Mapa de questões · 1º dia
Questão 1 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Cúentame, madre…
Madre, cuéntame todo lo que sabes por tus viejos dolores. Cuéntame cómo nace y cómo viene su cuerpecillo, entrabado con mis vísceras.
Dime si buscará solo mi pecho o si se lo debo ofrecer, incitándolo.
Dame tu ciencia de amor, ahora, madre. Enséñame las nuevas caricias, delicadas, más delicadas que las del esposo.
¿Cómo limpiaré su cabecita, en los días sucesivos? ¿Y cómo lo haré para no dañarlo? Enséñame, madre, la canción de cuna con que me meciste. Esa lo hará dormir mejor que otras canciones.
MISTRAL, G. Cuéntame madre. In: Desolación. Madrid: Espasa-Calpe, 1969.
Na prosa poética de Gabriela Mistral, o eu lírico, com o uso reiterado do imperativo, demonstra
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Espanhol → Interpretação de texto literário (prosa poética) e funções do modo imperativo
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer que o imperativo, aqui, não expressa ordem ou autoridade, mas um pedido angustiado, o que só se percebe lendo o poema como um todo, e não isoladamente cada verbo.
- 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido do modo verbal imperativo em texto literário hispano-americano; competência de área de linguagens que cobra a relação entre recursos linguísticos e construção de sentido
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O uso repetido do imperativo pelo eu lírico revela qual atitude/sentimento dela em relação à mãe?"
- Palavras-chave decisivas: uso reiterado do imperativo, eu lírico, demonstra
- Armadilha típica: confundir a forma gramatical (imperativo = modo de comando) com o efeito de sentido no contexto (imperativo usado para suplicar, não para mandar). Quem lê "Cuéntame", "Dime", "Dame", "Enséñame" sem atenção ao contexto tende a marcar a alternativa que fala em "autoridade" (A), justamente por associar automaticamente imperativo a ordem.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ler o imperativo como recurso estilístico a serviço de uma emoção específica — a angústia e a insegurança de quem vai ser mãe pela primeira vez e pede socorro a quem já viveu essa experiência.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Modo imperativo: modo verbal usado tradicionalmente para dar ordens, pedidos, conselhos ou instruções. Seu efeito de sentido depende do contexto: pode soar autoritário, gentil, urgente ou suplicante conforme a relação entre os falantes e a situação comunicativa.
- Eu lírico: voz que fala no poema, não devendo ser confundida com a autora Gabriela Mistral. Aqui, o eu lírico é uma filha grávida (ou prestes a ser mãe) que se dirige à própria mãe.
- Prosa poética: texto escrito em prosa (sem versificação rígida) mas carregado de recursos poéticos — repetição, ritmo, imagens sensoriais e forte carga emocional, típico da obra de Mistral em Desolación.
- Súplica: pedido feito com intensidade emocional, urgência ou aflição, geralmente por quem se sente vulnerável ou inseguro diante de algo maior que si mesmo.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Cuéntame, madre... Cuéntame todo lo que sabes por tus viejos dolores" → o eu lírico pede à mãe que compartilhe sua experiência de dor e parto ("viejos dolores"), revelando que busca amparo diante de algo que desconhece e teme.
- Evidência 2: "Dime si buscará solo mi pecho o si se lo debo ofrecer, incitándolo." / "¿Cómo limpiaré su cabecita... Y cómo lo haré para no dañarlo?" → as perguntas encaixadas nos imperativos ("dime", seguido de dúvidas concretas) mostram insegurança prática: a filha não sabe como agir e teme machucar o próprio filho.
- Evidência 3: "Dame tu ciencia de amor, ahora, madre. Enséñame las nuevas caricias..." → o verbo "dame" (imperativo de "dar") pede algo abstrato e afetivo — "ciência de amor" —, o que reforça que não se trata de uma ordem hierárquica, mas de uma entrega emocional pedida com urgência ("ahora").
- Síntese: os quatro imperativos centrais do texto (cuéntame, dime, dame, enséñame) não aparecem como comandos de quem detém poder sobre a mãe; aparecem encadeados a perguntas e inseguranças sobre a maternidade iminente. O imperativo, portanto, funciona como veículo de súplica, não de autoridade.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar quem fala e em que situação
O eu lírico é uma mulher que está prestes a se tornar mãe — o texto menciona "su cuerpecillo, entrabado con mis vísceras" (o corpinho do bebê ainda entrelaçado às suas vísceras), ou seja, ela está grávida, à beira do parto ou já na fase de cuidar de um recém-nascido. Ela se dirige à própria mãe, uma figura que já viveu essa experiência ("por tus viejos dolores"). Essa relação — filha inexperiente falando com mãe experiente — é o primeiro dado que descarta qualquer leitura de autoridade da filha sobre a mãe.
