Mapa de questões · 1º dia
Questão 65 — ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia
Por "brecha" não entendemos, de forma alguma, um elemento que pusesse em perigo, mudasse drasticamente ou diminuísse o sistema escravista. A analogia com uma brecha na muralha de uma fortaleza assediada seria algo totalmente equivocado. O que queremos descrever é uma brecha para o escravizado, como se diria hoje, "um espaço", situado sem dúvida dentro do sistema, mas abrindo possibilidades inéditas para atividades autônomas dos cativos.
CARDOSO, C. F. S. Escravo ou camponês? O protocampesinato negro nas Américas. São Paulo: Brasiliense, 1987 (adaptado).
No Brasil colonial, a "brecha" abordada no texto representou uma flexibilização, ao possibilitar ao escravizado
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Colonial (escravidão, economia e resistência escrava)
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um conceito historiográfico ("brecha camponesa") e conectá-lo à prática cotidiana da escravidão.
- 🎯 Tema/Habilidade: Trabalho escravo e formas de resistência/negociação no sistema colonial; compreender processos históricos a partir de fontes.
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "A 'brecha' descrita por Ciro Cardoso, no Brasil colonial, possibilitou ao escravizado o quê?"
- Palavras-chave decisivas: "espaço" dentro do sistema, "atividades autônomas dos cativos", flexibilização
- Armadilha típica: confundir a "brecha" com a conquista de direitos ou liberdades formais (civis, religiosos, associativos), quando o texto trata de uma margem de autonomia prática — não de direitos garantidos.
- O que a resposta precisa demonstrar: que essa margem de autonomia era, sobretudo, de natureza econômica — produção e comércio próprios pelo cativo.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Brecha camponesa (protocampesinato negro): conceito de Ciro Flamarion Cardoso para o "espaço" concedido dentro do sistema escravista em que o cativo cultivava roças próprias, nos fins de semana ou dias livres, gerando produção autônoma.
- Pecúlio e alforria: o excedente produzido e vendido em feiras podia ser acumulado (pecúlio) e, em alguns casos, usado para a compra da própria liberdade (alforria por coartação).
- Resistência dentro do sistema: a brecha não era um direito nem ameaçava a escravidão; era uma concessão que acomodava tensões e, ao mesmo tempo, abria uma janela de autonomia relativa ao escravizado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "não... um elemento que pusesse em perigo, mudasse drasticamente ou diminuísse o sistema escravista" → a brecha não rompe nem altera a estrutura escravista; opera dentro dela.
- Evidência 2: "abrindo possibilidades inéditas para atividades autônomas dos cativos" → o núcleo do conceito é a autonomia produtiva do escravizado, ou seja, produzir e dispor de algo por conta própria.
- Síntese: um "espaço" interno ao sistema que permite atividade autônoma dos cativos aponta diretamente para autonomia econômica (cultivo, venda de excedentes, pecúlio) — e não para direitos civis, educação, religião ou associações.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Definir a natureza da "brecha"
O texto descarta expressamente qualquer leitura de ruptura ("brecha na muralha"). A brecha é uma concessão interna, não um enfraquecimento do sistema. Logo, a resposta não pode envolver conquista de direitos ou liberdades formais, que implicariam alterar a condição jurídica do cativo.
Subpasso 4.2 — Identificar o conteúdo da autonomia
"Atividades autônomas dos cativos" no Brasil colonial se materializava, concretamente, na roça própria: o escravizado cultivava mandioca, feijão, milho em pequenos lotes cedidos pelo senhor e vendia o excedente em feiras e mercados. Esse é o cerne do protocampesinato negro. A autonomia possível era, portanto, econômica.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando com as alternativas: apenas "obter ganhos econômicos" (B) traduz produção autônoma, comércio de excedentes e acumulação de pecúlio. As demais (direitos civis, educação, religião, associações profissionais) descrevem conquistas que o texto exclui, pois exigiriam mudança na estrutura — exatamente o que Cardoso nega. Confirma-se B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) conquistar direitos civis.
❌ Incorreta: o escravizado era juridicamente uma "coisa" (res), sem personalidade civil. A brecha não alterava o estatuto legal do cativo — o próprio texto nega que ela mudasse o sistema.
B) obter ganhos econômicos.
✅ Correta: a brecha camponesa permitia cultivar roças próprias, vender excedentes e acumular pecúlio — atividade autônoma de natureza econômica, exatamente o "espaço" descrito por Cardoso.
C) garantir o acesso à educação.
❌ Incorreta: não havia sistema educacional voltado aos cativos; a escolarização era negada e nada no texto remete a instrução — a autonomia descrita é produtiva, não escolar.
D) expressar a liberdade religiosa.
❌ Incorreta: embora existissem práticas religiosas afro-brasileiras (muitas vezes sincréticas e perseguidas), a "brecha" do texto trata de atividade econômica autônoma, não de culto — é um recorte diferente.
E) constituir associações profissionais.
❌ Incorreta: associações profissionais (sindicatos, corporações de ofício de trabalhadores livres) são anacrônicas e incompatíveis com a condição escrava; a brecha era individual/familiar, ligada à produção, não à organização coletiva do trabalho.
🏆 Gabarito: B — a "brecha" era um espaço interno ao sistema que abria autonomia produtiva ao cativo, traduzida em ganhos econômicos (roça própria, venda de excedentes, pecúlio).
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só B respeita a condição posta pelo texto — algo que ocorre dentro do sistema sem ameaçá-lo; ganhos econômicos autônomos cabem nessa margem, direitos e liberdades formais não.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora fontes historiográficas sobre escravidão que exploram resistência e negociação (brecha camponesa, alforria, quilombos, pecúlio) em vez de apenas violência.
- Generalização: quando o texto afirma que algo acontece "dentro do sistema" sem transformá-lo, elimine alternativas que impliquem conquista de direitos ou mudança de estatuto.
- Dica de eliminação rápida: procure a palavra-âncora — aqui, "atividades autônomas". Ela puxa para o campo econômico e derruba de imediato as opções de direito, educação, religião e associação.
- Conexões: Ciro Flamarion Cardoso e o protocampesinato negro; alforria por coartação; economia açucareira e mineradora do Brasil colonial.
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