Mapa de questões · 1º dia
Questão 72 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Na Mesopotâmia, os frutos da civilização foram partilhados entre diversas cidades-estados e, no interior delas, entre vários grupos sociais, se bem que desigualmente. No Egito dos faraós, os frutos em questão concentraram-se quase somente na Corte real e, secundariamente, nos centros regionais de poder. Se na Mesopotâmia o comércio cedo começou a servir também à acumulação de riquezas privadas, no Egito as trocas importantes permaneceram por mais tempo sob controle do Estado.
CARDOSO, C. F. Sociedades do antigo Oriente Próximo. São Paulo: Ática, 1986 (adaptado).
Um fator sociopolítico que caracterizava a organização estatal egípcia no contexto mencionado está indicado no(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Sociedades do Antigo Oriente Próximo (Egito e Mesopotâmia)
- ⚡ Nível: Médio — exige comparar duas civilizações a partir de um texto historiográfico e associar conceitos abstratos (centralização, teocracia, burocracia) às evidências textuais.
- 🎯 Tema/Habilidade: Organização política e econômica do Egito faraônico frente à Mesopotâmia; competência de leitura crítica de fonte historiográfica adaptada.
- 🏆 Gabarito: D — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual característica sociopolítica do Estado egípcio explica por que a riqueza ficava concentrada na Corte e o comércio permanecia sob controle estatal?"
- Palavras-chave decisivas: concentraram-se, Corte real, sob controle do Estado
- Armadilha típica: associar "concentração de poder" a enfraquecimento das instituições ou a mecanismos participativos (assembleias, eleições), quando na verdade centralização extrema no Egito antigo significa o oposto — uma máquina administrativa cada vez mais robusta.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreender que controlar riqueza e comércio em escala estatal, como descreve o texto de Ciro Flamarion Cardoso, exige um corpo de funcionários especializado — ou seja, reconhecer o vínculo entre centralização econômica e fortalecimento da burocracia.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Monarquia teocrática egípcia: o faraó era considerado a encarnação de Hórus e mediador entre os deuses e os homens; esse fundamento religioso legitimava a concentração de poder político e econômico em suas mãos e nas da Corte.
- Burocracia no Egito Antigo: rede de escribas, fiscais de celeiros, superintendentes de obras e sacerdotes-administradores responsável por registrar cheias do Nilo, calcular tributos, controlar estoques de grãos e organizar mão de obra para grandes obras públicas.
- Cidades-estados mesopotâmicas: ao contrário do Egito unificado, a Mesopotâmia se organizava em polos urbanos autônomos (Ur, Uruk, Babilônia), o que favoreceu cedo o comércio privado e a acumulação individual de riqueza, fora do controle direto de um único Estado central.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "No Egito dos faraós, os frutos em questão concentraram-se quase somente na Corte real e, secundariamente, nos centros regionais de poder." → revela extrema centralização do excedente econômico nas mãos do Estado, sem a distribuição mais ampla observada na Mesopotâmia.
- Evidência 2: "no Egito as trocas importantes permaneceram por mais tempo sob controle do Estado" → mostra que o comércio de maior vulto não era livre nem privado, mas administrado diretamente pelo aparelho estatal.
- Síntese: para sustentar esse duplo controle — sobre a riqueza acumulada e sobre as trocas comerciais — o Estado egípcio precisava de uma estrutura administrativa ampla e eficiente, capaz de fiscalizar, registrar e redistribuir recursos em todo o território. É exatamente esse fortalecimento do aparato burocrático que o texto está descrevendo, ainda que de forma indireta.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Contextualizando o Egito Antigo
Desde a unificação do Alto e do Baixo Egito, por volta de 3200 a.C., o poder político se organizou em torno da figura do faraó, monarca de caráter teocrático que concentrava em si as funções de chefe de Estado, comandante militar supremo e intermediário sagrado entre o mundo dos deuses e o dos homens. Diferentemente da Mesopotâmia — mosaico de cidades-estados (Ur, Uruk, Lagash, Babilônia) que competiam e negociavam entre si, permitindo maior autonomia econômica local e o florescimento precoce do comércio privado —, o Egito manteve-se, por longos períodos, como um território unificado sob comando único. Essa unidade territorial e política é a chave para entender por que a riqueza se concentrava "quase somente na Corte real": não havia, como na Mesopotâmia, múltiplos centros de poder disputando e redistribuindo excedentes de forma mais pulverizada.
Subpasso 4.2 — O papel da burocracia na concentração de riquezas e no controle do comércio
Concentrar recursos no topo da pirâmide social e, ao mesmo tempo, controlar as trocas comerciais mais importantes não é tarefa simples: exige um sistema minucioso de registro, fiscalização e redistribuição. É aqui que entra o fortalecimento do aparato burocrático egípcio. Escribas treinados nas casas da vida registravam as cheias do Nilo e calculavam a produção agrícola esperada; fiscais administravam os celeiros reais, onde o excedente de grãos era estocado; coletores de impostos percorriam as províncias (nomos) cobrando tributos em espécie; superintendentes de obras organizavam a mão de obra camponesa, nos períodos de inundação, para erguer templos, pirâmides e canais de irrigação. Templos e seus sacerdotes-administradores também funcionavam como extensões do poder central, gerindo terras e riquezas em nome do Estado. Quanto mais o Estado egípcio buscava concentrar e controlar diretamente a riqueza e o comércio, maior era a necessidade dessa máquina de funcionários especializados — ou seja, a centralização descrita no texto pressupõe, estrutural e necessariamente, o fortalecimento da burocracia, não seu enfraquecimento.
