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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 41ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia

Leito de folhas verdes
Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida!
A flor que desabrocha ao romper d’alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda
Doce raio do sol que me dê vida.

DIAS, G. Antologia poética. Rio de Janeiro: Agir, 1979 (fragmento).

Na perspectiva do Romantismo, a representação feminina espelha concepções expressas no poema pela

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Romantismo brasileiro (poesia lírico-amorosa e Indianismo de Gonçalves Dias)
  • ⚡ Nível: Médio — exige leitura conotativa de um poema, indo além do sentido literal das palavras para captar como a paisagem natural "traduz" o sentimento do eu lírico
  • 🎯 Tema/Habilidade: Recursos expressivos da linguagem poética e a relação entre sujeito lírico e natureza — competência de área de Linguagens voltada ao reconhecimento de procedimentos de construção de sentido em textos literários
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual efeito de sentido predomina na forma como o poema articula os elementos da natureza (lua, estrelas, brisa, flor, sol) com os sentimentos do eu lírico?"
  • Palavras-chave decisivas: brilha/correm (verbos de vida aplicados à natureza), quebranto de amor (emoção nomeada), flor que espero (identificação eu lírico–natureza)
  • Armadilha típica: confundir a metáfora "eu sou aquela flor" com "estereótipo de gênero" (alternativa A) ou tomar o tom idealizado do poema como "espiritualização" (alternativa C), quando na verdade o que está em jogo é uma correspondência entre sentimento e paisagem, sem qualquer viés religioso ou de papel social
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar que os elementos naturais não são mero cenário decorativo, mas espelham e expressam o estado emocional do sujeito que fala no poema

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Romantismo e subjetivismo: movimento literário do século XIX que centraliza o "eu" e suas emoções; a natureza deixa de ser pano de fundo neutro e passa a funcionar como extensão da interioridade do sujeito poético.
  • Indianismo de Gonçalves Dias: vertente da primeira geração romântica brasileira que idealiza o indígena como herói nacional; "Leito de folhas verdes" integra esse universo, retratando uma espera amorosa em ambiente natural.
  • Correspondência natureza–sentimento: recurso pelo qual fenômenos externos (lua, brisa, flor) recebem qualidades que espelham o que se passa na alma do eu lírico — a paisagem "sente" junto com quem fala.
  • Metáfora floral: comparação do eu lírico a uma flor que só vive um dia sem receber o sol; concretiza, via natureza, a urgência e a fragilidade do desejo amoroso.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Brilha a lua no céu, brilham estrelas, / Correm perfumes no correr da brisa" → cenário noturno descrito com verbos de movimento e luminosidade, criando atmosfera sensorial que já antecipa o estado de espírito do eu lírico.
  • Evidência 2: "A cujo influxo mágico respira-se / Um quebranto de amor, melhor que a vida!" → o próprio texto liga o ambiente natural ("influxo mágico") a uma emoção nomeada ("quebranto de amor"), tornando a natureza causa e espelho do sentimento.
  • Evidência 3: "Eu sou aquela flor que espero ainda / Doce raio do sol que me dê vida" → o eu lírico se identifica com um elemento natural (a flor) para expressar sua espera amorosa e a dependência vital do amado (o sol).
  • Síntese: em nenhum momento a natureza aparece isolada do sentimento; cada imagem natural é carregada de sentido emocional, confirmando que o procedimento central do fragmento é a correlação entre estados emocionais e elementos naturais.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Situar o fragmento

O poema pertence a "Leito de folhas verdes", de Gonçalves Dias, texto do ciclo indianista do poeta (associado ao poema narrativo "Os Timbiras"). A cena retratada é a espera amorosa de uma personagem indígena por seu amado, ambientada numa noite exuberante de natureza — exemplar típico da primeira geração romântica brasileira, em que o amor é vivido com intensidade, idealização e forte vínculo com a paisagem.

