Mapa de questões · 1º dia
Questão 40 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua.
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope,
a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a cola isenta, neutra,
mas a espuma, a gentileza,
a gripe, o contágio.
Porque a saliva
acalma um machucado.
As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.
CARPINEJAR, F. Como no céu. Rio de Janeiro: Bertrand Russel, 2005.
No texto predomina a função poética da linguagem, pois ele registra uma visão imaginária e singularizada de mundo, construída por meio do trabalho estético da linguagem. A função conativa também contribui para esse trabalho na medida em que o enunciador procura
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Funções da Linguagem (poética e conativa/apelativa)
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está em identificar a função conativa, mas em diferenciar seu efeito específico do efeito já atribuído à função poética no próprio enunciado
- 🎯 Tema/Habilidade: Funções da linguagem de Jakobson aplicadas à leitura de um poema; competência de articular forma estética e intenção comunicativa em texto literário
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Além da função poética (já explicada no enunciado), qual é o efeito específico da função conativa neste poema — o que o eu lírico busca provocar no leitor?"
- Palavras-chave decisivas: função conativa, enunciador, procura
- Armadilha típica: escolher uma alternativa que apenas repete a ideia de "visão ficcional/imaginária" — isso já pertence à função poética, citada no comando, e não responde ao que se pede sobre a função conativa.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a função conativa é centrada no receptor (o leitor) e atua tentando influenciá-lo, comovê-lo ou fazê-lo aderir a um ponto de vista — não apenas descrever o texto como imaginativo.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Função poética: centrada na própria mensagem, no "como se diz"; valoriza sonoridade, metáfora e construção estética. É o que já justifica, segundo o comando, a "visão imaginária e singularizada" do poema — como em "a letra tremendo como uma pálpebra".
- Função conativa (ou apelativa): centrada no receptor da mensagem; a linguagem busca convencer, orientar ou influenciar o comportamento e as emoções de quem lê. Marca-se por verbos de recomendação/opinião, imperativos ou construções valorativas.
- Funções da linguagem (Roman Jakobson): modelo comunicativo com seis funções — referencial, emotiva, conativa, fática, metalinguística e poética —, cada uma associada a um elemento do processo de comunicação (contexto, emissor, receptor, canal, código, mensagem). Um mesmo texto pode combinar mais de uma função, com uma predominando sobre as demais.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "As cartas de amor / deveriam ser fechadas / com a língua." → o verbo "deveriam", no futuro do pretérito com valor de recomendação, não descreve um fato: expressa uma opinião pessoal do eu lírico sobre como as coisas deviam ser, dirigida ao leitor.
- Evidência 2: "Não a cola isenta, neutra, / mas a espuma, a gentileza, / a gripe, o contágio." → contraposição de valores: o eu lírico desqualifica um gesto (colar com cola) e enaltece outro (selar com saliva), num movimento de persuasão que convida o leitor a compartilhar essa hierarquia de sentimentos.
- Evidência 3: "As cartas de amor / deveriam ser abertas / com os dentes." → o poema se fecha repetindo a mesma estrutura de opinião/recomendação com que se abriu, reforçando que o texto inteiro se organiza como a defesa de uma tese pessoal sobre o que uma carta de amor deveria ser.
- Síntese: o poema não só descreve uma cena imaginária (isso já é função poética, citada no comando) — ele também assume, do início ao fim, o tom de quem defende uma opinião pessoal sobre o amor, buscando adesão emocional do leitor. Esse é o traço da função conativa que a questão exige identificar.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o que já foi dado e o que ainda falta responder
O enunciado já afirma que a função poética predomina, responsável pela "visão imaginária e singularizada de mundo" construída pelo trabalho estético da linguagem (as metáforas do beijo, do sopro, da pálpebra). A pergunta pede o efeito adicional da função conativa. Logo, a alternativa certa não pode simplesmente redescrever essa visão ficcional — isso seria repetir o que o próprio comando já explicou sobre a função poética, e não responder ao que se pergunta.
