Mapa de questões · 1º dia
Questão 56 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
A produtividade ecológica articula-se com uma produtividade tecnológica, porque não se deve renunciar a todas as possibilidades da ciência e da técnica, e sim reencaminhar muitas delas para a construção desse novo paradigma produtivo. Essa construção social, porém, não pode ser guiada por um planejamento centralizado da tecnologia normatizada pela ecologia. A alma dessa nova economia humana são os valores culturais. Cada cultura dá significado a seus conhecimentos, a sua natureza, recriando-a e abrindo o fluxo de possibilidades de coevolução, articulando o pensamento humano com o potencial da natureza.
LEFF, E. Discursos sustentáveis. São Paulo: Cortez, 2010 (adaptado).
O paradigma produtivo apresentado no texto tem como base a harmonização entre tecnologia e ecologia e propõe uma sustentabilidade pautada no(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Ecologia política, sustentabilidade e saberes tradicionais
- ⚡ Nível: Médio — exige articular conceitos abstratos do texto (cultura, técnica, ecologia) sem se prender a palavras isoladas
- 🎯 Tema/Habilidade: Novos paradigmas de sustentabilidade e valorização do saber local (Competência de área que trata de sociedade, meio ambiente e desenvolvimento sustentável)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é o fundamento da sustentabilidade defendida pelo autor, que concilia tecnologia e ecologia em um novo paradigma produtivo?"
- Palavras-chave decisivas: valores culturais, cada cultura dá significado, planejamento centralizado
- Armadilha típica: confundir a crítica do autor ao "planejamento centralizado da tecnologia" com uma rejeição total da ciência, levando o candidato a marcar a alternativa do retorno a práticas arcaicas (E) ou a imaginar que a solução está em preservar a natureza sem intervenção humana (A).
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o texto elege a cultura — e, mais especificamente, o modo como cada comunidade constrói e ressignifica seu próprio conhecimento sobre a natureza — como o alicerce do novo paradigma produtivo sustentável.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ecologia política: campo de pensamento (representado aqui por Enrique Leff) que analisa a relação entre sociedade, poder e natureza, criticando modelos de desenvolvimento que ignoram as diferenças culturais e concentram decisões técnicas em instâncias centralizadas.
- Saber local/comunitário (saber tradicional): conjunto de conhecimentos, práticas e valores construídos historicamente por uma comunidade em sua relação direta com o território e os recursos naturais, muitas vezes transmitido oralmente e adaptado às condições específicas de cada lugar.
- Paradigma produtivo sustentável: modelo de produção que busca equilibrar avanço tecnológico e respeito aos limites ecológicos, mas que, segundo o texto, só se sustenta se ancorado em valores culturais — e não apenas em normas técnicas ou de mercado impostas de cima para baixo.
- Coevolução sociedade-natureza: ideia de que cultura e ambiente se transformam mutuamente ao longo do tempo, de modo que cada sociedade "recria" a natureza a partir de seus próprios significados, em vez de apenas explorá-la ou preservá-la de forma estática.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "não se deve renunciar a todas as possibilidades da ciência e da técnica, e sim reencaminhar muitas delas" → o autor não propõe abandonar a tecnologia, mas reorientá-la — isso já descarta qualquer leitura de "volta ao passado" ou rejeição da ciência.
- Evidência 2: "não pode ser guiada por um planejamento centralizado da tecnologia normatizada pela ecologia" → rejeita-se explicitamente qualquer modelo top-down, seja ele estatal, técnico ou de mercado, que padronize a solução ecológica de cima para baixo.
- Evidência 3: "A alma dessa nova economia humana são os valores culturais. Cada cultura dá significado a seus conhecimentos, a sua natureza, recriando-a" → aqui está o núcleo da resposta: é a cultura de cada comunidade — seu modo próprio de conhecer e significar a natureza — que sustenta o novo paradigma produtivo.
- Síntese: o texto constrói uma oposição entre, de um lado, modelos centralizados e homogeneizantes (sejam tecnocráticos, sejam de mercado) e, de outro, a diversidade de saberes culturais localizados. A "harmonização entre tecnologia e ecologia" só se realiza, para o autor, quando ancorada nesses saberes plurais e comunitários.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear a estrutura argumentativa do texto
O texto de Leff avança em três movimentos: primeiro, afirma que ciência e técnica não devem ser abandonadas, apenas redirecionadas para um novo paradigma produtivo; segundo, nega que esse paradigma possa nascer de um planejamento centralizado (ou seja, de uma regra única e geral aplicada de cima para baixo); terceiro, aponta a "alma" desse novo modelo: os valores culturais, que cada comunidade usa para dar sentido ao seu próprio conhecimento e à sua própria relação com a natureza.
