Mapa de questões · 1º dia
Questão 64 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Na América Latina, cerca de 40 milhões de pessoas, ou seja, 7% da população, não possuem água segura para o consumo humano, enquanto mais de 6% da população da região ainda praticam a defecação ao ar livre, com graves consequências sociais e ambientais. Essa problemática é mais frequente e mais complexa, como seria de se esperar, nas áreas semiáridas e desérticas, mas também se faz presente em regiões mais favorecidas em termos hidrológicos: a relação entre a disponibilidade natural de água e a satisfação das necessidades vitais da população não é de maneira alguma mecânica ou direta.
CASTRO, J. E.; HELLER, L.; MORAIS, M. P. O direito à água como política pública na América Latina:
uma exploração teórica e empírica. Brasília: Ipea, 2015 (adaptado).
A política pública capaz de solucionar o problema apresentado é:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Urbanização, infraestrutura urbana e políticas públicas de saneamento
- ⚡ Nível: Médio — exige relacionar um diagnóstico socioambiental (falta de água segura e saneamento) com a política pública capaz de resolvê-lo, e não apenas identificar o problema.
- 🎯 Tema/Habilidade: Saneamento básico como direito social e instrumento de redução das desigualdades socioespaciais (Competência de Área 5/6 do ENEM — dinâmica das populações e ação do Estado no espaço geográfico)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual política pública resolve, de fato, a falta de acesso à água segura e ao esgotamento sanitário na América Latina?"
- Palavras-chave decisivas: água segura, defecação ao ar livre, não é de maneira alguma mecânica ou direta
- Armadilha típica: confundir a causa aparente (escassez física de água) com a causa real (falta de infraestrutura e de gestão pública), escolhendo alternativas que tratam de água (proteção de mananciais, efluentes industriais) mas não do acesso da população aos serviços.
- O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que o problema é estrutural e social — de gestão e universalização de serviços públicos —, não meramente hidrológico ou ambiental isolado.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Água segura (safe water): água potável, disponível de forma contínua e acessível, sem risco de contaminação — não se refere apenas à existência de água no território, mas à sua entrega tratada e regular à população.
- Saneamento básico: conjunto de serviços públicos essenciais definidos pela legislação brasileira (Lei nº 11.445/2007 e Lei nº 14.026/2020) — abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e drenagem urbana. É um direito social ligado diretamente à saúde pública.
- Democratização do saneamento: universalizar o acesso a esses serviços para toda a população, especialmente periferias urbanas, áreas rurais e regiões de menor renda, corrigindo a desigualdade na distribuição da infraestrutura, e não apenas a disponibilidade "natural" de água.
- Defecação a céu aberto: indicador clássico de ausência de rede de esgoto e de política de saneamento; está diretamente associado a doenças de veiculação hídrica (diarreia, hepatite A, verminoses), mortalidade infantil e degradação ambiental de rios e lençóis freáticos.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "7% da população não possuem água segura" e "mais de 6% ... praticam a defecação ao ar livre" → o texto apresenta dois indicadores complementares de precariedade em saneamento básico: falta de água tratada E falta de esgotamento sanitário.
- Evidência 2: "essa problemática é mais frequente ... nas áreas semiáridas e desérticas, mas também se faz presente em regiões mais favorecidas em termos hidrológicos" → o autor descarta explicitamente a explicação puramente física (disponibilidade de água na natureza) como causa suficiente do problema.
- Evidência 3: "a relação entre a disponibilidade natural de água e a satisfação das necessidades vitais da população não é de maneira alguma mecânica ou direta" → frase-chave: o problema não é geográfico-hídrico, é político-institucional — depende de investimento, gestão e universalização de serviços, isto é, de política pública de saneamento.
- Síntese: o texto constrói deliberadamente a ideia de que ter água no território não garante acesso da população a ela; o elo que falta é a infraestrutura pública de captação, tratamento, distribuição e coleta de esgoto — ou seja, a solução está na universalização (democratização) do saneamento básico, não em ações pontuais sobre o meio ambiente ou a economia.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a natureza do problema
O enunciado apresenta dois sintomas de um mesmo problema estrutural: (1) 7% da população latino-americana sem água segura e (2) mais de 6% praticando defecação a céu aberto. Ambos são indicadores oficiais usados por organismos como OMS/UNICEF (programa JMP) para medir cobertura de saneamento básico — não indicadores de escassez hídrica natural.
