Mapa de questões · 1º dia
Questão 54 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Aquilo que é quente necessita de umidade para viver, e o que é morto seca, e todos os germes são úmidos, e todo alimento é cheio de suco; ora, é natural que cada coisa se nutra daquilo de que provém.
SIMPLÍCIO. In: BORNHEIM, G. A. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1993.
O fragmento atribuído ao filósofo Tales de Mileto é característico do pensamento pré-socrático ao apresentar uma
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia pré-socrática (cosmologia e physis)
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, em um texto denso e indireto (relato de Simplício sobre Tales), o vocabulário técnico da filosofia da natureza sem que a palavra "physis" apareça explicitamente.
- 🎯 Tema/Habilidade: A passagem do mito ao lógos: explicação racional da origem da physis (H6/H8 — compreender e comparar diferentes explicações sobre a origem e a organização do mundo, do ser humano e da sociedade).
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que esse fragmento sobre Tales de Mileto revela sobre o tipo de pensamento típico dos filósofos pré-socráticos?"
- Palavras-chave decisivas: pré-socrático, característico, umidade/água como princípio explicativo
- Armadilha típica: confundir o vocabulário técnico da filosofia grega — tratar o texto como "religioso" (C) ou "mítico/poético" (D) só porque fala de vida, nascimento e morte, sem perceber que a explicação é causal e naturalista, não sobrenatural.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende o marco fundador da filosofia ocidental — a substituição do mythos (explicação por deuses e narrativas fantásticas) pelo lógos (explicação racional, argumentativa, baseada na observação da natureza) — e sabe nomear esse objeto de investigação: a physis, ou seja, a origem e a natureza de todas as coisas.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Filosofia pré-socrática (ou filosofia da natureza): primeira fase da filosofia grega (séculos VII-V a.C.), cujo objeto central de investigação é a physis — a origem, a constituição e as transformações do mundo natural. Também chamados de "filósofos da physis" ou fisiólogos.
- Mito x Lógos: o mito explica o mundo por meio de narrativas com deuses, vontades e forças personificadas, sem exigir comprovação; o lógos busca uma explicação racional, coerente e passível de argumentação, fundada na observação de fenômenos naturais recorrentes (chuva, evaporação, nascimento, morte).
- Tales de Mileto: considerado o "pai da filosofia", da escola jônica (Mileto, Ásia Menor). Sua tese central é que a água (ou o úmido) é o arché — o princípio, a origem e o elemento fundamental de todas as coisas.
- Arché: conceito-chave dos pré-socráticos; é o elemento ou princípio original do qual tudo deriva e ao qual tudo retorna. Cada filósofo jônico propôs um arché diferente (Tales: água; Anaxímenes: ar; Heráclito: fogo).
- Simplício: comentarista neoplatônico do século VI d.C. que preservou, em seus comentários a Aristóteles, fragmentos e testemunhos indiretos de filósofos pré-socráticos cujas obras originais se perderam — por isso o enunciado é uma citação de segunda mão sobre Tales.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Aquilo que é quente necessita de umidade para viver, e o que é morto seca" → observação empírica e generalizável de fenômenos naturais (calor, secura, morte), usada como premissa de um raciocínio — não como narrativa mítica.
- Evidência 2: "todos os germes são úmidos, e todo alimento é cheio de suco" → acúmulo de exemplos concretos do mundo natural (germinação, nutrição) que sustentam, por indução, a tese geral sobre a umidade como condição da vida.
- Evidência 3: "é natural que cada coisa se nutra daquilo de que provém" → conclusão causal explícita: existe uma relação de origem e continuidade entre o princípio (o úmido/água) e tudo o que existe — é a formulação do arché aplicado à explicação da vida.
- Síntese: o texto encadeia observações da natureza em um argumento lógico (premissas → conclusão) para explicar de onde vêm as coisas e por que elas se comportam como se comportam. Não há deuses, não há vontade divina, não há narrativa fantástica: há um raciocínio sobre causas naturais. Isso é exatamente a marca registrada do pensamento pré-socrático: a explicação racional da physis.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero do discurso
O primeiro movimento é classificar que tipo de texto está diante do candidato. Ele não é uma prece, não invoca uma divindade, não narra uma criação por seres sobrenaturais (o que descartaria, desde já, qualquer leitura "religiosa" ou "mítica" pura). Em vez disso, o texto apresenta uma estrutura de raciocínio: observações sobre calor, umidade, morte e nutrição são encadeadas para sustentar uma tese geral. Isso já indica um discurso argumentativo — o lógos — e não um discurso mítico — o mythos.
