Mapa de questões · 1º dia
Questão 21 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Entre as tentativas de encontrar o melhor ângulo para retirar o terneiro, meu irmão, o guri e seu pai tentavam convencer Jaqueline de que a morte da vaca não seria uma grande perda: “não é a mesma coisa que perder um pai, um avô, que a gente lembra para o resto da vida, fica lá no cemitério”, “bicho é bicho”. Jefferson, o guri, repetia tudo que o pai dizia, mas já afastado, pois havia sido corrido pela mãe. Jaqueline repete: “pra mim não tem diferença! Os bichos estão tudo na volta. Eles sabem quando eu chego, me conhecem, sabem o meu cheiro. Sou eu que dou comida. Não tem diferença nenhuma!”. O pai tenta concordar sem afrontar os caras, dizendo que as pessoas desenvolvem valor de estima pelos animais.
KOSBY, M. F. Mugido (ou diário de uma doula). Rio de Janeiro: Garupa, 2017.
No fragmento, as reações à perda de um animal refletem concepções fortalecidas pela
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto literário (crônica/romance contemporâneo)
- ⚡ Nível: Médio — exige inferir uma noção abstrata (empatia homem-animal) a partir de diálogos indiretos, sem que o texto use o termo explicitamente.
- 🎯 Tema/Habilidade: Relações entre sujeito, afeto e ambiente na construção de sentido do texto literário (Competência de Área 8/9 — reconhecer valores e visões de mundo veiculados pelo texto)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual concepção explica por que os personagens reagem de formas tão diferentes à morte de um animal?"
- Palavras-chave decisivas: reações, fortalecidas, concepções
- Armadilha típica: confundir a fala do pai (que tenta suavizar o conflito com um argumento genérico sobre "valor de estima") com a explicação central do texto, que na verdade está na fala de Jaqueline, mais específica e mais reveladora.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar a origem do vínculo afetivo descrito por Jaqueline — não um sentimentalismo vago, mas uma relação de convivência cotidiana entre ela e os animais.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Empatia: capacidade de reconhecer e partilhar o estado emocional de outro ser, geralmente construída pelo contato e pela familiaridade, não apenas pela razão abstrata.
- Relação homem-ambiente (ruralidade): no meio rural, o trabalho e a convivência diária com os animais criam vínculos de reconhecimento mútuo (o animal "sabe" quem cuida dele, e quem cuida passa a enxergá-lo como sujeito de relação, não só como mercadoria).
- Discurso indireto e polifonia: o narrador reproduz falas de personagens diferentes (o irmão, o pai, o guri, Jaqueline) para mostrar visões de mundo em disputa dentro da mesma cena — a leitura precisa distinguir de quem é cada argumento e o que cada um revela.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Os bichos estão tudo na volta. Eles sabem quando eu chego, me conhecem, sabem o meu cheiro. Sou eu que dou comida." → Jaqueline descreve uma relação de reconhecimento recíproco construída pela rotina de cuidado — ela e os animais compartilham o mesmo espaço de vida (a "volta", o entorno da casa) e se identificam mutuamente.
- Evidência 2: "Não tem diferença nenhuma!" → Para Jaqueline, a perda do animal equivale à perda humana precisamente porque o vínculo não é abstrato: nasce da convivência física e afetiva diária, não de uma hierarquia moral entre espécies.
- Síntese: O fragmento não defende que "bicho vale o mesmo que gente" por uma tese filosófica geral; ele mostra, por meio da fala de Jaqueline, que a intensidade do laço afetivo nasce do compartilhamento de um mesmo ambiente e de uma relação diária de cuidado e reconhecimento — ou seja, de uma interseção real entre o ser humano e o meio em que vive com os animais.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear as vozes do texto
O trecho apresenta duas posições em confronto: de um lado, o irmão, o pai e o guri relativizam a morte da vaca ("bicho é bicho", diferente de perder "um pai, um avô"); de outro, Jaqueline nega essa hierarquia ("pra mim não tem diferença!"). O pai, por fim, tenta uma saída conciliadora, falando em "valor de estima" — uma explicação vaga, quase um lugar-comum, que não dá conta da experiência concreta relatada por Jaqueline.
