Mapa de questões · 1º dia
Questão 73 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
A humanidade, a humanidade do homem, ainda é um conceito completamente novo para o filósofo que não cochila em pé. A velha questão do próprio homem continua por ser inteiramente reelaborada, não apenas em relação às ciências do vivo, não apenas em relação ao que se nomeia com essa palavra geral, homogênea e confusa, o animal, mas em relação a todos os traços que a metafísica reservou ao homem e que nenhum deles resiste à análise.
DERRIDA, J. Papel-máquina. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.
No trecho, caracteriza-se o seguinte tema fundamental do pensamento filosófico contemporâneo:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia contemporânea (crítica ao humanismo e à metafísica do sujeito)
- ⚡ Nível: Difícil — exige vocabulário filosófico específico (metafísica, desconstrução) e leitura atenta de um trecho denso de Derrida, sem apoio de contexto histórico óbvio
- 🎯 Tema/Habilidade: Crise do sujeito na filosofia contemporânea + competência de identificar temas filosóficos a partir de um texto original (compreensão de textos filosóficos)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual tema da filosofia contemporânea está sendo descrito no trecho em que Derrida diz que a 'humanidade do homem' ainda precisa ser inteiramente repensada?"
- Palavras-chave decisivas: "humanidade do homem", "reelaborada", "traços que a metafísica reservou ao homem... nenhum... resiste à análise"
- Armadilha típica: associar automaticamente Derrida à "virada linguística" (por ele ser ligado ao pós-estruturalismo e à ideia de linguagem/texto), quando o trecho em questão não fala de linguagem, signo ou significação — fala da própria definição do que é "ser homem"
- O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que o texto ataca a noção metafísica tradicional de sujeito humano — fixa, essencial, oposta ao animal — e não um tema de ética, linguagem ou tecnologia
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Crise do sujeito: movimento da filosofia dos séculos XIX-XX que abala a concepção moderna (cartesiana e iluminista) de sujeito como centro racional, autônomo e autotransparente do conhecimento e da ação. Nietzsche, Freud e Marx (os "mestres da suspeita") abrem caminho; Heidegger, Foucault e Derrida o radicalizam no século XX.
- Metafísica humanista: tradição filosófica ocidental que, desde Descartes e Kant, define "o Homem" como ser racional, dotado de linguagem e consciência de si, essencialmente distinto e superior ao animal — atributos tratados como fixos e evidentes.
- Desconstrução (Derrida): método filosófico que revela as contradições internas das oposições binárias hierárquicas que sustentam a metafísica (homem/animal, razão/instinto, cultura/natureza), mostrando que essas fronteiras não se sustentam quando examinadas com rigor.
- A crítica ao antropocentrismo em Derrida: em obras como O animal que logo sou e Papel-máquina, Derrida questiona por que a filosofia sempre tratou "o animal" como uma categoria única e homogênea, contraposta ao homem, e mostra que nenhum dos traços supostamente exclusivos do humano (razão, linguagem, resposta ética) resiste a um exame crítico.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "a humanidade, a humanidade do homem, ainda é um conceito completamente novo" → revela que, para Derrida, aquilo que define essencialmente o ser humano NÃO está resolvido nem é dado de antemão — o oposto do que a metafísica tradicional supunha ao tratar o homem como essência fixa e conhecida.
- Evidência 2: "A velha questão do próprio homem continua por ser inteiramente reelaborada" → a questão clássica "o que é o homem?" precisa ser refeita do zero, não apenas ajustada; isso é o gesto típico de quem desconstrói um conceito metafísico consolidado.
- Evidência 3: "todos os traços que a metafísica reservou ao homem... e que nenhum deles resiste à análise" → aponta diretamente para os atributos que a tradição filosófica atribuiu ao sujeito humano (razão, linguagem, consciência) e afirma que nenhum se sustenta criticamente — é a própria definição do que os manuais chamam de "crise do sujeito".
- Síntese: o filósofo está dizendo que a definição metafísica clássica de "homem" — sujeito privilegiado, com essência fixa, distinto do animal — está esgotada e precisa ser desconstruída. Esse abalo da noção tradicional de sujeito é exatamente o tema "crise do sujeito".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Contextualizando o autor e a obra
Jacques Derrida (1930-2004), filósofo franco-argelino, é o criador do método da desconstrução e uma das figuras centrais do pós-estruturalismo francês. Em obras tardias como O animal que logo sou e Papel-máquina (de onde vem o trecho), ele se dedica a questionar a fronteira que a filosofia ocidental — de Aristóteles a Descartes, Kant e Heidegger — traçou entre o "Homem" (racional, livre, moral) e "o Animal" (visto como massa homogênea movida por instinto, sem linguagem nem resposta ética própria).
