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HumanasHistóriaMédio

Questão 68ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia

Nas cidades, os agentes sociais que se rebelavam contra o arbítrio do governo também eram proprietários de escravos. Levavam seu protesto às autoridades policiais pelo recrutamento sem permissão. Conseguimos levantar, em ocorrências policiais de 1867, na Província do Rio de Janeiro, 140 casos de escravos aprisionados e remetidos à Corte para serem enviados aos campos de batalha.

SOUSA, J. P. Escravidão ou morte: os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Mauad; Adesa, 1996.

Desconstruindo o mito dos “voluntários da pátria”, o texto destaca o descontentamento com a mobilização para a Guerra do Paraguai expresso pelo grupo dos

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Império, Guerra do Paraguai e sociedade escravista
  • ⚡ Nível: Médio — exige articular um texto historiográfico específico com o funcionamento econômico da escravidão, e não apenas conhecimento factual da guerra
  • 🎯 Tema/Habilidade: Guerra do Paraguai e o mito dos "voluntários da pátria" — competência de leitura crítica de fonte histórica (H14/H19 da matriz do ENEM, análise de processos sociais e relações de poder)
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo o texto, qual grupo social protestava contra o recrutamento forçado para a Guerra do Paraguai, e por qual motivo?"
  • Palavras-chave decisivas: proprietários de escravos, recrutamento sem permissão, desconstruindo o mito
  • Armadilha típica: confundir quem protesta (o senhor, dono do escravo) com quem sofre o recrutamento (o próprio escravo) — a pergunta quer o sujeito do descontentamento narrado no texto, não a vítima direta da guerra
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar, na fonte historiográfica, que o protesto partia dos senhores de escravos e que sua motivação era de ordem patrimonial (perda de um bem/investimento), não humanitária

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Mito dos "voluntários da pátria": narrativa oficial do Segundo Reinado que apresentava o recrutamento para a Guerra do Paraguai (1864-1870) como um movimento espontâneo e patriótico da população; a historiografia contemporânea desmonta esse mito mostrando coerção, fuga, automutilação e resistência generalizada ao alistamento.
  • Escravo como propriedade e capital: no Brasil escravista do século XIX, o cativo era juridicamente um bem móvel — um investimento produtivo do senhor, equivalente a um ativo econômico. Qualquer uso do escravo pelo Estado sem indenização representava prejuízo direto ao patrimônio do proprietário.
  • Recrutamento de escravos para a guerra: diante da escassez de "voluntários" livres, o governo recorreu ao alistamento (muitas vezes forçado) de escravos, prometendo-lhes alforria em troca do serviço militar — o que gerava conflito de interesse direto com os senhores, que perdiam mão de obra sem compensação satisfatória.
  • Fontes policiais como documento histórico: os registros de "ocorrências policiais" citados no texto são fontes primárias que revelam o cotidiano dos conflitos sociais — aqui, mostram que era o senhor, e não o escravo, quem acionava a polícia para reaver sua "propriedade" recrutada.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "os agentes sociais que se rebelavam contra o arbítrio do governo também eram proprietários de escravos" → identifica explicitamente o sujeito do protesto: não é o escravo, é o senhor de escravos.
  • Evidência 2: "Levavam seu protesto às autoridades policiais pelo recrutamento sem permissão" → o verbo "recrutamento sem permissão" indica que o problema, do ponto de vista do senhor, era o Estado ter levado o escravo sem autorização do dono — uma questão de propriedade violada, não de compaixão pelo cativo.
  • Evidência 3: "140 casos de escravos aprisionados e remetidos à Corte para serem enviados aos campos de batalha" → reforça que o conflito girava em torno da apropriação do escravo pelo Estado, tema recorrente o suficiente para gerar 140 registros policiais em um único ano e província.
  • Síntese: as três evidências convergem para o mesmo sujeito histórico — o senhor de escravos — e para o mesmo motivo — a perda do escravo enquanto bem econômico, sem compensação adequada. O texto usa esse dado exatamente para "desconstruir o mito dos voluntários da pátria", mostrando que a mobilização gerava resistência inclusive entre a elite senhorial, e não apenas entusiasmo patriótico.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o sujeito gramatical e histórico do protesto

O texto é claro ao definir quem protesta: "os agentes sociais que se rebelavam contra o arbítrio do governo também eram proprietários de escravos". Isso elimina de imediato qualquer alternativa que aponte o próprio escravo, um religioso ou um militar como o grupo descontente citado na fonte. O sujeito histórico do protesto é o senhor de escravos, membro da elite proprietária.

