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Mapa de questões · 1º dia
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Questão 28ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia

Vaca Estrela e Boi Fubá

Seu doutô, me dê licença

Pra minha história contar

Hoje eu tô em terra estranha

É bem triste o meu penar

Eu já fui muito feliz

Vivendo no meu lugar

Eu tinha cavalo bão

Gostava de campear

Todo dia eu aboiava

Na porteira do currá

[…]

Eu sou fio do Nordeste

Não nego meu naturá

Mas uma seca medonha

Me tangeu de lá pra cá

PATATIVA DO ASSARÉ. Intérpretes: PENA BRANCA; XAVANTINHO; TEIXEIRA, R. Ao vivo em Tatuí. Rio de Janeiro: Kuarup Discos, 1992 (fragmento).

Considerando-se o registro linguístico apresentado, a letra dessa canção

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Variação Linguística (sociolinguística)
  • ⚡ Nível: Médio — exige distinguir sentidos próximos entre as alternativas, e não apenas reconhecer que a letra usa linguagem regional/oral.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento da variação linguística como patrimônio cultural, sem hierarquização entre "certo" e "errado" na língua.
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que a canção, escrita em registro regional nordestino, representa em relação à língua portuguesa falada no Brasil?"
  • Palavras-chave decisivas: registro linguístico, considerando-se, a letra dessa canção
  • Armadilha típica: interpretar o registro popular como "erro", "desvio" ou algo que precisa ser "explicado/discutido", em vez de reconhecê-lo como uma variedade legítima da língua.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende variação linguística como parte constitutiva — não marginal — do português brasileiro, sem juízo de valor sobre "certo" ou "errado".

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Variação linguística diatópica: mudanças na língua conforme a região geográfica; o cantador nordestino usa marcas fonéticas e lexicais típicas de sua região (apagamento do -r final, monotongação, léxico rural).
  • Registro oral/popular: modalidade de fala espontânea, associada à oralidade e à cultura popular, distinta da norma-padrão escrita, mas igualmente sistemática e regrada.
  • Patrimônio linguístico: conjunto de variedades, sotaques, léxicos e formas de falar que compõem a riqueza histórico-cultural de uma língua; nenhuma variedade é "impura" — todas integram esse patrimônio.
  • Preconceito linguístico (conceito-base da BNCC/ENEM): o ENEM cobra sistematicamente questões que combatem a ideia de que a fala regional/popular é inferior à norma culta, valorizando-a como expressão legítima de identidade.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Seu doutô, me dê licença" → forma "doutô" (apagamento do -r final de "doutor") marca oralidade e regionalismo nordestino, sem comprometer a comunicação.
  • Evidência 2: "Eu sou fio do Nordeste / Não nego meu naturá" → "fio" (filho) e "naturá" (natural) são variantes fonéticas típicas da fala popular rural, reforçando a identidade regional do eu lírico.
  • Evidência 3: "Todo dia eu aboiava / Na porteira do currá" → "currá" (curral) confirma o mesmo padrão sistemático de queda do -r em posição final de sílaba, típico da oralidade popular, não um erro aleatório.
  • Síntese: A canção, de autoria de Patativa do Assaré (poeta popular cearense) e cantada por intérpretes tradicionais, registra de forma autêntica uma variedade regional/popular do português — mostrando que essa fala não é "menos língua", mas parte viva do repertório linguístico brasileiro.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno linguístico em jogo

O texto apresenta marcas claras de variação linguística diatópica e social: "doutô", "fio", "naturá", "currá", "bão" (bom), "currá" (curral). Todas seguem um padrão fonético regular — o apagamento do -r final e outras reduções típicas da fala rural nordestina — e não um amontoado de "erros" aleatórios. Isso já elimina qualquer leitura que trate a canção como uso "estranho" ou "raro" da língua.