Subpasso 4.3 — Verificação
Voltando ao texto de Cardoso: ele contrasta explicitamente os dois casos. Na Mesopotâmia, "o comércio cedo começou a servir também à acumulação de riquezas privadas" — sinal de menor controle estatal direto sobre as trocas. No Egito, ao contrário, "as trocas importantes permaneceram por mais tempo sob controle do Estado". Esse controle estatal contínuo e abrangente só se sustenta com uma estrutura administrativa robusta, capaz de vigiar, registrar e intervir na economia em escala territorial. Comparando esse raciocínio com as cinco alternativas, apenas a opção que fala em "fortalecimento do aparato burocrático" é compatível com a lógica histórica apresentada — confirmando o gabarito.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) atrofiamento da casta militar.
❌ Incorreta: o texto não trata de força militar, e não há indício histórico de enfraquecimento do exército egípcio nesse período — pelo contrário, as forças armadas eram um dos pilares que sustentavam a expansão territorial, a defesa das fronteiras e o controle interno do faraó sobre o território, funcionando em conjunto com (não em oposição a) a estrutura administrativa central.
B) instituição de assembleias locais.
❌ Incorreta: assembleias locais remetem a formas de participação política coletiva, mais associadas a certas experiências mesopotâmicas ou, mais tarde, à pólis grega. No Egito faraônico, o poder era estritamente verticalizado e hierárquico, emanando do faraó e de sua Corte — não havia órgãos deliberativos locais com autonomia decisória relevante.
C) eleição dos conselhos provinciais.
❌ Incorreta: os administradores regionais do Egito, os chamados nomarcas, eram nomeados pelo poder central (podendo, em certas épocas, tornar-se cargos hereditários dentro de famílias locais), mas jamais escolhidos por processo eletivo. A lógica do Estado egípcio era de designação e subordinação hierárquica ao faraó, incompatível com qualquer mecanismo de eleição.
D) fortalecimento do aparato burocrático.
✅ Correta: a concentração de riquezas na Corte real e o controle estatal das trocas comerciais mais importantes, descritos no texto, só eram viáveis por meio de uma extensa rede de escribas, fiscais, administradores de celeiros e templos e coletores de tributos. Esse crescimento e sofisticação da máquina administrativa é precisamente o fator sociopolítico que caracterizava a organização estatal egípcia no período mencionado.
E) esgotamento do fundamento teocrático.
❌ Incorreta: é justamente o oposto — o fundamento teocrático (o faraó como divindade viva e elo entre os homens e os deuses) permanecia vigoroso e era a base ideológica que legitimava a concentração de poder e riqueza na Corte. Não há, no texto ou no contexto histórico do período, qualquer indício de enfraquecimento dessa base religiosa do poder.
🏆 Gabarito: D — o controle estatal centralizado sobre riquezas e comércio, descrito no texto, dependia diretamente de uma burocracia ampla e eficiente (escribas, fiscais, administradores), o que caracteriza o fortalecimento do aparato burocrático como o fator sociopolítico central do Egito faraônico nesse contexto.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra D é a única alternativa que explica, em termos estruturais, como o Egito conseguia concentrar riqueza na Corte e controlar o comércio — por meio de uma burocracia estatal ampla e sofisticada.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra comparações entre civilizações do Oriente Próximo (Egito, Mesopotâmia, hebreus, fenícios), exigindo que o estudante relacione trechos de textos historiográficos a características políticas como teocracia, centralização, despotismo hidráulico e organização em cidades-estados.
- Generalização: sempre que um texto descrever concentração de poder e riqueza num Estado antigo centralizado, a resposta correta tende a apontar para o fortalecimento de estruturas administrativas (burocracia, funcionalismo, sacerdócio), e não para mecanismos democráticos, eletivos ou descentralizadores — anacrônicos para esse contexto histórico.
- Dica de eliminação rápida: elimine imediatamente alternativas que mencionem eleições ou assembleias (B e C), pois são incompatíveis com monarquias teocráticas antigas; em seguida, descarte opções que falem em "enfraquecimento" ou "esgotamento" (A e E), já que o texto descreve justamente o oposto — concentração e controle crescentes do Estado.
- Conexões: o conceito de "despotismo hidráulico" (associado a Karl Wittfogel, que relaciona o controle estatal da irrigação à centralização política) e o papel dos escribas como classe funcional estratégica no Egito Antigo são temas relacionados que ajudam a aprofundar essa discussão.
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