Subpasso 4.2 — Determinar a motivação do protesto

A motivação não é apresentada como humanitária ou moral — o texto não menciona preocupação do senhor com o destino do escravo em combate. A queixa registrada nas ocorrências policiais é objetiva e patrimonial: o "recrutamento sem permissão", ou seja, o Estado retirou um bem (o escravo) do domínio do proprietário sem seu consentimento e sem indenização compatível. Em uma economia escravista, o escravo é força de trabalho capitalizada; recrutá-lo para a guerra equivale a confiscar um investimento produtivo, gerando prejuízo direto ao senhor.

Subpasso 4.3 — Verificação: cruzar a leitura com o objetivo declarado do texto

O enunciado afirma que o texto busca "desconstruir o mito dos voluntários da pátria". Esse mito supunha adesão voluntária e patriótica de toda a sociedade, incluindo a elite. Ao mostrar que até os senhores de escravos — setor mais beneficiado pela ordem social vigente — recorriam à polícia para reclamar do recrutamento, o historiador comprova que a mobilização gerou atrito mesmo entre os grupos dominantes, e por um motivo essencialmente econômico: a perda do investimento em mão de obra escrava. Essa leitura fecha com precisão na alternativa E.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) pais, pela separação forçada dos filhos.

❌ Incorreta: o texto não menciona relações de parentesco, filhos ou separação familiar em nenhum momento. Essa alternativa tenta associar "recrutamento forçado" a um drama familiar genérico, mas não há qualquer evidência textual que sustente esse recorte — é uma inferência sem base na fonte citada.

B) cativos, pelo envio compulsório ao conflito.

❌ Incorreta: inverte o sujeito do protesto. Os cativos (escravos) são o objeto do recrutamento, não os agentes que se dirigem às autoridades policiais para reclamar. O texto atribui explicitamente a ação de protestar aos "proprietários de escravos", não aos próprios escravos, que sequer tinham acesso institucional para formalizar queixas contra o Estado.

C) religiosos, pela diminuição da frequência aos cultos.

❌ Incorreta: o texto não trata de religião, clero ou práticas de culto. Essa alternativa é estranha ao conteúdo da fonte e serve apenas como distrator temático, sem qualquer ancoragem no trecho apresentado.

D) oficiais, pelo despreparo militar dos novos recrutas.

❌ Incorreta: o texto não discute qualidade técnica ou preparo militar dos recrutas, tampouco menciona queixas de oficiais do Exército. O foco da fonte é o conflito entre senhores e o Estado pela posse do escravo, não uma crítica de ordem estritamente militar.

E) senhores, pela perda do investimento em mão de obra.

✅ Correta: é exatamente o que o texto descreve — proprietários de escravos ("senhores") protestando às autoridades policiais porque o Estado recrutava seus cativos "sem permissão". Como o escravo era juridicamente um bem econômico do senhor, seu recrutamento compulsório representava perda de capital e de força de trabalho, motivo concreto e documentado (140 casos policiais) do descontentamento relatado pela fonte.

🏆 Gabarito: E — o texto atribui o protesto aos proprietários de escravos, motivados pela perda patrimonial da mão de obra cativa recrutada sem autorização, e é exatamente esse recorte econômico-social que desconstrói o mito da adesão voluntária e patriótica à Guerra do Paraguai.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E reproduz com fidelidade o sujeito (senhores de escravos) e o motivo (perda do investimento em mão de obra) explicitados na fonte historiográfica citada.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a desconstrução de mitos históricos oficiais (como o do "voluntariado patriótico" na Guerra do Paraguai) a partir de fontes primárias ou historiográficas, exigindo que o estudante identifique com precisão quem fala, o que diz e por quê — sem projetar interpretações externas ao texto.
  • Generalização: em questões de interpretação de fonte histórica, a resposta correta é sempre a que replica com mais fidelidade o sujeito e a motivação explícitos no trecho — nunca a alternativa "plausível" que soa coerente com o contexto histórico geral, mas não está de fato no texto.
  • Dica de eliminação rápida: releia a primeira frase do texto: ela já nomeia o sujeito ("proprietários de escravos"). Toda alternativa que não mencione senhores/proprietários pode ser descartada em segundos (A, C, D); entre as duas restantes, escolha a que aponta motivação patrimonial/econômica (E), pois o verbo-chave é "recrutamento sem permissão", isto é, sem autorização do dono — não sofrimento do próprio escravo (B).
  • Conexões: compare com temas como a Lei do Ventre Livre (1871) — aprovada em parte como resposta política ao desgaste da guerra sobre a instituição escravista — e com o papel da Guerra do Paraguai na crise final do Segundo Reinado e no fortalecimento do movimento abolicionista.

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