Mapa de questões · 1º dia
Questão 62 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Gifford Pinchot, engenheiro florestal treinado na Alemanha, criou o movimento de conservação dos recursos, apregoando o seu uso racional. Na verdade, Pinchot agia dentro de um contexto de transformação da natureza em mercadoria. Na sua concepção, a natureza é frequentemente lenta e os processos de manejo podem torná-la eficiente; acreditava que a conservação deveria basear-se em três princípios: o uso dos recursos naturais pela geração presente, a prevenção de desperdício e o uso dos recursos naturais para benefício da maioria dos cidadãos.
DIEGUES, A. C. S. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec; Edusp, 2000.
A atual concepção de desenvolvimento sustentável diferencia-se da proposta de Gifford Pinchot, do fim do século XIX, pelo foco na
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Meio ambiente, recursos naturais e desenvolvimento sustentável
- ⚡ Nível: Médio — a questão não exige decorar datas ou nomes, mas cobra a capacidade de comparar dois conceitos próximos e identificar o critério exato que os diferencia
- 🎯 Tema/Habilidade: Correntes de pensamento ambiental (conservacionismo utilitarista x desenvolvimento sustentável) — competência de leitura crítica de texto teórico em Ciências Humanas
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que a noção atual de desenvolvimento sustentável tem que a proposta de Pinchot, do fim do século XIX, não tinha?"
- Palavras-chave decisivas: diferencia-se, atual concepção, foco
- Armadilha típica: achar que "conservação de recursos" e "desenvolvimento sustentável" são sinônimos e, por isso, marcar uma alternativa que apenas repete elementos já presentes no texto de Pinchot (como a ideia de tornar a natureza "eficiente" ou de evitar desperdício), sem perceber que a pergunta quer o elemento novo, ausente na proposta original.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de isolar, dentro do texto-base, o que falta ao pensamento de Pinchot e que o conceito contemporâneo de sustentabilidade acrescentou.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Conservacionismo utilitarista (Gifford Pinchot): corrente do fim do século XIX/início do XX que defende o uso racional e eficiente dos recursos naturais, sem desperdício, em benefício da geração presente e da maioria da população. É uma visão antropocêntrica e economicista, que trata a natureza como estoque de mercadorias a administrar.
- Preservacionismo: corrente paralela (associada a John Muir, contemporâneo de Pinchot) que defende a intocabilidade da natureza, sem exploração econômica — os dois movimentos disputavam espaço nos EUA, mas nenhum deles pensava em termos de "gerações futuras".
- Desenvolvimento sustentável (definição consolidada pelo Relatório Brundtland, "Nosso Futuro Comum", 1987): modelo de desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às suas próprias necessidades. É esse critério de responsabilidade intergeracional que não existia na formulação de Pinchot.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o uso dos recursos naturais pela geração presente" → mostra que os três princípios de Pinchot estão inteiramente voltados para quem vive agora, sem qualquer menção a quem viverá depois.
- Evidência 2: "a prevenção de desperdício e o uso dos recursos naturais para benefício da maioria dos cidadãos" → reforça que o critério de justiça de Pinchot é distributivo entre contemporâneos (evitar que poucos monopolizem o recurso), e não um critério temporal entre gerações.
- Síntese: o texto de Diegues descreve uma conservação pensada só "para hoje" e "para a maioria de hoje". A pergunta pede exatamente o elemento temporal que falta nessa equação — e que a sustentabilidade contemporânea introduziu ao pensar também em quem ainda vai nascer.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Recuperar a definição consensual de desenvolvimento sustentável
Desde o Relatório Brundtland (1987), consolidado na Rio-92, "desenvolvimento sustentável" é definido oficialmente como aquele que concilia crescimento econômico, equidade social e proteção ambiental atendendo às necessidades do presente sem comprometer as necessidades das gerações futuras. Esse é o núcleo duro do conceito: uma cláusula de responsabilidade que atravessa o tempo, e não apenas o espaço social de uma única geração.