Subpasso 4.2 — Relacionar o fenômeno ao que a questão pede

A pergunta pede o que a letra da canção representa em relação à língua. Como se trata de uma manifestação cultural genuína — um cantador de aboio narrando sua história em sua própria variedade —, a canção não está "ensinando", "influenciando" ou "discutindo" a língua: ela simplesmente é uma amostra viva dessa variedade, que, por ser legítima e enraizada culturalmente, compõe o patrimônio linguístico do português brasileiro. Patrimônio linguístico é justamente isso: o conjunto de todas as variedades — cultas, populares, regionais, urbanas, rurais — que juntas formam a língua portuguesa falada no Brasil.

Subpasso 4.3 — Verificação

Ao testar a alternativa E contra o texto: a canção usa uma variedade regional (nordestina, rural, popular) de forma natural e coerente, sem qualquer intenção de "exaltar", "influenciar" ou "discutir" essa fala — ela apenas a documenta e a expressa, evidenciando que essa forma de falar já pertence, com pleno direito, ao patrimônio linguístico nacional. A alternativa E é a única que descreve esse papel com precisão conceitual.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) exalta uma forma específica de dizer.

❌ Incorreta: a canção não tem intenção de exaltação, elogio ou valorização deliberada de uma forma de falar; ela simplesmente narra uma história pessoal usando a variedade natural do eu lírico. "Exaltar" pressupõe um efeito de destaque/louvor que o texto não constrói.

B) utiliza elementos pouco usuais na língua.

❌ Incorreta: as marcas linguísticas presentes ("doutô", "fio", "currá") não são "pouco usuais" — pelo contrário, são extremamente recorrentes e sistemáticas na fala popular nordestina, configurando um padrão regular de uma variedade linguística, não uma raridade ou excentricidade.

C) influencia a maneira de falar do povo brasileiro.

❌ Incorreta: não há no texto nenhuma evidência de que a canção cause ou molde a fala de outras pessoas; ela reflete uma variedade já existente e enraizada culturalmente, não a origina nem a difunde de modo a alterar hábitos linguísticos alheios.

D) discute a diversidade lexical de um dado grupo social.

❌ Incorreta: "discutir" implica reflexão metalinguística explícita sobre a língua — algo que o texto não faz. A canção usa a variedade linguística para contar uma história de vida (a seca, a saudade da terra), não faz uma análise ou debate sobre o léxico do grupo social nordestino.

E) integra o patrimônio linguístico do português brasileiro.

✅ Correta: a letra registra, de forma autêntica e sistemática, uma variedade regional/popular da língua portuguesa. Por ser uma manifestação cultural legítima — assim como a norma culta —, essa fala compõe o patrimônio linguístico nacional, evidenciando que a diversidade de registros é constitutiva, e não marginal, do português brasileiro.

🏆 Gabarito: E — a canção documenta uma variedade regional autêntica do português brasileiro, que, por sua legitimidade cultural e histórica, integra o patrimônio linguístico da língua, sem qualquer relação hierárquica de "certo" ou "errado".

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: Apenas a alternativa E descreve com precisão o papel do registro regional na canção: ele não é exaltado, não é raro, não influencia terceiros nem é objeto de discussão — ele simplesmente existe como parte legítima e valiosa da língua portuguesa falada no Brasil.
  • Padrão de cobrança: O ENEM recorrentemente traz textos em variedades populares, regionais ou orais (cordel, repente, aboio, fala coloquial) para testar se o candidato reconhece a variação linguística como riqueza cultural, combatendo o preconceito linguístico — nunca para classificar essas falas como "erradas".
  • Generalização: Sempre que a questão apresentar um texto em registro não padrão e perguntar "o que isso representa para a língua", desconfie de alternativas que sugiram erro, raridade ou hierarquia; a resposta correta quase sempre valoriza a variedade como parte legítima do idioma.
  • Dica de eliminação rápida: Elimine de cara alternativas com verbos que implicam ação/efeito não sustentado pelo texto ("influencia", "discute") e as que tratam a fala regional como "incomum" ou "digna de exaltação especial" — o texto apenas usa a variedade com naturalidade.
  • Conexões: Compare com outras questões ENEM sobre preconceito linguístico (ex.: crônicas de Marcos Bagno) e sobre a norma-padrão versus variedades não padrão em textos de humor, cordel ou letras de música regional.

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