Mapa de questões · 1º dia
Questão 41 — ENEM 2025 PPLCaderno azul · 1º Dia
Andar com fé
Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Gravada por Gilberto Gil no seu LP Um banda um (WEA, 1982) (fragmento).
COMENTÁRIO: A fé e a "faia" — O uso do "faiá" é assumido com a intenção de legitimar uma forma popular contra a hegemonia do bem falar das elites. É uma homenagem ao linguajar caipira, ao modo popular mineiro, paulista, baiano — brasileiro, enfim — de falar "falhar" no interior. É quase como se a frase da canção não pudesse ser verdade se o verbo fosse pronunciado corretamente — o que seria um erro… Outro dia cometeram esse "deslize" na Bahia, ao utilizarem a expressão na promoção de uma campanha de cinto de segurança. Nos outdoors, saiu: "A fé não costuma falhar" (a propaganda associava o cinto à fitinha do Senhor do Bonfim). Eu deixei, mas achei a correção desnecessária.
GILBERTO GIL. Todas as letras. São Paulo: Cia. das Letras, 2022.
No comentário de Gilberto Gil sobre o uso de "faiá", o compositor
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Variação linguística e adequação (norma-padrão × variedades populares)
- ⚡ Nível: Fácil — o próprio comentário verbaliza a tese, bastando reconhecer que Gil valoriza a forma popular.
- 🎯 Tema/Habilidade: Variação linguística e adequação ao contexto; reconhecer efeitos de sentido de diferentes usos da língua e o combate ao preconceito linguístico.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "No comentário sobre 'faiá', qual é a posição que Gilberto Gil defende?"
- Palavras-chave decisivas: defende (o comando pede a posição do autor), "faiá" (a forma popular em foco), variedade não padrão (o objeto da valorização).
- Armadilha típica: confundir "valorizar o popular" com "atacar as elites" — o texto tem uma farpa às elites, mas o núcleo é a defesa, não a crítica.
- O que a resposta precisa demonstrar: que Gil considera "faiá" a forma adequada e legítima naquele contexto (a canção), e não um erro a ser corrigido.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Variação linguística: a língua não é homogênea; varia por região, grupo social e situação. "Faiá" é uma variante fonética popular de "falhar", não um erro.
- Adequação: o certo/errado depende do contexto. A norma-padrão é adequada em textos formais; a variedade popular é adequada (e expressiva) numa canção de raiz.
- Preconceito linguístico × legitimação: rotular o popular como "erro" reproduz a hegemonia da variedade de prestígio. Gil inverte isso: legitima o "faiá" como patrimônio cultural.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "É uma homenagem ao linguajar caipira, ao modo popular mineiro, paulista, baiano — brasileiro, enfim" → Gil enobrece a variedade popular como identidade nacional, não a rebaixa.
- Evidência 2: "é quase como se a frase da canção não pudesse ser verdade se o verbo fosse pronunciado corretamente — o que seria um erro" → ironia-chave: no contexto da canção, corrigir para "falhar" é que seria o "erro"; o "faiá" é o adequado.
- Síntese: ao narrar que "corrigiram" o verso no outdoor e concluir "achei a correção desnecessária", Gil defende explicitamente que a variedade não padrão é a forma certa para aquela letra. O caminho aponta para "defesa da adequação".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a atitude do autor
O verbo do comando é "defende/aponta/critica...". Rastreando o texto, todos os movimentos de Gil são de valorização: "homenagem", "legitimar uma forma popular", "correção desnecessária". A atitude dominante é de defesa, não de ataque nem de problematização.
Subpasso 4.2 — Nomear o objeto defendido
O que ele defende? Não a norma-padrão (que ele recusa como parâmetro absoluto), mas a variedade não padrão — o "faiá" — dentro do contexto específico da canção. Ou seja: defende a adequação daquela variedade àquele contexto.
Subpasso 4.3 — Verificação
Cruzando com as alternativas, só uma reúne os três elementos corretos — verbo (defende) + objeto (variedade não padrão) + recorte (na letra da canção): a alternativa E. As demais ou trocam o verbo (crítica/problematização), ou desviam o foco (elites, publicidade, uso extramusical).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) critica o modo de falar das elites.
❌ Incorreta: há uma alfinetada na "hegemonia do bem falar das elites", mas ela é acessória. O núcleo argumentativo é a defesa do popular, não a crítica ao falar de prestígio; escolher A é confundir o pano de fundo com a tese.
B) problematiza a linguagem popular brasileira.
❌ Incorreta: "problematizar" implicaria questionar/colocar em dúvida o uso popular. Gil faz o oposto — celebra e legitima ("homenagem", "brasileiro, enfim"). Inverte o sentido do texto.
C) aponta o desvio da norma-padrão na peça publicitária.
❌ Incorreta: justamente o que ele recusa é enxergar "faiá" como "desvio". Ele critica a correção do outdoor por desnecessária; não denuncia desvio algum — para ele, a variante popular não é erro.
D) contesta o uso de letras de canção fora do cenário musical.
❌ Incorreta: o outdoor usar o verso não é o alvo. O incômodo de Gil é a alteração de "faiá" para "falhar", não o transporte da frase para a publicidade. Tema estranho ao comentário.
E) defende a adequação da variedade não padrão na letra da canção.
✅ Correta: sintetiza verbo (defende), objeto (variedade não padrão / "faiá") e contexto (a letra da canção). É exatamente o que sustenta "achei a correção desnecessária" e "não pudesse ser verdade se o verbo fosse pronunciado corretamente".
🏆 Gabarito: E — Gil defende que, no contexto da canção, o "faiá" é a forma adequada e legítima, tornando a "correção" para a norma-padrão desnecessária.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só E combina a atitude de defesa com o objeto correto (a variedade não padrão) no recorte certo (a letra). Todas as outras erram o verbo ou o foco.
- Padrão de cobrança: o ENEM adora textos que valorizam variedades populares (Gil, Patativa do Assaré, Bagno) para testar se o candidato entende adequação em vez de "certo × errado" absoluto.
- Generalização: quando o autor valoriza uma forma popular, a resposta quase sempre gira em torno de adequação/legitimação da variação — e nunca em torno de "erro" ou "desvio".
- Dica de eliminação rápida: corte toda alternativa que trate o popular como "erro/desvio/problema" (aqui, B e C) e as que mudam de assunto (D). Sobram A e E; entre elas, prefira a que descreve a tese central (defender) e não a farpa lateral (criticar elites).
- Conexões: preconceito linguístico; funções da linguagem e identidade cultural; norma-padrão × norma de uso.
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