Subpasso 4.2 — Identificar o procedimento estilístico dominante

Verso a verso, todo elemento natural citado vem acompanhado de um traço emocional. A lua e as estrelas "brilham" no mesmo fôlego em que se fala de um "quebranto de amor"; a brisa carrega perfumes que produzem um "influxo mágico"; a flor que desabrocha e vive "um só giro do sol" se torna a própria metáfora do eu lírico, que também depende de um "raio do sol" (o amado) para viver. Natureza e emoção não caminham em paralelo — elas se fundem numa única imagem poética. Esse é exatamente o recurso descrito pela alternativa D: correlação entre estados emocionais (amor, desejo, esperança) e elementos da natureza (lua, estrelas, brisa, flor, sol).

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando essa leitura com as cinco alternativas, apenas a opção D descreve com precisão o que o texto faz. As demais (estereótipo de gênero, marca de nacionalidade, espiritualização do desejo, mudança de paradigma) não encontram respaldo direto nos oito versos apresentados, como se detalha no Passo 5.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) reprodução de estereótipos sociais e de gênero.

❌ Incorreta: a metáfora "eu sou aquela flor" expressa fragilidade e urgência do sentimento amoroso, não uma discussão sobre papéis sociais atribuídos a homens e mulheres. O fragmento não trata de hierarquias de gênero; seu foco é a relação entre sentimento e natureza.

B) presença de traços marcadores de nacionalidade.

❌ Incorreta: o Indianismo de Gonçalves Dias, em outros poemas (como "Canção do Exílio" ou "I-Juca Pirama"), constrói símbolos de identidade nacional. Mas neste fragmento não há nomes de lugares, referências ao indígena como símbolo pátrio ou vocabulário identitário — o recorte trata de intimidade amorosa universal.

C) sublimação do desejo por meio da espiritualização.

❌ Incorreta: sublimar por espiritualização significaria elevar o desejo a um plano religioso ou transcendente, afastando-o do corpo. O poema faz o oposto: o desejo é sensorial e concreto — perfumes, brisa, flor —, ligado ao mundo físico e natural, não a uma dimensão espiritual.

D) correlação feita entre estados emocionais e natureza.

✅ Correta: como demonstrado no Passo 4, cada imagem natural do poema (lua, estrelas, brisa, flor, sol) está diretamente associada a um estado emocional do eu lírico (amor, quebranto, esperança). Essa fusão entre paisagem externa e interioridade é o procedimento central do fragmento e a marca clássica da sensibilidade romântica.

E) mudança de paradigmas relacionados à sensibilidade.

❌ Incorreta: o fragmento não rompe nem inaugura um novo modo de sentir; reproduz de forma convencional a sensibilidade romântica já consolidada (natureza como espelho da alma, amor idealizado). Não há ruptura de paradigma, apenas a aplicação típica de um recurso já característico do movimento.

🏆 Gabarito: D — o poema constrói, verso a verso, uma correspondência direta entre os fenômenos da natureza (lua, estrelas, brisa, flor, sol) e os estados emocionais do eu lírico (amor, quebranto, esperança), procedimento estilístico central do trecho.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa sustentada por evidências textuais em todos os versos do fragmento; as demais exigiriam elementos (estereótipo social, marca de nacionalidade, espiritualização, ruptura de paradigma) que não aparecem no recorte apresentado.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer fragmentos de poemas românticos sem nomear o movimento, esperando que o estudante reconheça o procedimento estilístico — aqui, a fusão entre natureza e sentimento — a partir da leitura atenta do próprio texto.
  • Generalização: sempre que a natureza aparecer "sentindo" junto com o eu lírico — verbos de vida aplicados a elementos naturais emparelhados a palavras de emoção (amor, dor, saudade) —, esse é o sinal de correspondência emocional entre sujeito e paisagem, recurso típico da poesia romântica.
  • Dica de eliminação rápida: procure os substantivos de sentimento (amor, quebranto, vida) e veja a quais elementos naturais eles estão colados; se aparecem emparelhados verso a verso, a resposta que descreve essa relação natureza–emoção é a correta, e alternativas com temas ausentes do trecho (gênero, nacionalidade, religião, ruptura estética) podem ser descartadas de imediato.
  • Conexões: compare com o Arcadismo, em que a natureza é cenário idealizado sem fusão emocional com o eu lírico; e com outros poemas de Gonçalves Dias, como "Canção do Exílio" (natureza como símbolo nacional) e "I-Juca Pirama" (indianismo heroico).

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