Mapa de questões · 1º dia
Questão 57 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Na primeira meditação, eu exponho as razões pelas quais nós podemos duvidar de todas as coisas e, particularmente das coisas materiais, pelo menos enquanto não tivermos outros fundamentos nas ciências além dos que tivemos até o presente. Na segunda meditação, o espírito reconhece entretanto que é absolutamente impossível que ele mesmo, o espírito, não exista.
DESCARTES, R. Meditações metafísicas. São Paulo: Abril Cultural, 1973 (adaptado).
O instrumento intelectual empregado por Descartes para analisar os seus próprios pensamentos tem como objetivo
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Racionalismo cartesiano (Descartes, dúvida metódica e cogito)
- ⚡ Nível: Médio — não basta lembrar a frase "penso, logo existo"; é preciso entender qual é a função da dúvida no projeto cartesiano
- 🎯 Tema/Habilidade: A dúvida metódica como instrumento de fundamentação racional do conhecimento; leitura e interpretação de texto filosófico clássico
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Para que serve o método que Descartes usa para examinar seus próprios pensamentos e concluir que existe?"
- Palavras-chave decisivas: instrumento intelectual, analisar os seus próprios pensamentos, objetivo
- Armadilha típica: confundir a dúvida cartesiana com um ceticismo definitivo (como se Descartes quisesse provar que nada pode ser conhecido) ou associá-la, por engano, à observação empírica de casos particulares.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a dúvida é um meio, não um fim — ela serve para eliminar certezas falhas até restar uma verdade indubitável, que passa a funcionar como alicerce para reconstruir o conhecimento.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Racionalismo cartesiano: corrente que defende a razão — e não os sentidos — como fonte confiável de verdade. Descartes desconfia sistematicamente daquilo que vem da experiência sensível, por considerá-la enganosa.
- Dúvida metódica (ou hiperbólica): procedimento deliberado de suspeitar de tudo o que pode, em princípio, ser falso — os sentidos, o mundo material, até as verdades matemáticas — para eliminar qualquer crença incerta antes de reconstruir o saber.
- Cogito ergo sum ("penso, logo existo"): ao duvidar de absolutamente tudo, Descartes percebe que o próprio ato de duvidar/pensar não pode ser negado sem se autoafirmar. Essa é a primeira certeza absoluta, resistente a qualquer dúvida.
- Fundacionismo (ponto arquimediano): Descartes busca, à semelhança de Arquimedes pedindo um ponto de apoio para mover o mundo, um único ponto absolutamente certo sobre o qual reconstruir todo o edifício do conhecimento científico.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "exponho as razões pelas quais nós podemos duvidar de todas as coisas [...] particularmente das coisas materiais" → mostra que a dúvida cartesiana é radical e hiperbólica: atinge até o mundo físico, não apenas opiniões contestáveis.
- Evidência 2: "é absolutamente impossível que ele mesmo, o espírito, não exista" → o resultado da dúvida não é o niilismo (negar tudo), mas a descoberta de uma verdade que resiste a qualquer tentativa de negação: a existência do sujeito que pensa.
- Síntese: o movimento "duvidar de tudo → chegar a algo indubitável" revela que a dúvida, em Descartes, é instrumental: ela filtra o incerto até sobrar uma base sólida — e é exatamente essa base que permitirá reconstruir, com segurança, todo o conhecimento científico.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconstituindo o projeto cartesiano
Nas Meditações metafísicas, Descartes busca fundamentos seguros para as ciências, insatisfeito com o saber herdado da tradição escolástica e da experiência sensorial. Para isso, decide submeter todas as suas crenças a um teste radical: a dúvida hiperbólica. Ele chega a imaginar a hipótese de um "gênio maligno" capaz de enganá-lo em absolutamente tudo — inclusive em verdades que pareciam evidentes, como as matemáticas.