Subpasso 4.2 — Comparar, princípio a princípio, com a proposta de Pinchot
Reveja os três pilares citados no texto: (1) uso dos recursos pela geração presente; (2) prevenção de desperdício; (3) benefício para a maioria dos cidadãos. Nenhum desses três princípios menciona o amanhã, o futuro ou as próximas gerações — todos operam dentro do horizonte de uma única geração viva. Já o conceito atual de sustentabilidade acrescenta explicitamente essa dimensão temporal: não basta usar bem e distribuir bem entre os que vivem hoje, é preciso garantir que os recursos e as condições ambientais também estejam disponíveis para quem ainda vai nascer.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao confrontar esse ponto com as cinco alternativas, apenas uma nomeia diretamente esse elemento temporal ausente em Pinchot e presente na definição atual: a valorização das necessidades futuras. As demais tratam de aspectos que já estavam presentes (ainda que implicitamente) no próprio pensamento de Pinchot ou que não correspondem ao núcleo do conceito de sustentabilidade. O resultado converge para a alternativa C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) precificação das riquezas naturais.
❌ Incorreta: não é uma diferença, é uma continuidade. O próprio enunciado já afirma que Pinchot agia "dentro de um contexto de transformação da natureza em mercadoria" — ou seja, a lógica de atribuir valor econômico aos recursos naturais já estava presente no conservacionismo do século XIX, não é um traço distintivo do conceito atual.
B) desconstrução dos saberes tradicionais.
❌ Incorreta: inverte o sentido histórico do debate. O conceito contemporâneo de sustentabilidade caminhou justamente no sentido de valorizar saberes tradicionais (povos indígenas, comunidades tradicionais, manejo ancestral de recursos) como fonte de práticas sustentáveis, e não de desconstruí-los. Além disso, esse tema não aparece no texto-base.
C) valorização das necessidades futuras.
✅ Correta: é exatamente o elemento ausente nos três princípios de Pinchot (todos voltados à geração presente) e que a definição consolidada de desenvolvimento sustentável (Relatório Brundtland, 1987) incorpora como critério central — a responsabilidade intergeracional, ou seja, garantir recursos e condições ambientais também para quem ainda vai nascer.
D) contenção do crescimento econômico.
❌ Incorreta: desenvolvimento sustentável não propõe frear ou conter o crescimento econômico — a própria palavra "desenvolvimento" pressupõe continuidade do crescimento, mas de forma compatível com a conservação ambiental e a equidade social. Confundir sustentabilidade com decrescimento é um erro conceitual comum, mas não corresponde à definição consolidada do termo.
E) oposição dos ideais preservacionistas.
❌ Incorreta: essa oposição já existia no tempo de Pinchot, não é uma novidade da concepção atual. O conservacionismo utilitarista de Pinchot historicamente se contrapunha ao preservacionismo (de pensadores como John Muir), que defendia a intocabilidade da natureza. Hoje, inclusive, conservacionismo e preservacionismo dialogam mais do que se opõem em muitas políticas ambientais.
🏆 Gabarito: C — a concepção atual de desenvolvimento sustentável se diferencia da proposta de Pinchot por incorporar explicitamente a responsabilidade com as gerações futuras, elemento ausente nos três princípios (todos voltados exclusivamente à geração presente) citados no texto de Diegues.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que nomeia o critério efetivamente novo — o horizonte intergeracional — que separa o conservacionismo utilitarista do fim do século XIX da definição de sustentabilidade consolidada no século XX.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente contrapõe correntes ambientais históricas (conservacionismo, preservacionismo) ao conceito atual de desenvolvimento sustentável, sempre testando se o estudante sabe a definição de Brundtland de cor — "atender às necessidades do presente sem comprometer as das gerações futuras".
- Generalização: em questões do tipo "conceito histórico X versus concepção atual Y", a resposta certa quase sempre nomeia o elemento que Y acrescentou e que X não tinha — não repita características que já estavam presentes no texto-base como se fossem "diferenças".
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa que apenas parafraseie algo já dito sobre Pinchot no enunciado (aqui, precificação e oposição ao preservacionismo já estavam implícitas no texto) — sobra o que é genuinamente novo.
- Conexões: Relatório Brundtland ("Nosso Futuro Comum", 1987) e Rio-92; conceito de ecodesenvolvimento de Ignacy Sachs, que também articula equidade social, prudência ecológica e eficiência econômica ao longo do tempo.
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