Subpasso 4.2 — Relacionar o conteúdo à tese de Tales
Sabendo que o fragmento é atribuído a Tales de Mileto, o passo seguinte é lembrar que a filosofia desse pensador é conhecida, sobretudo, por uma afirmação: a água é o princípio (arché) de todas as coisas. O trecho reforça exatamente essa tese, mas por um caminho indutivo: tudo que vive precisa de umidade; tudo que morre seca; germes e alimentos são úmidos; logo, a umidade (associada à água) está na origem e na sustentação da vida. Esse é o núcleo do pensamento fisiológico pré-socrático — buscar, na própria natureza, o elemento originário (physis) que explica a existência e a transformação de todas as coisas, sem recorrer a explicações sobrenaturais.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando essa leitura com as alternativas, apenas uma reproduz com precisão os dois elementos centrais identificados: (1) o caráter racional (não mítico, não religioso, não poético) da explicação e (2) o objeto dessa explicação, que é a origem e a transformação da physis — isto é, do mundo natural, da vida e da matéria. Essa combinação exata aparece na alternativa E. As demais alternativas erram ou o critério (tornam o texto epistemológico, científico-metodológico, religioso ou poético) ou o objeto (deslocam o foco do mundo natural para o conhecimento em si, para a moral humana ou para os mitos cosmogônicos).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) abordagem epistemológica sobre o lógos e a fundamentação da metafísica.
❌ Incorreta: a epistemologia (teoria do conhecimento, "como sabemos o que sabemos") e a metafísica enquanto disciplina sistemática são preocupações que ganham corpo mais tarde, sobretudo com Sócrates, Platão e Aristóteles. Tales não discute os limites ou a natureza do conhecimento humano; ele propõe uma explicação sobre a origem física do mundo. Confundir "usar o lógos" (raciocínio racional) com "fazer epistemologia" (teorizar sobre o conhecimento) é o erro conceitual aqui — todo pré-socrático usa o lógos, mas nem todo uso do lógos é epistemologia.
B) teoria crítica sobre a essência e o método do conhecimento científico.
❌ Incorreta: não existe, no texto, qualquer reflexão sobre método científico, sobre como validar ou criticar conhecimentos, ou sobre a "essência do conhecimento". O texto apresenta uma tese sobre o mundo natural (a água como origem da vida), não uma teoria sobre como o conhecimento científico deve ser produzido ou avaliado — isso é anacrônico para o século VI a.C.
C) justificação religiosa sobre a existência e as contradições humanas.
❌ Incorreta: é o oposto exato do que caracteriza o pensamento pré-socrático. A grande ruptura promovida por Tales e seus sucessores é justamente abandonar explicações religiosas (baseadas em deuses e vontades sobrenaturais) em favor de explicações naturais e racionais. Não há qualquer menção a divindades, culto ou justificação teológica no fragmento — há observação da natureza e inferência lógica.
D) elaboração poética sobre os mitos e as narrativas cosmogônicas.
❌ Incorreta: cosmogonias (como a de Hesíodo, em "Teogonia") narram a origem do mundo por meio de genealogias divinas e eventos fabulosos, em linguagem poética. O texto de Tales, ao contrário, não narra uma história com personagens ou eventos miríficos: ele argumenta, a partir de observações recorrentes (secura, umidade, nutrição), em prosa explicativa e não em verso ou narrativa mítica.
E) explicação racional sobre a origem e a transformação da physis.
✅ Correta: o fragmento encadeia observações naturais em um raciocínio causal para sustentar que a umidade (a água, elemento associado a Tales) está na origem e na manutenção de tudo que existe — dos seres vivos ao alimento. Essa é exatamente a marca definidora da filosofia pré-socrática: a investigação racional da physis, isto é, da natureza, sua origem e suas transformações, sem recurso a explicações religiosas ou míticas.
🏆 Gabarito: E — o texto de Tales exemplifica a passagem do mito ao lógos ao explicar racionalmente, a partir da observação da natureza, a origem (arché) e as transformações da physis, sem qualquer apelo a deuses ou narrativas fantásticas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra E é a única que une corretamente os dois elementos exigidos pela questão — o método (explicação racional) e o objeto (a physis, a natureza em sua origem e transformação) — que são, juntos, a definição operacional de "pensamento pré-socrático".
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra fragmentos de pré-socráticos (Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Pitágoras) pedindo que o estudante identifique a busca por um princípio (arché) explicativo da natureza, contrastando-a com explicações míticas ou religiosas anteriores.
- Generalização: sempre que um texto de filósofo pré-socrático falar em elementos da natureza (água, ar, fogo, número) como origem de tudo, a resposta esperada gira em torno de "explicação racional/naturalista da physis" — é praticamente um gabarito-modelo para essa fase da filosofia.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que mencione "religião", "mito" ou "poesia" de forma positiva — isso é exatamente o que os pré-socráticos estavam superando. Elimine também alternativas com vocabulário de teoria do conhecimento ("epistemologia", "método científico") quando o texto trata claramente de fenômenos naturais concretos, não de reflexão sobre o próprio conhecer.
- Conexões: compare com fragmentos de Heráclito (o fogo e o devir) ou de Anaximandro (o ápeiron, o indeterminado) — todos compartilham a mesma estrutura de resposta: investigação racional da physis como marca do nascimento da filosofia ocidental.
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