Subpasso 4.2 — Analisar a função discursiva do imperativo
Gramaticalmente, "cuéntame", "dime", "dame" e "enséñame" são imperativos (2ª pessoa, "tú"). Mas o modo imperativo, em português e espanhol, não serve só para ordens: também expressa pedidos intensos, conselhos e súplicas, principalmente quando o falante está em posição de fragilidade diante do interlocutor. Aqui, cada imperativo vem acompanhado de uma pergunta ou de uma necessidade concreta e urgente ("¿Cómo limpiaré...?", "¿Y cómo lo haré para no dañarlo?"), o que evidencia que a filha não está mandando — está implorando por orientação porque teme errar com o próprio filho.
Subpasso 4.3 — Verificação: cruzar o efeito de sentido com o campo semântico do poema
O campo semântico do texto reforça a leitura de súplica: "dolores" (dores), "dañarlo" (machucá-lo), "no dañarlo" (não machucá-lo), a repetição do vocativo "madre" em quase todas as frases (reforço afetivo típico de quem pede ajuda com insistência) e o pedido final pela "canción de cuna" que embalou a própria filha quando criança — um gesto de regressão à própria infância, buscando segurança emocional. Todos esses elementos confirmam: o imperativo aqui é a forma linguística que a angústia da maternidade iminente assume. Comparando com as cinco alternativas, apenas a opção que fala em "súplica diante das inquietações da maternidade" traduz corretamente esse efeito de sentido.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) caráter autoritário da filha frente à mãe.
❌ Incorreta: inverte a relação de poder do poema. Quem tem a experiência e o saber é a mãe; a filha se coloca em posição de quem não sabe e precisa aprender, o oposto de autoridade. Usar o imperativo não significa, por si só, impor autoridade — essa é a armadilha gramatical da questão.
B) polidez ao se dirigir à mãe para pedir ajuda.
❌ Incorreta: "polidez" sugere um tom cordial, contido, de etiqueta social — algo como pedir por favor com formalidade. O tom do poema é justamente o oposto: intenso, urgente, carregado de aflição ("ahora, madre", perguntas repetidas sobre como não machucar o bebê). Reduzir isso a mera "polidez" esvazia a carga emocional do texto.
C) meticulosidade ao realizar atribuições maternas.
❌ Incorreta: meticulosidade indicaria cuidado detalhista e controlado de quem já sabe o que fazer e apenas quer fazer bem-feito. Mas o eu lírico expressa o contrário: incerteza, medo de errar ("¿Y cómo lo haré para no dañarlo?"), typical de quem ainda não domina as "atribuições maternas" e por isso pede ensinamento — não de quem já as executa com esmero.
D) súplica diante das inquietações da maternidade.
✅ Correta: os imperativos reiterados (cuéntame, dime, dame, enséñame) funcionam como pedidos urgentes e emocionalmente carregados, motivados pelas dúvidas, medos e inseguranças de quem está prestes a viver a maternidade pela primeira vez. O eu lírico não ordena — implora orientação e amparo à mãe diante do desconhecido.
E) dependência da mãe em questões matrimoniais.
❌ Incorreta: o texto não trata de casamento ou vida conjugal. Há apenas uma referência lateral ao esposo ("más delicadas que las del esposo"), usada como comparação para descrever o tipo de carícia que a filha busca aprender para o bebê — não uma discussão sobre a relação matrimonial em si.
🏆 Gabarito: D — o uso reiterado do imperativo constrói uma súplica emocional da filha à mãe, motivada pelas inseguranças e temores diante da maternidade iminente, e não uma ordem, um pedido meramente educado ou uma questão conjugal.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D capta o efeito de sentido real do imperativo no poema — um recurso estilístico que traduz aflição e pedido de socorro, não hierarquia, etiqueta, perfeccionismo ou tema matrimonial.
- Padrão de cobrança: o ENEM (em espanhol e em português) gosta de testar se o candidato entende que uma categoria gramatical (aqui, o modo imperativo) pode assumir sentidos distintos conforme o contexto enunciativo — comando, conselho, súplica, convite. É comum a prova usar poemas ou textos confessionais para essa cobrança.
- Generalização: sempre que uma questão pedir o "efeito de sentido" de um recurso gramatical (verbo, pontuação, pronome), não pare na definição de dicionário — volte ao texto e pergunte "quem fala, para quem, e em que situação emocional?". A resposta certa é a que respeita a relação entre os interlocutores e o campo semântico do trecho.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que citem temas ausentes do texto (E, casamento) e as que contradizem a relação de poder entre as personagens (A, autoridade da filha, quando é a mãe quem detém o saber). Entre as restantes (B e C), escolha a que reflete a intensidade emocional das perguntas do poema, não um tom meramente cordial ou detalhista.
- Conexões: este tipo de questão dialoga com os estudos sobre funções da linguagem (função emotiva/expressiva, muito presente aqui) e com outras questões de ENEM sobre poesia hispano-americana de autoras como Gabriela Mistral e Alfonsina Storni, que exploram maternidade, corpo e afeto como temas centrais.
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