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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 89ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia

Antes que a arte polisse nossas maneiras e ensinasse nossas paixões a falarem a linguagem apurada, nossos costumes eram rústicos. Não era melhor, mas os homens encontravam sua segurança na facilidade para se reconhecerem reciprocamente, e essa vantagem, de cujo valor não temos mais a noção, poupava-lhes muitos vícios.

ROUSSEAU, J.-J. Discurso sobre as ciências e as artes. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (adaptado).

No presente excerto, o filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) exalta uma condição que teria sido vivenciada pelo homem em qual situação?

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Moderna, Contratualismo e pensamento de Rousseau
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer o vocabulário característico de Rousseau e diferenciar "estado de natureza" de outros conceitos de filosofia política (comunidade, autogestão, monasticismo)
  • 🎯 Tema/Habilidade: O estado de natureza em Rousseau e a crítica ao artificialismo civilizatório — leitura e interpretação de texto filosófico
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Identifique em que situação histórico-filosófica Rousseau localiza a condição humana exaltada no trecho."
  • Palavras-chave decisivas: "antes que a arte polisse", "costumes rústicos", "reconhecerem reciprocamente"
  • Armadilha típica: confundir a "facilidade de reconhecimento recíproco" com vida comunitária organizada (alternativa B), quando o texto descreve o momento anterior a qualquer arranjo social refinado.
  • O que a resposta precisa demonstrar: associar o vocabulário do excerto (rusticidade, ausência de "arte", poucos vícios) ao conceito roussista de estado de natureza.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estado de natureza (Rousseau): condição hipotética, anterior à sociedade civil, em que o homem vive livre e sem as convenções e dissimulações que a vida em sociedade cria.
  • Mito do "bom selvagem": para Rousseau, o homem natural não é mau; é a sociedade — com a propriedade privada e o julgamento alheio — que corrompe sua bondade original.
  • Crítica às artes e às ciências: no Discurso sobre as ciências e as artes (1750), Rousseau argumenta que o refinamento cultural não aperfeiçoou a moral humana, mas a corrompeu, trocando a autenticidade por máscaras sociais.
  • Liberdade natural: independência em relação ao juízo e à vontade dos outros; é essa liberdade — e não a abundância material ou a vida comunitária — que Rousseau associa ao homem antes da civilização.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Antes que a arte polisse nossas maneiras..." → marca temporal explícita de um momento anterior ao desenvolvimento cultural e social refinado — pista direta para o estado de natureza.
  • Evidência 2: "nossos costumes eram rústicos. [...] os homens encontravam sua segurança na facilidade para se reconhecerem reciprocamente" → Rousseau não idealiza a rusticidade em si, mas valoriza a transparência entre os homens, sem os disfarces que a vida em sociedade impõe.
  • Evidência 3: "essa vantagem... poupava-lhes muitos vícios" → reafirma a tese central do autor: os vícios crescem com o avanço da civilização, não na ausência dela.
  • Síntese: o texto opõe um "antes" (rusticidade, transparência, poucos vícios) a um "depois" implícito (arte, refinamento, sociedade civil, mais vícios). Rousseau exalta o "antes" — o estado de natureza.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Situar o autor e a obra

O trecho pertence ao Discurso sobre as ciências e as artes, com que Rousseau venceu o concurso da Academia de Dijon em 1750, defendendo que o progresso das artes e das ciências não elevou a moral humana — pelo contrário, contribuiu para corrompê-la. A obra antecipa o argumento que Rousseau desenvolverá no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1755): a existência de um estado de natureza em que o homem era livre e não dependia do olhar alheio para se definir.

Subpasso 4.2 — Analisar o binômio natureza × civilização

O excerto constrói uma oposição temporal clara: "antes que a arte polisse nossas maneiras" versus o presente do enunciador, marcado pela "linguagem apurada" das paixões. Rousseau é cuidadoso ao afirmar que esse tempo anterior "não era melhor" em termos morais absolutos — não é apologia ingênua da rudeza —, mas destaca uma vantagem específica: a facilidade de reconhecimento recíproco entre os homens, isto é, a ausência de máscaras sociais. Essa transparência só é possível porque os homens ainda não estavam submetidos às convenções e julgamentos que a vida em sociedade organizada instaura. Trata-se da liberdade natural: existir sem precisar corresponder à expectativa e ao juízo do outro.

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando esse binômio com as alternativas, apenas a opção D nomeia corretamente o cenário ("estado de natureza") e o valor central em jogo ("liberdade"). As demais trazem categorias anacrônicas ou contraditórias ao sentido do texto, como detalhado no Passo 5.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) No sistema monástico, pela valorização da religião.

❌ Incorreta: o texto não faz referência a vida religiosa, clausura ou instituições monásticas. O "antes da arte" de Rousseau é um estado pré-social, não uma organização religiosa específica.

B) Na existência em comunidade, pela comunhão de valores.

❌ Incorreta: "comunhão de valores" pressupõe um arranjo social já constituído, com normas compartilhadas — exatamente o tipo de convenção que Rousseau situa depois do estado de natureza. A "facilidade de se reconhecerem reciprocamente" decorre da ausência de artifício, não de um pacto comunitário.

C) No modelo de autogestão, pela emancipação do sujeito.

❌ Incorreta: autogestão é um conceito de organização política e econômica ligado a debates socialistas e anarquistas dos séculos XIX-XX, estranho ao vocabulário contratualista do século XVIII usado por Rousseau. Não há menção a gestão coletiva de produção ou trabalho no excerto.

D) No estado de natureza, pelo exercício da liberdade.

✅ Correta: o excerto descreve a condição pré-civilizacional exaltada por Rousseau — o homem antes do "polimento" das artes, livre da dependência do julgamento alheio, o que lhe garantia transparência nas relações e o poupava de vícios. Essa é a liberdade natural, marca do estado de natureza roussista.

E) Na vida em sociedade, pela abundância de bens.

❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. Rousseau não elogia a vida em sociedade — é justamente ela, com seu refinamento artificial ("a arte polisse nossas maneiras"), que ele responsabiliza pelo aumento dos vícios. Também não há menção à abundância material no excerto.

🏆 Gabarito: D — Rousseau exalta o estado de natureza, no qual a ausência de convenções sociais refinadas garantia aos homens liberdade e transparência recíproca, poupando-os de muitos vícios que a vida civilizada viria a introduzir.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa D emprega o par conceitual correto — "estado de natureza" e "liberdade" —, coerente com o vocabulário e a lógica argumentativa do trecho de Rousseau.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra os contratualistas (Hobbes, Locke e Rousseau) pedindo que se identifique, a partir de um trecho original, qual concepção de estado de natureza está sendo descrita — cada autor tem uma visão distinta desse estado.
  • Generalização: sempre que um texto filosófico contrapuser um "antes" da sociedade/cultura a um "depois" marcado por convenções e refinamento, é forte indício de que o autor discute o estado de natureza e sua relação com a formação da sociedade civil.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com termos fora do repertório contratualista do século XVIII (monasticismo, autogestão) e as que contradizem o sentido crítico do texto em relação à sociedade civilizada (vida em sociedade, abundância de bens).
  • Conexões: compare com Hobbes, para quem o estado de natureza é a "guerra de todos contra todos", e com Locke, que o concebe como um estado de igualdade regido pela lei natural — ambos contrastam com a visão roussista de liberdade e ausência de vícios.

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