Subpasso 4.2 — Localizar o mecanismo linguístico da função conativa
A função conativa se manifesta quando o emissor tenta agir sobre o receptor — informar não basta, é preciso persuadir. No poema, isso aparece na estrutura repetida do verbo modal "deveriam ser..." (logo no início e de novo no fechamento do texto). Esse recurso funciona como uma recomendação/opinião pessoal: o eu lírico não apenas relata como as cartas de amor são, mas afirma como elas deveriam ser fechadas e abertas, buscando que o leitor sinta e valorize o mesmo gesto afetivo que ele valoriza (a saliva, o contágio, a "gentileza" do corpo em contato com o papel).
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
Precisamos da alternativa que combine dois elementos: (1) tentativa de influenciar o leitor e (2) uso de opiniões pessoais sobre os sentimentos ligados à carta de amor. Isso corresponde exatamente à descrição da alternativa A. As demais alternativas falham em pelo menos um desses dois pontos, como se detalha no Passo 5.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) influenciar o leitor em relação aos sentimentos provocados por uma carta de amor, por meio de opiniões pessoais.
✅ Correta: o eu lírico usa a construção "deveriam ser..." — repetida na abertura e no fechamento do poema — como opinião pessoal sobre a forma "certa" de selar e abrir uma carta de amor, num apelo direto para que o leitor compartilhe essa visão emotiva. É o efeito clássico da função conativa: linguagem voltada para o receptor, buscando sua adesão.
B) definir com objetividade o sentimento amoroso e a importância das cartas de amor.
❌ Incorreta: contraria a própria natureza do texto, que é subjetivo, metafórico e sensorial ("a espuma, a gentileza, a gripe, o contágio"). Não há nenhuma tentativa de objetividade ou de definição fechada e conceitual do amor — pelo contrário, o poema evita a linguagem denotativa em favor da conotação.
C) alertar para consequências perigosas advindas de mensagens amorosas.
❌ Incorreta: não há qualquer menção a perigo, risco ou dano nas mensagens amorosas. A saliva, elemento central do poema, é associada à cura e ao afeto ("a saliva acalma um machucado"), não a uma ameaça a ser evitada.
D) esclarecer como devem ser escritas as mensagens sentimentais nas cartas de amor.
❌ Incorreta: o poema não tem caráter de manual instrutivo sobre redação de cartas; ele não ensina "como escrever" um texto sentimental, mas expressa, por meio de imagens corporais (língua, sopro, dentes), um desejo e uma opinião sobre o gesto físico e afetivo de selar e abrir a correspondência — o foco é o rito amoroso, não a técnica de escrita.
E) produzir uma visão ficcional do sentimento amoroso presente em cartas de amor.
❌ Incorreta: essa alternativa descreve a função poética — já apontada e explicada no próprio comando da questão como responsável pela "visão imaginária e singularizada de mundo" —, não o efeito específico que se pergunta sobre a função conativa. Escolhê-la é confundir as duas funções que o enunciado pede para diferenciar.
🏆 Gabarito: A — a função conativa se revela no uso repetido de "deveriam ser", que transforma a descrição poética em uma opinião pessoal dirigida ao leitor, buscando influenciá-lo quanto aos sentimentos que uma carta de amor deve provocar.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que liga o efeito da função conativa a um mecanismo textual concreto — a opinião pessoal reiterada por "deveriam" — e não à descrição da imagem poética, que já pertence a outra função citada no comando.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra funções da linguagem quase sempre atreladas a um gênero textual concreto (poema, propaganda, crônica, tirinha), pedindo que o candidato reconheça marcas linguísticas específicas — verbos modais de recomendação, imperativos, vocativos, pronomes de segunda pessoa — que indicam a função conativa/apelativa.
- Generalização: sempre que o eu lírico ou o autor usar verbos de opinião, recomendação ou comando dirigidos ao leitor ("deveria", "faça", "não deixe de"), há indício de função conativa — mesmo dentro de um texto predominantemente poético, já que mais de uma função pode coexistir no mesmo texto.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que soam objetivas ou instrucionais (B e D), pois contradizem qualquer texto de teor lírico e subjetivo; elimine em seguida a que foge do assunto do poema (C, sobre perigo); por fim, separe a alternativa que fala em "opinião pessoal para influenciar o leitor" (função conativa, focada no receptor) da que fala em "visão ficcional" (função poética, focada na mensagem) — a primeira é a resposta.
- Conexões: funções da linguagem de Jakobson aplicadas a diferentes gêneros; leitura de poesia lírica contemporânea brasileira; a função conativa como base dos textos publicitários e de campanhas de conscientização.
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