Mapa de questões · 1º dia
Questão 70 — ENEM 2020 PPLCaderno azul · 1º Dia
Ao longo de uma evolução iniciada nos meados do século XIV, o tráfico lusitano se desenvolve na periferia da economia metropolitana e das trocas africanas. Em seguida, o negócio se apresenta como uma fonte de receita para a Coroa e responde à demanda escravista de outras regiões europeias. Por fim, os africanos são usados para consolidar a produção ultramarina.
ALENCASTRO, L. F. O trato dos viventes. São Paulo: Cia. das Letras, 2000 (adaptado).
A atividade econômica destacada no texto é um dos elementos do processo que levou o reino português a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil Colonial, tráfico negreiro e mercantilismo atlântico
- ⚡ Nível: Médio — exige articular um texto historiográfico denso (Alencastro) com o processo de formação econômica da colônia, sem que a resposta esteja explícita no texto
- 🎯 Tema/Habilidade: O tráfico negreiro português como engrenagem da economia colonial açucareira; competência de leitura e interpretação de fontes historiográficas em Ciências Humanas
- 🏆 Gabarito: E — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Para que finalidade econômico-colonial serviu o tráfico negreiro português descrito no texto?"
- Palavras-chave decisivas: consolidar a produção ultramarina, fonte de receita para a Coroa, empreitada colonial
- Armadilha típica: confundir o tráfico negreiro com outros processos reais da história de Portugal (Tratado de Tordesilhas, ciclo do ouro, catequese jesuítica) que existiram, mas não são a consequência apontada por este texto específico.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato reconhece qual atividade produtiva concreta, no litoral da colônia, dependeu diretamente da mão de obra escravizada africana para se sustentar.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Tráfico negreiro lusitano: rede de comércio de pessoas escravizadas entre a costa africana e os territórios sob domínio português, que evolui de atividade marginal para pilar do sistema mercantilista atlântico.
- Agromanufatura açucareira (engenho): sistema produtivo que combina lavoura (cultivo da cana) e manufatura (moagem, cozimento, purificação) em uma única unidade, voltado à exportação, e estruturado sobre o trabalho escravo.
- Empreitada colonial: o projeto português de ocupação e exploração econômica do Brasil, sustentado pelo Pacto Colonial (monopólio comercial da metrópole sobre a colônia).
- Ciclo do açúcar (séculos XVI-XVII): primeiro grande ciclo econômico do Brasil colonial, resposta à alta demanda europeia pelo produto e base da riqueza que justificava manter a colonização em curso.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o tráfico lusitano se desenvolve na periferia da economia metropolitana e das trocas africanas" → fase inicial: o comércio de pessoas escravizadas ainda é secundário, misturado a outras trocas na costa africana (ouro, marfim, pimenta-da-guiné).
- Evidência 2: "o negócio se apresenta como uma fonte de receita para a Coroa e responde à demanda escravista de outras regiões europeias" → segunda fase: o tráfico se profissionaliza, passa a gerar tributos diretos ao Estado português e a abastecer também outros mercados escravistas europeus, tornando-se negócio de escala.
- Evidência 3: "por fim, os africanos são usados para consolidar a produção ultramarina" → fase final e decisiva: a mão de obra africana deixa de ser apenas mercadoria de trânsito e passa a sustentar diretamente a produção nas colônias americanas.
- Síntese: o texto narra uma trajetória de "periferia" a "centro": o tráfico negreiro deixa de ser atividade acessória e se torna a base de sustentação da principal atividade produtiva da colônia — no Brasil dos séculos XVI e XVII, essa produção ultramarina foi, por excelência, a açucareira.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o processo no tempo
A expansão marítima portuguesa avança ao longo dos séculos XV e XVI: primeiro reconhecendo a costa africana e estabelecendo entrepostos comerciais, depois — após a chegada a terras americanas — organizando a colonização efetiva do Brasil a partir de 1530 (expedições colonizadoras, capitanias hereditárias e, em 1549, o Governo-Geral). Colonizar exigia, além de terra, um sistema produtivo capaz de gerar excedente exportável que justificasse o investimento da Coroa.