Subpasso 4.2 — Identificar a origem do vínculo descrito
A questão pergunta o que fortalece essa concepção de Jaqueline (e, por extensão, a reação de afeto pelos animais no fragmento). A resposta não está numa emoção difusa nem numa crença religiosa ou filosófica sobre a morte, mas num dado muito concreto do texto: Jaqueline convive todos os dias com os animais, alimenta-os, é reconhecida por eles ("sabem quando eu chego", "sabem o meu cheiro"). Esse reconhecimento mútuo só existe porque humano e animal compartilham o mesmo ambiente e a mesma rotina — é a vida em comum, no espaço rural, que produz a empatia.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao reler a alternativa E — "empatia gerada pela interseção entre o homem e seu ambiente" — ela nomeia exatamente esse mecanismo: a proximidade física e cotidiana (interseção) entre Jaqueline e os animais que vivem "na volta" de sua casa é o que gera o laço afetivo (empatia) que ela expressa. Nenhuma outra alternativa capta esse elo entre convivência e ambiente compartilhado; todas ou generalizam demais, ou invertem o sentido do texto, ou trazem noções (pessimismo, banalização, sofrimento como destino) ausentes do fragmento.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) sensibilidade adquirida com a lida no campo.
❌ Incorreta: essa alternativa erra o alvo porque generaliza a "lida no campo" (o trabalho rural em si, a labuta) como fonte da sensibilidade, quando o texto enfatiza especificamente o cuidado diário e o reconhecimento mútuo entre Jaqueline e os animais — não o trabalho agrícola em geral, mas a relação pessoal e afetiva construída no convívio.
B) banalização da morte em função de sua recorrência.
❌ Incorreta: é o oposto do que o texto mostra. Jaqueline não banaliza a morte do animal — ao contrário, ela a equipara em gravidade à morte humana. Quem tenta minimizar (banalizar) a perda são o irmão, o pai e o guri, com a fala "bicho é bicho", justamente a posição que Jaqueline rejeita.
C) expectativa do sofrimento na visão do destino humano.
❌ Incorreta: essa alternativa não tem respaldo textual. O fragmento não trata de uma visão fatalista sobre o "destino humano" nem de expectativa de sofrimento; o conflito é sobre a equivalência (ou não) entre a perda de um animal e a perda de uma pessoa, e não sobre uma filosofia do sofrimento humano.
D) certeza da efemeridade da vida como fator de pessimismo.
❌ Incorreta: não há no trecho nenhum tom pessimista ou reflexão sobre a fugacidade da vida como valor negativo. A fala de Jaqueline é afirmativa e de defesa do vínculo com os animais, não uma lamentação existencial sobre a brevidade da existência.
E) empatia gerada pela interseção entre o homem e seu ambiente
✅ Correta: a fala de Jaqueline evidencia que o laço afetivo com os animais nasce da convivência cotidiana no mesmo espaço — ela os alimenta, é reconhecida por eles, compartilha com eles o entorno da casa. Essa interseção real entre humano e ambiente (rural, de contato direto com os bichos) é o que fortalece a empatia que torna, para ela, a perda do animal equivalente à perda humana.
🏆 Gabarito: E — o texto fortalece a concepção de que a empatia entre Jaqueline e os animais decorre da convivência e do reconhecimento mútuo construídos no mesmo ambiente de vida, não de um sentimentalismo abstrato nem de qualquer uma das demais leituras propostas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E nomeia com precisão o mecanismo revelado pelo texto — a empatia nascida da relação de proximidade entre humano e ambiente (os animais que vivem "na volta" da casa e reconhecem quem cuida deles).
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente usa fragmentos de prosa contemporânea com múltiplas vozes em conflito para testar se o candidato consegue distinguir a posição central do texto (aqui, a de Jaqueline) das falas secundárias ou conciliadoras (a do pai).
- Generalização: em questões de interpretação com diálogo polifônico, a resposta certa costuma se ancorar na fala mais desenvolvida e concreta da personagem central do conflito, e não em generalizações filosóficas ou em falas periféricas que buscam apaziguar a discussão.
- Dica de eliminação rápida: descarte de cara qualquer alternativa com tom negativo ou fatalista (pessimismo, banalização, sofrimento) quando o texto tem um tom de afirmação e defesa de um vínculo — isso já elimina B, C e D em segundos; entre A e E, escolha a que menciona a relação de convivência com o ambiente, não apenas "o campo" como categoria genérica.
- Conexões: compare com questões sobre regionalismo e relação homem-natureza na literatura brasileira, e com textos sobre etologia/comportamento animal que exploram o conceito de vínculo interespécies.
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