Subpasso 4.2 — Aplicar a chave interpretativa dada pelo próprio texto
O texto é enfático ao afirmar que a relação entre "disponibilidade natural de água" e "satisfação das necessidades vitais" não é mecânica nem direta. Isso elimina, de saída, qualquer alternativa que trate a água como recurso natural a ser protegido ou gerido ambientalmente (ex.: proteção de mananciais), pois o problema central não é a quantidade de água disponível na natureza, e sim o acesso da população aos serviços de captação, tratamento, distribuição e coleta/tratamento de esgoto.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando a alternativa que resolve simultaneamente os dois sintomas citados (falta de água segura E defecação ao ar livre): apenas uma política de universalização (democratização) do saneamento básico ataca as duas pontas ao mesmo tempo, pois saneamento básico, por definição legal e técnica, engloba tanto o abastecimento de água tratada quanto o esgotamento sanitário. Nenhuma outra alternativa cobre as duas dimensões citadas no texto — confirmando a convergência para a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Subsidiar a saúde privada.
❌ Incorreta: trata-se de uma política assistencial e curativa (tratar doenças já instaladas), não uma política de infraestrutura preventiva. Subsidiar a saúde privada, além de não universalizar o acesso a serviços básicos, não elimina a causa raiz — a ausência de água tratada e de rede de esgoto — apenas mitigaria, para quem tem acesso a plano de saúde, alguns efeitos colaterais do problema.
B) Tratar os efluentes industriais.
❌ Incorreta: essa política ataca apenas uma fonte específica de poluição hídrica (indústrias), mas não resolve a falta de acesso da população a água potável nem a ausência de rede de coleta de esgoto doméstico, que é a causa direta da defecação a céu aberto mencionada no texto. É uma medida ambiental pontual, não uma política estruturante de saneamento.
C) Proteger os mananciais de rios.
❌ Incorreta: é exatamente a alternativa que cai na armadilha da "relação mecânica" que o texto rejeita — preservar a fonte natural de água não garante que ela chegue tratada às casas da população nem resolve o esgotamento sanitário. O texto afirma explicitamente que o problema persiste mesmo em "regiões mais favorecidas em termos hidrológicos", ou seja, mesmo onde os mananciais são abundantes.
D) Promover a oferta de empregos.
❌ Incorreta: geração de emprego pode, indiretamente, elevar a renda familiar em longo prazo, mas não é a política pública diretamente responsável por levar água tratada e coleta de esgoto às residências. O texto trata de uma falha de infraestrutura e de política setorial de saneamento, não de uma questão de renda ou emprego.
E) Democratizar o saneamento básico.
✅ Correta: é a única alternativa que ataca diretamente e ao mesmo tempo os dois problemas citados no texto — falta de água segura e defecação ao ar livre —, pois saneamento básico compreende o abastecimento de água potável e o esgotamento sanitário como um sistema integrado. Democratizá-lo significa universalizar esse acesso para as populações hoje excluídas, corrigindo a desigualdade socioespacial que o texto denuncia, independentemente da disponibilidade natural de água na região.
🏆 Gabarito: E — democratizar o saneamento básico é a única política que resolve, de forma integrada e universal, tanto a falta de água segura quanto a ausência de esgotamento sanitário descritas no texto.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa E é a única que corresponde a uma política pública de infraestrutura universal, capaz de resolver simultaneamente os dois sintomas apresentados no texto-base (água insegura e defecação a céu aberto), respeitando a premissa do próprio autor de que o problema não é hidrológico, mas de gestão e acesso.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra textos de organismos como Ipea, ONU-Habitat e OMS sobre desigualdade socioespacial no acesso a serviços urbanos (água, esgoto, moradia, transporte), sempre pedindo a política pública "estrutural" e não a resposta assistencialista ou pontual.
- Generalização: em questões de política pública, elimine primeiro as alternativas que tratam apenas de UM aspecto do problema ou de sintomas indiretos (saúde, emprego, meio ambiente pontual) e procure a alternativa que ataca a causa estrutural citada explicitamente no enunciado.
- Dica de eliminação rápida: sempre que o texto disser algo como "a causa não é [X] de forma direta/mecânica", elimine imediatamente qualquer alternativa que reforce essa causa aparente (aqui, "proteger mananciais" cai nessa armadilha); depois, busque a alternativa que cobre TODOS os sintomas citados (água + esgoto), não apenas um deles.
- Conexões: compare com questões sobre segregação socioespacial e direito à cidade (ENEM 2015, 2017), e com o tema de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 6 — Água Potável e Saneamento) da Agenda 2030 da ONU, frequentemente usado como referência em textos motivadores de Geografia e Sociologia.
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