Subpasso 4.2 — Conectar "valores culturais" a "saber local comunitário"
Quando o autor diz que "cada cultura dá significado a seus conhecimentos, a sua natureza, recriando-a", ele está descrevendo exatamente o que a Sociologia e a Antropologia ambiental chamam de saber local ou saber tradicional: o conhecimento que comunidades específicas (indígenas, ribeirinhas, camponesas, quilombolas, entre outras) desenvolvem sobre o manejo de seu território ao longo de gerações. Esse saber não é imposto externamente — ele nasce da própria cultura da comunidade, o que explica por que o texto rejeita o "planejamento centralizado": uma norma única não daria conta da diversidade de saberes que sustenta o novo paradigma.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando essa síntese com as alternativas, apenas a opção que fala em "respeito ao saber local comunitário" traduz com precisão a ideia de que a sustentabilidade proposta se apoia em conhecimentos culturais específicos de cada comunidade, e não em normas globais, em preservação absoluta da natureza ou em técnicas isoladas de cultivo. A alternativa C é, portanto, a única compatível com toda a cadeia de evidências levantada.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) ideia de natureza intocada.
❌ Incorreta: o texto fala em "recriar" a natureza a partir da cultura, isto é, em uma relação ativa e transformadora entre sociedade e ambiente — o oposto de uma natureza intocada, que pressuporia a ausência de intervenção humana.
B) lógica de mercado internacional.
❌ Incorreta: o mercado internacional funcionaria justamente como uma forma de padronização e centralização de regras econômicas globais, algo que o texto rejeita explicitamente ao negar que o novo paradigma possa ser "guiado por um planejamento centralizado".
C) respeito ao saber local comunitário.
✅ Correta: é exatamente o que o texto defende ao afirmar que "a alma dessa nova economia humana são os valores culturais" e que "cada cultura dá significado a seus conhecimentos, a sua natureza" — a sustentabilidade nasce do reconhecimento e valorização dos saberes específicos de cada comunidade.
D) desenvolvimento de cultivos orgânicos.
❌ Incorreta: é uma alternativa excessivamente específica e reducionista; o texto não trata de uma técnica agrícola isolada, mas de um paradigma produtivo amplo, fundado em valores culturais, que pode se manifestar em diferentes práticas — não apenas na agricultura orgânica.
E) retorno às práticas agrícolas arcaicas.
❌ Incorreta: o próprio texto descarta essa leitura ao afirmar que "não se deve renunciar a todas as possibilidades da ciência e da técnica" — o paradigma proposto reorienta a tecnologia, não a abandona em favor de um passado idealizado.
🏆 Gabarito: C — o texto ancora a harmonização entre tecnologia e ecologia nos valores culturais de cada comunidade, ou seja, no respeito ao saber local comunitário como base de um novo paradigma produtivo.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C traduz com fidelidade a ideia central do texto — que a sustentabilidade depende de valores e conhecimentos culturais próprios de cada comunidade, e não de normas técnicas centralizadas, de mercado ou de um retorno ao passado.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de autores da ecologia política (como Enrique Leff e, em outras edições, Boaventura de Sousa Santos) que contrapõem modelos de desenvolvimento tecnocráticos ou globalizados à valorização de saberes tradicionais, indígenas e comunitários como alternativa sustentável.
- Generalização: em questões sobre sustentabilidade, desconfie de alternativas que proponham soluções únicas e totalizantes (mercado global, planejamento estatal centralizado, retorno puro ao passado) quando o texto-base valoriza diversidade cultural, autonomia comunitária ou pluralidade de conhecimentos.
- Dica de eliminação rápida: ao ler termos como "cultura", "significado", "comunidade" ou "saberes" no texto, elimine imediatamente alternativas que remetam a centralização, mercado internacional ou práticas extremas (intocada/arcaica) — elas contradizem a lógica da diversidade defendida pelo autor.
- Conexões: o tema dialoga com agroecologia, etnociência e povos e comunidades tradicionais, além de aparecer com frequência em questões de Geografia sobre desenvolvimento sustentável e conflitos socioambientais.
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