Subpasso 4.2 — Identificando o problema filosófico no trecho
O texto parte de uma inversão: em vez de afirmar que já sabemos o que é "a humanidade do homem", Derrida diz que esse conceito "ainda é completamente novo" — ou seja, permanece em aberto, por construir. Ele explicita três frentes em que a "velha questão do homem" precisa ser "inteiramente reelaborada": (1) frente às ciências do vivo (biologia, genética, etologia, que embaralharam fronteiras tidas como rígidas entre espécies); (2) frente à categoria genérica "o animal", tratada pela metafísica de forma "homogênea e confusa"; e (3) frente a "todos os traços que a metafísica reservou ao homem" — razão, linguagem, consciência de si, capacidade de resposta (em oposição à mera reação animal) — traços que, segundo ele, "nenhum... resiste à análise".
Subpasso 4.3 — Verificação: conectando com a "crise do sujeito"
Esse questionamento radical dos fundamentos que a metafísica atribuiu ao ser humano é exatamente o que a filosofia contemporânea chama de crise do sujeito: o abalo da concepção moderna de um sujeito racional, autônomo e universal, que se define por oposição estável a tudo o que não é humano. Ao mostrar que os "traços" reservados ao homem pela tradição não resistem à análise, Derrida se filia a esse movimento inaugurado por Nietzsche, Freud e Marx e continuado por Heidegger e Foucault — todos, cada um a seu modo, desconstruindo a figura do sujeito soberano da modernidade. Confirma-se, portanto, que a alternativa correta é a A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Crise do sujeito.
✅ Correta: o trecho ataca diretamente a definição metafísica tradicional do "homem" como sujeito de essência fixa e privilegiada, distinto do animal por traços como razão e linguagem — e afirma que nenhum desses traços "resiste à análise". Esse é precisamente o núcleo da crise do sujeito: o abalo da noção moderna/humanista de um sujeito autônomo, racional e universal, movimento que atravessa Nietzsche, Freud, Heidegger, Foucault e Derrida.
B) Relativismo ético.
❌ Incorreta: o relativismo ético trata da ideia de que valores e normas morais variam conforme a cultura ou o contexto histórico, sem validade universal. O trecho não discute moral, costumes ou juízos de valor — discute a definição ontológica do que é "ser homem" diante da metafísica. Não há qualquer menção a diversidade de práticas morais.
C) Virada linguística.
❌ Incorreta: a virada linguística designa o deslocamento da filosofia do século XX para o estudo da linguagem como estruturante do pensamento e da realidade (Wittgenstein, estruturalismo, filosofia analítica). Embora Derrida seja associado à centralidade da linguagem em outras obras (como no conceito de différance), o trecho específico não trata de signos, significação ou linguagem — trata da desconstrução do conceito metafísico de homem.
D) Teoria da referência.
❌ Incorreta: é um tema técnico da filosofia da linguagem (discutido por autores como Frege, Russell e Kripke) sobre como nomes e expressões se referem a objetos no mundo. Não guarda relação alguma com o conteúdo do trecho, que versa sobre a essência do humano, não sobre semântica ou mecanismos de referência linguística.
E) Crítica à tecnociência.
❌ Incorreta: embora o texto mencione "as ciências do vivo", não há ali uma crítica ao poder da tecnologia ou da ciência sobre a vida (tema mais associado a Heidegger em outros contextos ou à bioética). A menção às ciências do vivo serve apenas para indicar mais um campo em que a questão do homem precisa ser repensada, não para denunciar os efeitos da tecnociência.
🏆 Gabarito: A — o trecho de Derrida caracteriza a crise do sujeito ao afirmar que a definição metafísica tradicional de "homem" — com seus traços supostamente fixos e exclusivos — precisa ser inteiramente reelaborada, pois nenhum desses traços resiste à análise crítica.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a única alternativa compatível com um texto que questiona a essência metafísica do "homem" e a solidez dos traços que o definiriam como sujeito é "crise do sujeito" — nenhuma das demais opções trata da definição ontológica do humano.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer trechos originais de filósofos contemporâneos (Foucault, Derrida, Bauman, Adorno, Arendt) pedindo que o candidato identifique o tema-chave subjacente ao texto, exigindo leitura atenta mais do que memorização de biografias.
- Generalização: sempre que um texto filosófico questionar conceitos fixos, essências ou definições estáveis atribuídas ao "eu", ao "homem" ou ao "sujeito" pela tradição, o tema em jogo é a crise do sujeito.
- Dica de eliminação rápida: localize o substantivo central do trecho — se o texto discute a definição/essência do ser humano sendo posta em xeque, é crise do sujeito; se discute linguagem/signos, é virada linguística; se discute moral/costumes, é relativismo ético; se discute tecnologia dominando a vida, é crítica à tecnociência. Isso já elimina B, C, D e E rapidamente.
- Conexões: Foucault e a "morte do homem" (em As palavras e as coisas); Derrida e O animal que logo sou; debates contemporâneos sobre pós-humanismo e antropocentrismo.
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