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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 50ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia

Sem dúvida, os sons da voz (phone) exprimem a dor e o prazer; também a encontramos nos animais em geral; sua natureza lhes permite somente sentir a dor e o prazer e manifestar-lhes entre si. Mas o lógos é feito para exprimir o justo e o injusto. Este é o caráter distintivo do homem face a todos os outros animais: só ele percebe o bem e o mal, o justo e o injusto, e os outros valores; é a posse comum desses valores que faz a família e a cidade.

ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Nova Cultural, 1987 (adaptado).

Para o autor, a característica que define o ser humano é o lógos, que consiste na

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Antropologia filosófica e Filosofia Política de Aristóteles
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretação de texto filosófico clássico e domínio do vocabulário técnico aristotélico (phoné x lógos)
  • 🎯 Tema/Habilidade: O conceito de lógos em Aristóteles como fundamento da natureza política do homem (competência de leitura e compreensão de textos filosóficos - matriz ENEM Ciências Humanas)
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "De acordo com o texto de Aristóteles, o que é o lógos — a característica que define o ser humano?"
  • Palavras-chave decisivas: lógos, justo e o injusto, percebe o bem e o mal
  • Armadilha típica: confundir o texto de Aristóteles, um filósofo racionalista e naturalista, com concepções religiosas ou espiritualistas (como "alma" ou "transcendência"), que não aparecem no trecho e pertencem a outras tradições filosóficas
  • O que a resposta precisa demonstrar: a compreensão de que o lógos, para Aristóteles, é a capacidade racional que permite ao homem discernir valores morais (justo/injusto, bem/mal) — e não apenas emitir sons de dor e prazer, como fazem os demais animais

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Phoné (voz): som vocal que exprime sensações imediatas — dor e prazer. É comum a todos os animais, pois decorre apenas da sensibilidade, não do pensamento.
  • Lógos: na filosofia aristotélica, é simultaneamente "razão" e "linguagem articulada" — a capacidade racional de formular juízos, argumentar e distinguir valores morais e políticos, como o justo e o injusto.
  • Zoon politikon (animal político): para Aristóteles, o homem é por natureza um "animal político", pois só ele, graças ao lógos, consegue compartilhar noções de justiça, formando famílias e cidades (pólis) — instituições impossíveis para animais guiados apenas por phoné.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "os sons da voz (phone) exprimem a dor e o prazer; também a encontramos nos animais em geral" → mostra que a voz/sensação é comum a homens e animais, portanto NÃO é o traço distintivo do ser humano.
  • Evidência 2: "o lógos é feito para exprimir o justo e o injusto (...) só ele percebe o bem e o mal, o justo e o injusto" → revela que o lógos é exclusivo do homem e está ligado à capacidade de julgar racionalmente valores morais, não apenas sentir.
  • Síntese: o texto constrói uma oposição direta entre phoné (sensação animal, comum) e lógos (razão articulada, exclusivamente humana). A resposta correta precisa nomear essa capacidade racional de discernimento moral, sem confundi-la com espiritualidade, verdade gradual, segurança material ou transcendência — conceitos ausentes do trecho.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura argumentativa do texto

Aristóteles constrói o argumento em duas etapas comparativas. Primeiro, reconhece o que é comum entre homens e animais: a phoné, capaz apenas de exprimir dor e prazer — sensações imediatas, ligadas ao corpo e ao instinto. Em seguida, isola o que é exclusivo do ser humano: o lógos, definido não como mera fala, mas como a faculdade racional que permite formular juízos sobre o justo e o injusto, o bem e o mal. Essa distinção é o núcleo da antropologia filosófica de Aristóteles.

Subpasso 4.2 — Relacionar o lógos à razão prática e à vida política

Para Aristóteles, o lógos não é apenas "falar" no sentido técnico de emitir palavras — é a razão que discrimina valores éticos e permite a deliberação coletiva. É justamente por partilhar essa capacidade racional de discernir o justo do injusto que os homens conseguem constituir a família e a cidade (pólis), pois toda comunidade política pressupõe acordo sobre normas de justiça. Um animal guiado só pela phoné jamais poderia deliberar sobre leis ou instituir uma cidade, porque não consegue ir além da sensação de prazer/dor.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando essa síntese com as alternativas, a única que capta com precisão o conceito de lógos como faculdade racional voltada ao julgamento de valores morais (justo/injusto, bem/mal) é a que menciona "capacidade racional de discernir". As demais alternativas introduzem elementos estranhos ao texto — alma, verdade gradual, segurança material, transcendência — que não têm respaldo na passagem de Aristóteles.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) evolução espiritual da alma.

❌ Incorreta: o texto de Aristóteles não trata de "alma" nem de "evolução espiritual" nesse trecho — esses são conceitos de tradições religiosas ou de outras correntes filosóficas (como o neoplatonismo), estranhos ao argumento apresentado, que é estritamente sobre razão e linguagem (lógos) versus sensação (phoné).

B) apreensão gradual da verdade.

❌ Incorreta: a ideia de um processo "gradual" de apreensão da verdade remete a outras discussões epistemológicas (como a alegoria da caverna de Platão), não ao conceito de lógos definido no trecho, que é apresentado como uma capacidade — não como um processo progressivo de conhecimento.

C) segurança material do indivíduo.

❌ Incorreta: o texto não menciona nada relacionado a bens materiais, propriedade ou segurança econômica; o foco está exclusivamente na capacidade de discernir valores morais (justo/injusto), tema de natureza ética e política, não econômica.

D) capacidade racional de discernir.

✅ Correta: o lógos é definido no texto como aquilo que permite ao homem, e somente a ele, "perceber o bem e o mal, o justo e o injusto". Essa é exatamente a capacidade racional de discernir valores morais que fundamenta a vida em família e em cidade — o núcleo do argumento aristotélico.

E) possibilidade eventual de transcender.

❌ Incorreta: "transcender" sugere ultrapassar os limites da experiência sensível rumo a algo metafísico ou sobrenatural, noção que não aparece no trecho. Aristóteles fala de uma capacidade concreta e racional de julgamento moral, presente na vida prática e política, não de uma transcendência eventual.

🏆 Gabarito: D — o lógos é definido pelo autor como a capacidade racional exclusivamente humana de discernir o justo do injusto, o bem do mal, sendo essa faculdade a base da vida em família e em sociedade.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: somente a alternativa D reproduz com fidelidade o que o texto afirma sobre o lógos: uma capacidade racional voltada ao discernimento de valores morais, e não uma noção espiritual, epistemológica gradual, material ou transcendente.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra trechos de Aristóteles sobre a natureza política do homem (zoon politikon) e a distinção entre lógos e phoné, sempre exigindo que o candidato diferencie razão/linguagem articulada de mera sensação ou instinto.
  • Generalização: em questões de interpretação de textos filosóficos clássicos, a alternativa correta costuma ser aquela que usa vocabulário mais próximo e literal do texto-fonte, evitando conceitos "importados" de outros autores ou tradições que soam plausíveis mas não têm base no trecho apresentado.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas com termos que remetem a outras escolas filosóficas não mencionadas no texto — "alma" (espiritualismo/religião), "transcender" (metafísica) e "verdade gradual" (epistemologia platônica) — restando rapidamente a opção ligada à razão prática (lógos).
  • Conexões: o conceito de "animal político" (zoon politikon) de Aristóteles e a distinção clássica entre ética e política na filosofia antiga grega.

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