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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 22ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia

Epitáfio

Devia ter amado mais

Ter chorado mais

Ter visto o sol nascer

Devia ter arriscado mais

E até errado mais

Ter feito o que eu queria fazer

Queria ter aceitado

As pessoas como elas são

Cada um sabe a alegria

E a dor que traz no coração

[…]

Devia ter complicado menos

Trabalhado menos

Ter visto o sol se pôr

Devia ter me importado menos

Com problemas pequenos

Ter morrido de amor

BRITTO, S. A melhor banda de todos os tempos da última semana. Rio de Janeiro: Abril Music, 2001 (fragmento).

O gênero epitáfio, palavra que significa uma inscrição colocada sobre lápides, tem a função social de homenagear os mortos. Nesse texto, a apropriação desse gênero no título da letra da canção cria o efeito de

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto e gêneros textuais (letra de música)
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer que o gênero "epitáfio" foi ressignificado pelo eu lírico, e não usado em seu sentido literal de homenagem fúnebre
  • 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido decorrentes da apropriação/subversão de um gênero textual em outro contexto de produção
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Por que a letra da canção se intitula 'Epitáfio' (gênero que homenageia mortos) se o texto fala de arrependimentos de quem ainda está vivo?"
  • Palavras-chave decisivas: epitáfio, apropriação, efeito
  • Armadilha típica: parar na definição literal de epitáfio ("homenagem a quem morreu") e marcar a alternativa que só repete esse conceito de dicionário, sem checar se ele realmente se aplica ao conteúdo do poema-canção
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o título cria um efeito de sentido novo — o eu lírico usa a estrutura do epitáfio (balanço de uma vida) não para louvar um morto, mas para expressar tudo o que faria diferente se pudesse recomeçar

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Epitáfio (gênero): texto curto, geralmente em prosa ou verso, gravado em lápides, que resume ou celebra a vida de quem morreu. Convencionalmente tem função de homenagem e despedida.
  • Apropriação de gênero: recurso em que um autor usa a forma ou o nome de um gênero conhecido, mas altera sua função original, criando um efeito de sentido inesperado (ironia, reflexão, crítica, urgência).
  • Modo verbo condicional/pretérito ("devia ter", "queria ter"): construção que expressa arrependimento e desejo de mudança sobre ações passadas — sinaliza que o eu lírico está fazendo um balanço de vida em busca de correção de rota, não uma despedida definitiva.
  • Intertextualidade e paratexto (o título): o título de uma obra funciona como uma "moldura" que orienta a leitura; ao chamá-la de "Epitáfio", o autor provoca o leitor a reler o conteúdo à luz da ideia de morte/balanço final, mesmo que o texto não seja, de fato, uma inscrição tumular.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Devia ter amado mais / Ter chorado mais / Ter visto o sol nascer" → verbos no pretérito composto com "devia ter" indicam ação que não foi feita e que o eu lírico gostaria de ter realizado — é lamento, não elogio de conquistas.
  • Evidência 2: "Queria ter aceitado / As pessoas como elas são" → reforça o desejo de ter agido de outro modo, revelando uma reflexão sobre escolhas de vida, não um resumo de méritos do falecido como em um epitáfio tradicional.
  • Evidência 3 (enunciado da prova): "a apropriação desse gênero no título da letra da canção cria o efeito de..." → a própria banca avisa que houve apropriação, ou seja, um desvio da função original do gênero — a resposta certa precisa nomear esse desvio, não a função clássica do epitáfio.
  • Síntese: o título "Epitáfio" empresta do gênero fúnebre a ideia de "balanço final de uma vida", mas o conteúdo do texto é todo construído em verbos que expressam o que "devia" e "queria" ter sido feito e não foi — ou seja, o efeito criado é o de um desejo de reverter atitudes do passado, como se a canção fosse um alerta para viver diferente antes que seja tarde.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a função tradicional do epitáfio

O enunciado já define o gênero: inscrição em lápide que homenageia quem morreu. Essa é a expectativa que o título cria no leitor antes mesmo de ler a letra.

