfera privada" → a agressão era tratada como assunto interno da família, fora do alcance do Estado.
- Evidência 2: "em briga de marido e mulher, não se mete a colher" → o ditado sintetiza a naturalização: a intimidade do casal seria intocável, mesmo com violência.
- Evidência 3: "'Ah, mas se mete sim' — começaram a dizer os movimentos feministas" → o alvo da contestação é justamente a ideia de não intervir na intimidade familiar.
- Síntese: os movimentos feministas atacam a crença de que a violência é um assunto íntimo, privado e legítimo dentro da família patriarcal — ou seja, contestam a naturalização da intimidade familiar no modelo patriarcal.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que era aceito antes da crítica
O texto afirma que, até a década de 1970, a agressão do homem contra a mulher era "considerada aceitável" porque pertencia "apenas à esfera privada". Havia, portanto, uma naturalização: violência dentro de casa = assunto íntimo do casal, que ninguém deveria tocar.
Subpasso 4.2 — Identificar o que os movimentos contestaram
Os movimentos feministas respondem "se mete sim", negando que a intimidade familiar seja um espaço legítimo e intocável para a violência. O que eles derrubam é exatamente a naturalização dessa intimidade patriarcal — a ideia de que o lar é território privado onde a autoridade masculina pode agir sem controle.
Subpasso 4.3 — Verificação
"Contestar a naturalização da intimidade familiar no modelo patriarcal" descreve com precisão o alvo: a crença de que a violência doméstica é normal por ser íntima/privada. Isso bate com todas as evidências. Corresponde à alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Idealização das tarefas diárias no espaço doméstico.
❌ Incorreta: o texto trata de violência física, não de divisão ou romantização de tarefas domésticas (afazeres, cuidado). Esse tema (dupla jornada, trabalho invisível) não é o que está sendo contestado aqui.
B) Naturalização da intimidade familiar no modelo patriarcal.
✅ Correta: é exatamente o que os movimentos derrubam — a ideia de que a violência é aceitável por pertencer à intimidade privada da família, protegida pela lógica patriarcal ("não se mete a colher").
C) Divulgação dos assuntos particulares no ambiente coletivo.
❌ Incorreta: inverte o sentido. As feministas queriam levar a violência do privado ao público; elas não contestavam a "divulgação" — pelo contrário, a defendiam. O alvo da crítica é o silêncio privado, não a exposição.
D) Valorização dos sentimentos amorosos na vida matrimonial.
❌ Incorreta: apoia-se na palavra "passional" do título, mas o texto denuncia justamente o disfarce da violência como paixão. Não há crítica ao amor conjugal em si, e sim ao uso do "passional" para acobertar a agressão.
E) Promoção da igualdade política nas esferas governamentais.
❌ Incorreta: igualdade política e representação são temas correlatos ao feminismo, mas o texto foca na violência doméstica e na fronteira público/privado, não em paridade nas instâncias de governo.
🏆 Gabarito: B — os movimentos feministas contestaram a naturalização da violência como assunto íntimo e intocável da família patriarcal, resumida no ditado "em briga de marido e mulher, não se mete a colher".
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a letra B nomeia o alvo real da crítica — a naturalização da violência íntima no patriarcado; as demais deslocam o foco para tarefas, exposição, amor ou política.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora textos sobre movimentos sociais e pede o "posicionamento contestado" ou "defendido". O truque é separar o que se critica do que se propõe.
- Generalização: em questão de crítica social, procure o verbo-chave (contestar, denunciar, questionar) e ligue-o à ideia combatida, não à solução proposta.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que invertem o sentido (C: elas queriam divulgar) e as que se agarram a uma palavra isolada do título (D: "passional"). Sobram as que tratam do privado/patriarcal.
- Conexões: Lei Maria da Penha (2006); conceito de gênero; público × privado em Hannah Arendt; feminismo de segunda onda ("o pessoal é político").
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