Subpasso 4.2 — O ponto de chegada: o cogito como certeza inabalável
Ao aplicar essa dúvida universal, Descartes nota algo que resiste a qualquer tentativa de negação: mesmo que um gênio maligno o engane em tudo, para ser enganado é preciso que exista algo que pensa e é enganado. Duvidar já é uma forma de pensar; logo, o próprio ato de duvidar comprova a existência de quem duvida. É esse raciocínio que sustenta o "penso, logo existo": a primeira verdade absolutamente certa do sistema cartesiano.
Subpasso 4.3 — Verificação: qual é a finalidade desse instrumento?
O "instrumento intelectual" citado no comando da questão é justamente o método da dúvida metódica. Segundo o próprio trecho — que vai da dúvida generalizada (1ª meditação) à certeza da existência do espírito (2ª meditação) —, sua função não é destruir o conhecimento, mas localizar uma verdade inabalável que sirva de alicerce, de ponto de partida, para reconstruir com segurança todo o edifício do saber científico. Essa conclusão converge exatamente com a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) identificar um ponto de partida para a consolidação de um conhecimento seguro.
✅ Correta: é precisamente essa a função da dúvida metódica — eliminar certezas falhas até encontrar uma verdade indubitável (o cogito), que passa a funcionar como fundamento (ponto de partida) para a reconstrução segura do conhecimento.
B) observar os eventos particulares para a formação de um entendimento universal.
❌ Incorreta: descreve o método indutivo característico do empirismo (como em Francis Bacon), que parte da observação de casos particulares para chegar a leis gerais. Descartes faz o caminho inverso: parte da razão pura e desconfia justamente dos dados fornecidos pelos sentidos.
C) analisar as necessidades humanas para a construção de um saber empírico.
❌ Incorreta: Descartes é racionalista, não empirista. Ele não parte de necessidades práticas nem valoriza a experiência sensível como critério de verdade; pelo contrário, coloca em suspeita justamente tudo o que provém da percepção sensorial.
D) estabelecer uma base cognitiva para assegurar a valorização da memória.
❌ Incorreta: o texto não trata de memória em nenhum momento. A certeza buscada por Descartes é uma evidência racional presente, dada no próprio ato de pensar "agora" — e não uma forma de preservar ou valorizar lembranças do passado.
E) investigar totalidades estruturadas para dotá-las de significação.
❌ Incorreta: essa descrição remete a abordagens estruturalistas ou hermenêuticas, voltadas à interpretação de sistemas culturais ou linguísticos como totalidades. É estranha ao projeto cartesiano, que é individual e analítico, centrado na certeza do sujeito pensante isolado, não na interpretação de estruturas coletivas.
🏆 Gabarito: A — a dúvida metódica cartesiana é um instrumento, não um fim em si mesma: sua finalidade é encontrar uma certeza inabalável (o cogito) que sirva de fundamento seguro para reconstruir todo o conhecimento.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A capta corretamente que a dúvida cartesiana é meio, não fim: ela serve para localizar um alicerce certo (o cogito) e, a partir dele, reconstruir o saber com segurança.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer trechos das Meditações metafísicas pedindo que o estudante identifique a função da dúvida metódica, o significado do cogito ou a oposição entre racionalismo e empirismo.
- Generalização: sempre que um texto descrever "duvidar de tudo para depois achar algo certo", trata-se da dúvida metódica cartesiana com função fundacionista — buscar uma certeza que sirva de base, e não negar o conhecimento de forma definitiva.
- Dica de eliminação rápida: se a alternativa menciona "observação", "experiência" ou "saber empírico" como fonte de verdade, elimine na hora — é o oposto do racionalismo cartesiano. Se fala em "memória" ou "totalidades estruturadas", também foge do tema central (certeza racional do cogito).
- Conexões: compare com o empirismo de Bacon, Locke e Hume (para quem o conhecimento nasce da experiência) e com o cogito ergo sum como marco fundador da filosofia moderna do sujeito.
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