Subpasso 4.2 — Confrontar a expectativa do gênero com o conteúdo real do texto

Ao ler a canção, percebe-se que não há elogio a uma pessoa morta, nem descrição de feitos ou virtudes de alguém que se foi. Em vez disso, o texto é organizado em torno de uma estrutura repetida: "Devia ter [verbo] mais/menos" e "Queria ter [verbo]". Essa estrutura gramatical — pretérito + infinitivo composto — é típica de arrependimento sobre o que não foi feito, funcionando como um inventário de atitudes que o eu lírico gostaria de mudar.

Subpasso 4.3 — Verificação: qual efeito de sentido nasce desse contraste?

O título "Epitáfio" sugere, à primeira vista, uma reflexão sobre uma vida encerrada. Mas o conteúdo revela uma vida em curso que deseja se corrigir: menos preocupação com "problemas pequenos", mais tempo para "ver o sol nascer" e "morrer de amor". O efeito, portanto, não é o de celebrar alguém que já morreu (isso seria o uso literal do gênero), mas o de convocar o leitor/ouvinte a repensar suas próprias escolhas — um apelo à mudança de atitude, como se o texto dissesse "não espere para agir assim; faça-o agora". Esse é exatamente o efeito de expressar desejo de reversão de atitudes, confirmando a alternativa B.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) destacar a importância de uma pessoa falecida.

❌ Incorreta: pressupõe uso literal do epitáfio como homenagem a um morto específico; o texto não fala de terceiros nem de alguém que faleceu — é uma reflexão em primeira pessoa sobre a própria vida.

B) expressar desejo de reversão de atitudes.

✅ Correta: os verbos "devia ter" e "queria ter", repetidos ao longo de toda a letra, constroem um discurso de arrependimento que aponta para o desejo de agir diferente — de reverter as escolhas do passado (ter amado mais, arriscado mais, complicado menos). É esse deslocamento do sentido fúnebre do epitáfio para um apelo à mudança de comportamento que caracteriza a apropriação do gênero.

C) registrar as características pessoais.

❌ Incorreta: o texto não descreve traços de personalidade ou identidade de alguém; ele lista ações que não foram realizadas, não qualidades ou características.

D) homenagear as pessoas sepultadas.

❌ Incorreta: repete o sentido convencional do gênero epitáfio (função de homenagem fúnebre), exatamente o que o enunciado pede para superar ao falar em "apropriação"; não há qualquer menção a pessoas mortas no corpo da letra.

E) sugerir notações para lápides.

❌ Incorreta: confunde o título figurado da canção com uma proposta literal de frases para túmulos; a letra não oferece modelos de inscrições tumulares, e sim uma reflexão pessoal sobre como viver.

🏆 Gabarito: B — o título "Epitáfio" é apropriado de forma figurada: em vez de homenagear um morto, a canção usa a estrutura de balanço de vida do gênero para expressar o desejo do eu lírico de ter agido diferente, criando um efeito de reversão de atitudes.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa B nomeia o efeito real produzido pelo confronto entre a expectativa do gênero (homenagem fúnebre) e o conteúdo do texto (arrependimento e desejo de mudança); as demais alternativas ou repetem a função literal do epitáfio, ou inventam elementos que não aparecem no texto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente explora questões em que um gênero textual é usado fora de seu contexto convencional (uma bula que vira poema, uma receita que vira crônica, um epitáfio que vira canção de autoanálise); o candidato precisa perceber o desvio de função, não apenas identificar o gênero.
  • Generalização: sempre que o enunciado disser que um gênero foi "apropriado", "recriado" ou "ressignificado", desconfie de alternativas que apenas descrevem a função original do gênero — a resposta certa quase sempre está no novo efeito de sentido criado pelo contraste entre forma e conteúdo.
  • Dica de eliminação rápida: primeiro, mapeie os verbos-chave do texto (aqui, "devia ter" e "queria ter") — eles quase sempre indicam a emoção central; depois, elimine de cara as alternativas que descrevem o gênero em seu sentido de dicionário (A, D e E remetem à morte/lápide, sentido que o texto não usa literalmente).
  • Conexões: compare com questões sobre paródia e paráfrase, e com textos que subvertem gêneros como carta, bilhete ou anúncio publicitário para fins poéticos ou de crítica social — o raciocínio de "forma conhecida + função nova = efeito de sentido" se repete em várias provas do ENEM.

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