Subpasso 4.2 — Identificar a atividade que dá sentido ao tráfico
O litoral nordestino oferecia solo (massapê) e clima propícios ao cultivo da cana-de-açúcar, cultura já dominada por Portugal em suas ilhas atlânticas (Madeira e São Tomé). A Europa consumia açúcar como produto de alto valor, criando demanda constante. Faltava, porém, mão de obra em escala: o trabalho indígena revelou-se insuficiente — por resistência ao cativeiro, fugas, mortandade por doenças e pela oposição de setores da própria Igreja à escravização de nativos. A solução veio da rede de tráfico que Portugal já dominava na costa africana desde o século XV: transferir africanos escravizados para operar os engenhos. É exatamente esse movimento que o texto descreve na sua etapa final — "os africanos são usados para consolidar a produção ultramarina".
Subpasso 4.3 — Verificação
Relendo a alternativa E — "implementar a agromanufatura açucareira para viabilizar a continuidade da empreitada colonial" — ela reproduz com precisão o desfecho do texto: a "produção ultramarina" consolidada pela mão de obra africana era o complexo do engenho de açúcar, e essa produção era o que sustentava financeiramente a continuidade do projeto colonial português no Brasil. Nenhuma outra alternativa liga esse encadeamento de causa e efeito ao conteúdo do texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) utilizar o clero jesuíta para garantir a manutenção da emancipação indígena.
❌ Incorreta: o texto trata do tráfico de africanos escravizados, não da relação de Portugal com os povos indígenas. Historicamente, aliás, parte do clero jesuíta se opôs à escravização indígena — foi um contraponto ao cativeiro nativo, não uma política de "emancipação" promovida pela Coroa em decorrência do tráfico atlântico. A alternativa inverte o sujeito do processo descrito.
B) dinamizar o setor fabril para absorver os lucros dos investimentos senhoriais.
❌ Incorreta: Portugal jamais desenvolveu, no período, uma indústria manufatureira robusta a partir dos lucros do tráfico e do açúcar. Pelo contrário: sob a lógica mercantilista do Pacto Colonial, a colônia deveria apenas produzir matéria-prima e consumir manufaturados metropolitanos ou importados — o capital gerado era reinvestido no próprio circuito comercial (tráfico-açúcar) e no aparato fiscal da Coroa, não em um "setor fabril".
C) aceitar a tutela papal para reivindicar a exclusividade das rotas transoceânicas.
❌ Incorreta: essa descrição remete ao Tratado de Tordesilhas (1494), mediado pelo papa Alexandre VI para dividir as terras a serem descobertas entre Portugal e Espanha. Trata-se de um processo diplomático anterior e independente da dinâmica narrada no texto, que descreve a evolução econômica do tráfico negreiro até seu uso na produção colonial — não há relação de causa e efeito entre os dois processos.
D) fortalecer os estabelecimentos bancários para financiar a expansão da exploração mineradora.
❌ Incorreta: o ciclo do ouro no Brasil é fenômeno do século XVIII, posterior à fase de tráfico e produção açucareira retratada no texto (típica dos séculos XVI-XVII). Além disso, o financiamento da mineração não se deu por meio de "estabelecimentos bancários" — ainda incipientes em Portugal — mas por mecanismos fiscais como o quinto e as casas de fundição.
E) implementar a agromanufatura açucareira para viabilizar a continuidade da empreitada colonial.
✅ Correta: é exatamente o que o texto descreve em sua etapa final — a mão de obra africana escravizada sustentando a "produção ultramarina", isto é, os engenhos de açúcar do Brasil colonial. Essa produção era o motor econômico que justificava e financiava a manutenção do empreendimento colonizador português.
🏆 Gabarito: E — o tráfico negreiro, na trajetória descrita pelo texto, culmina no fornecimento de mão de obra para a agromanufatura açucareira, atividade que sustentava economicamente a continuidade da colonização portuguesa no Brasil.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que fecha o raciocínio do texto — tráfico negreiro → mão de obra em larga escala → produção açucareira → sustentação da empreitada colonial.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos historiográficos (Alencastro, Boris Fausto, Caio Prado Jr.) sobre escravidão africana e economia colonial, pedindo que o estudante conecte o tráfico ao ciclo econômico correspondente ao período histórico indicado.
- Generalização: sempre que um enunciado tratar de escravidão + "produção nas colônias americanas", associe ao ciclo econômico compatível com a época mencionada — açúcar nos séculos XVI-XVII, ouro no século XVIII, café no século XIX.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que citem processos de outro recorte temporal (mineração remete ao XVIII, Tordesilhas ao XV) ou que descrevam desenvolvimento industrial/bancário incompatível com a lógica mercantilista e agroexportadora do período colonial.
- Conexões: Pacto Colonial e mercantilismo europeu; comércio triangular atlântico (Europa-África-América); formação do sistema de plantation no Brasil colonial.
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